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Cabo Verde: O Mindelact celebra a “Liberdade” em palco

Mindelact 2019 "Contos Negreiros do Brasil". Fotografia de Queila Fernandes

A 25ª edição do festival Internacional de teatro do Mindelo, conhecido como Mindelact, o maior evento teatral de Cabo Verde, junta em palco várias linguagens, provenientes de diversos países a fim de celebrar a Arte e a “Liberdade” das múltiplas execuções artísticas. Em conversa com João Branco, principal dinamizador do Mindelact, percebeu-se que estas “bodas de prata” assentam na “inovação” de ideias e que o público do Mindelo continua a “abraçar este projeto”.

João Branco, ao fim de 25 anos como é que Mindeact se vai renovando?

Eu gosto da palavra “renovação” mas gosto ainda mais da palavra “inovação”, por que todo este festival se sustenta desde a sua fundação numa ampla rede de afetos que vai crescendo cada vez mais, e cada ano há cada vez mais gente incrível querendo vir, companhias de renome mundial que se predispõem a vir a Cabo Verde. Todos os anos tentamos trazer companhias e artistas que nunca cá vieram, porque se não esta rede de afetos acaba por estar fechada em si mesma, por isso é sempre importante que haja novas pessoas, novos projetos, novas linguagens a ser apresentadas. Nós nunca pensamos na curadoria deste festival do ponto de vista temático, os espetáculos vão sendo escolhidos um a um a partir de uma preocupação que tem a ver com a qualidade artística das peças e a diversidade, o que torna este encontro também numa grande escola artística e humana.

O que se destaca mais nesta edição de 2019?

Este ano, não sendo propositado, a palavra que melhor resume esta edição, que é importantíssima pois estamos a celebrar as bodas de prata, é a palavra liberdade. Nós tivemos no primeiro dia uma produção do Teatro Nacional de São João em que quatro das cinco personagens do espetáculo se despem completamente e desempenham o seu papel em nu frontal, o que seria inconcebível há alguns anos em Cabo Verde. Recebemos ainda os artistas Kaori Ito do Japão e Théo Touvet de França, que abordam de forma muito direta a intimidade e a vida de um casal em forma de diálogo, primeiro com o público, e depois a transformação desse diálogo em dança, arte e performance, ou seja, um espetáculo com potencial para ser censurado em muitos países, há ainda representantes muito importantes do movimento negro brasileiro que abordam a questão do racismo estrutural, que o Brasil vive hoje em dia. Na segunda-feira, passou ainda o espetáculo de Elmano Sancho, Damas da Noite, que fala de transformismo, de questões de identidade do género, de transformações de índole sexual-identitária. E aquilo que me orgulha muito verificar aqui e aquilo que tem sido documentado pelos próprios artistas é a total recetividade do público do Mindelo que não faz qualquer julgamento de índole moral. Há uma ampla comunicação entre quem vê e entre quem faz.

Acha que o incremento do Estado cabo-verdiano no desenvolvimento das indústrias criativas também se nota aqui?

Nós, dentro deste Festival, conseguimos reunir amplas parcerias das mais diversas proveniências. Claro que o apoio do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas é importante, assim como é o da Câmara Municipal de São Vicente, mas também é importante sublinhar o mecenato nacional, dentro daquilo que é possível atendendo ao contexto económico do país. Falamos também do pequeno empresariado local através da oferta de um quarto, no desconto em determinados serviços, no carinho e afeto que têm por este festival. O governo de Cabo Verde tem feito o seu trabalho, tendo em conta o peso das manifestações culturais e artísticas que existem em Cabo Verde e a influência dessas atividades no desenvolvimento do tecido económico do país, mas a disponibilidade orçamental para este setor ainda está muito aquém daquilo que é a real importância das indústrias criativas no país. Por exemplo, se perguntarmos aos turistas que chegam diariamente de como tiveram conhecimento do país, penso que grande parte deles diria que foi através das manifestações culturais cabo-verdianas. Por outro lado, existem vários eventos a acontecer diariamente em várias ilhas e cada vez que estes eventos acontecem, são empregos que se geram, é uma indústria local que é incentivada. Por isso, tendo em consideração todos estes fatores, e concordando com o próprio ministro da cultura, creio que a execução orçamental deste Ministério deveria ser substancialmente maior.

A partir do momento que se dá o encerramento desta edição, começa-se logo a preparar a próxima edição? Como é que funciona este projeto?

Nós já temos espetáculos programados para 2020 através de parcerias que se vão desenvolvendo e de tentativas que foram sendo feitas para trazer determinados espetáculos ou artistas que não tinham agenda para este ano, mas que conseguem estar cá no próximo ano. Eu vou dar um exemplo, foram precisos três anos para conseguir ter cá a Kaori Ito, uma coreógrafa japonesa muito importante no universo da dança, que foi resultado de uma negociação de agendas. Em janeiro abrimos um edital que é público para quem quiser participar, para aqueles artistas e companhias que nunca estiveram presentes no Mindelact, mas uma parte substancial da programação é feita através de uma série de conversações e “namoros” a longo prazo.

Como é que a população do Mindelo vive esta dinâmica, estes dias do Festival?

A nossa perceção é que a cidade abraça este festival com muito carinho e isso é muito motivador e incentivante. Até esta data já mais de 5500 pessoas viram os espetáculos que aconteceram até à data, ou seja cerca de 10% da população já passou pelo festival. Tendo em conta a dimensão da cidade e o poder económico dos cidadãos, isso é fabuloso. Um dos nossos principais combustíveis para nos empurrarem para a organização do próximo ano. É importante sublinhar que nós somos todos voluntários.

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