Entrevista | Lusofonia

“É a diversidade que faz a riqueza da língua portuguesa, que não é propriedade de Portugal mas antes de todos os países que compõem a CPLP”

No dia 5 de maio celebrou-se o primeiro Dia Mundial da LÍngua Portuguesa, proclamado pela Unesco em Novembro de 2019. Nas palavras do Presidente do Camões, I.P, Luís Faro Ramos, trata-se de um passo que impulsiona “a projecção internacional do português”. Longe de imaginar que este dia seria vivido neste contexto de pandemia despoletada pelo novo coronavírus, as videoconferências e concertos online marcaram a última semana de celebração, através de várias iniciativas coordenadas pelo instituto que contaram com a presença de escritores, artistas, leitores de diversas latitudes. Mas se a questão não representou um problema e a escolha pelo digital é já é uma realidade cimentada no seio do Instituto, o desafio- recorda Luís Ramos- está “em não deixar ninguém para trás” numa esfera tecnológica ainda muito desigual entre os vários países que compõem a CPLP.

 

 por Ana Gonçalves

 

A comemoração do dia mundial da Língua portuguesa foi a realização de um sonho antigo? Como se chegou até aqui?

A decisão da UNESCO, tomada no final do ano passado, de instituir o dia 5 de maio como o Dia Mundial da Língua Portuguesa, representa um passo da maior relevância no reconhecimento da projeção internacional do português e da sua valia enquanto língua global e pluricêntrica. É um caminho que se vai percorrendo e que um dia, esperamos, fará do português uma das línguas oficiais das Nações Unidas.

 

O Instituto Camões tem tido um peso relevante no tecido cultural dos vários países lusófonos, com vários agentes culturais e Leitores a referirem isso mesmo. Atualmente, com quantos parceiros trabalha o Instituto Camões? É possível apontar um número?

O Camões – Instituto da Cooperação e da Língua está presente nos países de língua oficial portuguesa através de múltiplas manifestações, tanto nas áreas da cultura e da língua como na da cooperação para o desenvolvimento. Cabe realçar neste aspeto o papel fundamental desempenhado pelos nossos Centros Culturais nesses países, que são agentes poderosíssimos de divulgação de artistas locais, num espírito de parceria notável que envolve dezenas de parceiros. Há que acrescentar as atividades quotidianas que os nossos Leitores desenvolvem juntos das Universidades, e que se refletem em inúmeras manifestações culturais com as comunidades estudantis.

 

Ninguém esperaria que neste dia grande parte do mundo estivesse em confinamento. Como é que se conseguiu contornar o problema gerado pela pandemia?

O esforço maior está a ser direcionado para a adaptação da sede e do terreno
às condições difíceis em que temos que operar. Essa adaptação envolve uma utilização intensiva de métodos de trabalho à distância, de comunicação à distância. O problema não está contornado, eu diria que o esforço prossegue, e sentimo-nos encorajados por ver que hoje já se trabalha substancialmente melhor do que há um mês atrás.

 

As ferramentas digitais ganham cada vez mais relevância actualmente em todos os prismas, mas tendo em consideração que a rede de internet ainda não é acessível a todos, em vários países do mundo, como se vai contornando e investindo ao mesmo tempo nesta área sem deixar ninguém para trás?

É um desafio. Entre a internet e a televisão, as mensagens de texto ou as de correio eletrónico, é preciso não descurar nenhuma possibilidade, precisamente para não deixar ninguém para trás. Como a necessidade aguça o engenho, temos a certeza de que nada voltará a ser como dantes também na nossa capacidade de enfrentar este género de desafios.

 

A língua portuguesa tem chegado a diversas latitudes e cada vez mais gente quer ter contacto com a língua, com principal enfoque no continente asiático, Mas, ao mesmo tempo, ainda é difícil para os jovens luso-descendentes terem acesso a aulas de português, especialmente no pré-escolar. É possível fazer algo nesse sentido?

Há que distinguir diversos níveis de ensino da língua. O português como língua estrangeira é objeto de procura crescente em todo o mundo, e o continente asiático é um bom exemplo dessa procura crescente. Quanto ao português como língua de herança – aquele que se destina aos luso-descendentes – é ensinado com apoio direto ou indireto do Camões, I.P. em todos os países com Comunidades Portuguesa de dimensão significativa, através de estruturas de oferta que estão adaptadas à procura existente, com um número robusto de docentes que servem atualmente um universo de mais de 70 000 estudantes.

 

A celebração deste dia pode de alguma forma chocar com o reforço e aprofundamento das línguas autóctones dos vários países que compõem a CPLP?  Como se trabalha esta questão nos países de Língua oficial portuguesa?

De modo algum. Uma língua não deve ser aprisionada. É a diversidade que faz a riqueza da língua portuguesa, que não é propriedade de Portugal mas antes de todos os países que compõem a CPLP. A CPLP tem o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, com sede em Cabo Verde, que justamente se ocupa das questões de uniformização.

 

A língua portuguesa já não é só a língua da saudade e da literatura, é também a língua dos negócios e da ciência? Ou esse patamar ainda não foi atingido? É necessário também um maior investimento nessas áreas?

A língua portuguesa é felizmente uma língua de muitas valências. Cultural, de ciência, económica, de comunicação, língua de pontes que se declinam em tantas portas que é possível abrir precisamente graças a esta riqueza de valências.

 

É comum dizer que a língua portuguesa ainda tem uma larga margem de crescimento, mas para isso é preciso cada vez mais investimento, Perante a crise económica que se avizinha, como se pode fazer face aos novos desafios que aí vêm? Terão eventualmente se fazer cortes ou, pelo contrário, investir na língua portuguesa nunca foi tão importante?

É comum e isso corresponde a factos. Estimam as Nações Unidas que no final deste século a língua portuguesa venha a ser falada por mais de 500 milhões de pessoas. Investir na língua portuguesa é um objetivo que deve ser partilhado por todos os países que a falam, e esse investimento é fundamental para que a nossa língua continue a projetar-nos à escala global.

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