Cabinda

Crise no Movimento Independentista de Cabinda pode levar à criação de nova organização

MIC antes da crise

Após ter integrado solidamente a paisagem política do nacionalismo cabindês o Movimento Independentista de Cabinda (MIC) entrou numa fase de conflitos internos que resultou numa cisão em que ambas as partes assumem-se como legitimas.

Uma das partes tem à cabeça Maurício Gimbi, que afirma o MIC está a ser alvo de um “Golpe e Estado” interno e cujas motivações dos seus críticos são o “protagonismo”, sendo também as divisões “provavelmente” o resultado de “manobras do inimigo”, Angola.

A outra parte, nomeou Carlos Manuel Cumba Vemba como novo presidente do MIC num “congresso extraordinário” que confirmou a destituição Maurício Gimbi da presidência da organização. Uma destituição que Maurício Gimbi não reconhece, alegando que o “congresso extraordinário” foi “ilegal” e não respeitou os estatutos do movimento. Por sua vez, o MIC presidido por Vemba, critica Maurício Gimbi de ter assumido uma postura demasiadamente autoritária, mas também de ter traído os ideais do MIC.

Apesar de ambas as partes terem tentado evitar a mediatização dos problemas internos no MIC, os múltiplos comunicados e declarações publicadas nas redes sociais levaram a que opinião pública cabindesa tivesse conhecimento das divisões em que mergulhara um dos mais recentes e mediáticos movimentos nacionalistas cabindeses, que popularizou-se pela sua posição independentista e pelas acções públicas desafiando o regime angolano que levaram à detenção colectiva da maioria dos membros da organização.

Maurício Gimbi e António Soqui, reconheceram que os problemas no MIC começaram antes da pretendida Marcha comemorativa da Assinatura do Tratado de Simulambuco, a 1 de Fevereiro, que resultou na detenção dos membros da direcção e militantes do MIC pelas forças de segurança angolanas. Durante os cerca de seis meses de detenção a coesão do grupo foi posta à prova, acabando por acentuar as divisões e as críticas internas. Um dos pontos que fomentou discordâncias foi a estratégia que deveria seguir o MIC. Defendendo ambas as partes a prevalência de uma “luta exclusivamente pacífica”, discordavam na radicalização, ou não, das suas acções.

A ruptura acontece pouco depois da libertação dos 10 últimos membros do MIC, do conjunto de mais de 50 detidos. Neste momento Maurício Nzulu, presidente do Fórum Cabindês para o Diálogo (FCD) propõs um encontro “para troca de ideias” com os membros da direcção do MIC, entre os quais Maurício Gimbi e António Soqui, presidente e vice-presidente do movimento. Durante a reunião elementos do FCD criticaram violentamente o posicionamento independentista do MIC. Mesmo assim, no final do encontro Maurício Nzulu terá proposto uma segunda reunião em que o MIC apresentaria um documento expondo o posicionamento da organização.

António Soqui opôs-se a que o MIC aceitasse e estivesse presente na segunda reunião, mas Maurício Gimbi decidiu estar presente e entregar o documento solicitado por Maurício Nzulu, em que elencava as razões do MIC não aderir às iniciativas do FCD. No entanto, Maurício Gimbi afirma que Nzulu nunca solicitou o dito documento, e consequentemente não foi entregue qualquer parecer do MIC na referida segunda reunião em que estiveram presentes outras organizações cabindesas.

Este episódio acelerou a ruptura na direcção do MIC. Ciente da existência de um grupo que punha em causa a sua liderança, Maurício Gimbi organizou em sua casa uma reunião com os seus principais críticos. Uma reunião que não nutriu qualquer efeito, levando Maurício Gimbi a divulgar a 23 de Julho um “despacho” em que anunciava a exoneração António Soqui, do cargo de vice-presidente, Carlos Manuel Cumba Vemba da função de secretário-geral, Filipe Macaia Luemba do cargo de secretário para a formação de quadros, Alfredo Duda dos assuntos religiosos e José Pedro Buanga Diogo de secretário para os Direitos Humanos. Os cinco elementos exonerados, para além dos postos chave que ocupavam, todos faziam parte do Bureau Político do MIC.

Poucos minutos depois da divulgação do “despacho” de Maurício Gimbi, é difundido através das redes sociais um comunicado do “Colectivo do Bureau Político” que anunciava a destituição de Maurício Gimbi da presidência do MIC devido a “traição aos ideais” da organização, quebra de confiança política, “tendências absolutistas”, entre outras graves acusações. No mesmo documento o “Colectivo do Bureau Político” anunciou a realização de um “Congresso Extraordinário” que ficou marcado para 28 de Julho.

O “Colectivo do Bureau Político” era constituído por 7 dos 9 elementos que compunham o Bureau Político do MIC antes da crise. Assim, para além dos cinco “exonerados” por Maurício Gimbi, constavam também Geraldo Ngaca Nduli e Sebastiao Macaia Bungo, o qual assinara o “despacho” de Maurício Gimbi referente às exonerações. “Erradamente, considerava que as exonerações eram o remédio para o fim da instabilidade” no MIC, explicou Sebastiao Macaia Bungo. Em oposição à decisão do “Colectivo do Bureau Político” estavam Eduardo Matunda Muindo e Maurício Gimbi. Esta quinta-feira, 01 de Agosto, Eduardo Matunda Muindo anunciou que deixava o MIC mas que reconhecia a “grande capacidade de liderança” de Maurício Gimbi.

No “Congresso Extraordinário” de 28 de Julho, Carlos Manuel Cumba Vemba foi eleito presidente do MIC e nomeado Filipe Macaia Luemba como Secretário-Geral; José Pedro Buanga Diogo, Secretário-Geral Adjunto; António Marcos Soqui, Chefe do Gabinete Presidencial; Alberto Puna Buzi Cibi, Secretário para Formação Política e Ideológica; Sebastião Macaia Bungo, Secretário para Informação e Comunicação; entre outros. Na mesma ocasião foi composto o novo Comité Central.

Maurício Gimbi não reconhece a legitimidade do “Congresso Extraordinário” de 28 de Julho, nem as suas resoluções, e acusa estes membros de “fraccionismo”. Para Maurício Gimbi as divisões no MIC têm “descredibilizado e sujado o nome” do movimento através de “difamações e calúnias”.

Ambas as partes não recuam nas suas posições, começando já a ser debatido quem tem legitimidade para utilizar o nome e acrónimo MIC mas também a bandeira e os símbolos da organização.

Perante o cenário irreversível da crise e divórcio consumado entre os membros das duas correntes, não está excluída a possibilidade da constituição de uma nova organização independentista em Cabinda, podendo esta ser anunciada brevemente.

Actualizado às 14:37 de 03 de Agosto 2019

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