Cabinda | Entrevista

“Há um perigo que se aproxima caso não se resolva o problema de Cabinda”, alerta Maurício Gimbi

Maurício Gimbi

Esteve cerca de seis meses detido, indiciado, juntamente com vários activistas cabindeses, de “associação criminosa, rebelião, ultraje ao Estado e resistência”, por ter pretendido organizar uma marcha pacífica comemorativa da assinatura do Tratado de Simulambuco. Maurício Gimbi, presidente do Movimento Independentista Cabindês (MIC) diz que ainda não compreendeu concretamente o que motivou a sua detenção assim como de outros militantes do MIC.

“Até agora não compreendemos os motivos da detenção. Não compreendemos porque o MIC é uma organização muito comunicativa e uma organização política pacífica”, disse Maurício Gimbi à e-Global que explicou que actualmente são aplicadas medidas de coacção como “termo de identidade e residência, proibidos de sair do território, apresentação uma vez por semana e proibidos de mudar de residência”.

Apesar do longo período de detenção “não ter sido fácil”, o presidente do MIC diz que acabou por ser “uma experiência muito válida. Aprendi muito e pude conhecer melhor as pessoas que trabalham comigo”. Durante esse período os membros do MIC detidos sentiram-se apoiados, particularmente pelo “povo, pela sociedade civil, activistas cívicos de Cabinda” e por membros de partidos políticos angolanos que foram visitar os activistas à prisão.

“A nossa forma para alcançar a Independência, é por via de uma negociação”

Evitando revelar as próximas acções do MIC, Maurício Gimbi reafirmou o posicionamento independentista do movimento, mas também a disponibilidade da organização em negociar com Angola. “A nossa forma para alcançar a Independência, é por via de uma negociação. E essas negociações podem prever a cooperação no âmbito económico, politico e diplomático entre os dois estados, o Estado angolano e o Estado cabindês”, explicou Maurício Gimbi.

Negociações que para o presidente do MIC são urgentes a fim de “evitar o pior”. Para Maurício Gimbi se a actual situação no enclave prevalecer “poderá acontecer algo que nunca se viu antes em Cabinda. E não queremos que isso aconteça, porque o derramamento de sangue e a guerra nunca foi a melhor via para resolver os problemas, aliás piora as coisas”.

Com a falta de soluções para a resolução do Problema de Cabinda o líder do MIC receia uma revolta popular radicalizada. “Nós, os líderes, recebemos várias pessoas, várias facções, e temos dado o conselho para permanecerem calmos. Temo que o povo de Cabinda se radicalize e que haja uma revolta popular que nenhum de nós poderá controlar. A melhor forma de a evitar é o governo angolano sentar-se com os representantes legítimos de Cabinda, as sensibilidades cabindesas, e encontramos uma solução para este problema”, defendeu o líder do MIC.

“Há um perigo que se aproxima caso não se resolva o problema de Cabinda”

“Há um perigo que se aproxima caso não se resolva o problema de Cabinda. O povo de Cabinda tem sido pacífico durante muito tempo. Mas vão chegando novas gerações, e as novas gerações são mais radicais sobre este problema. Por esse motivo nós, sendo líderes juvenis, optamos por uma via pacífica para que deste modo possamos sensibilizar o governo angolano a optar pela via do diálogo”.

Sobre as várias iniciativas que têm surgido e que visam reunificar e congregar várias sensibilidades politicas cabindesas, Maurício Gimbi defende que para o MIC esta dinâmica é construtiva e sublinha que “conversar faz bem. É muito bom participar nos encontros. O MIC não tem problema com isso”.

Para o líder do MIC é positiva “qualquer iniciativa que vise congregar as sensibilidades cabindesas para a resolução do problema”, no entanto, “quanto à congregação do MIC em plataformas, é uma questão que terá de ser analisada profundamente”.

“Estarmos todos juntos, não implica que estamos unidos”

“Estarmos todos juntos, não implica que estamos unidos”, realça Maurício Gimbi que não esconde um certo cepticismo quanto à congregação de várias organizações numa plataforma única, em que poderá ser eleita uma direcção, a qual “poderá, eventualmente, falhar ou trair-nos, conforme aconteceu com o Fórum Cabindês para o Diálogo (FCD). Não podemos continuar a cometer os mesmos erros do passado. Já aprendemos. Agora temos de fazer aquilo que nunca antes foi feito para alcançar o que nunca alcançamos”.

Relativamente às propostas a apresentar em possíveis negociações com Angola, Maurício Gimbi é peremptório: “O que o povo de Cabinda quer é a independência. Nós no MIC entendemos que quem deve apresentar a proposta de autonomia é o Governo angolano, não somos nós os cabindeses que devemos apresentar essa proposta. A nossa proposta é a Independência. Mas será na mesa das negociações que isto deverá ser debatido. Se nós cabindeses apresentarmos a proposta de autonomia, qual será a proposta que vão apresentar os angolanos?”, questiona Maurício Gimbi, presidente do Movimento Independentista de Cabinda (MIC).

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