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África: Aumento do risco de instrumentalização dos Fulas para manipulação política

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Ogossagou, Mali, Março de 2019, cerca de 160 pessoas de etnia Fula são massacradas. Em Janeiro, 48 pessoas de etnia Fula, 200 segundo a sociedade civil, foram assassinadas no Burkina Faso numa acção supostamente de represália das milícias Koglweogo ao ataque da aldeia Yirgou, atribuído aos jihadistas. Na Nigéria a mesma etnia é acusada de levar a cabo a “jihad Fula” e existir um “complot Fula” para islamizar todo o país. Também, na República Centro Africana (RCA) grupos fortemente armados maioritariamente Fulas e contrários ao programa de desarmamento justificam a sua existência como uma necessidade de autodefesa e protecção da minoria Fula no país.

“Está em curso um genocídio étnico”, denunciam militantes Fulas que defendem a criação de uma “Internacional Fula” política e de autodefesa. Outros, mais prudentes da adopção jurídica do termo “genocídio”, defendem que há uma real intenção de alguns Estados de pôr em prática um “genocídio cultural” da etnia Fula.

Apontada como o grupo mais disperso na África ocidental e central, a etnia Fula (também designada Fulani ou Peul, entre outras) é caracterizada, particularmente, pela actividade pastoral, nómada, de confissão muçulmana, em que partilha de algumas tradições e uma língua com raiz comum. No entanto não existe uma verdadeira homogeneidade nesta população. A dispersão geográfica, do Sahel à África Central e o processo secular de assimilação fez emergir múltiplas nações Fulas inseridas em Estados distintos, dos quais, vários, encaram as populações Fulas como “estrangeiros”, devido à sua mobilidade territorial.

Efeito colateral desta multitude de nações Fulas estão as rivalidades e divisões dominantes, tal como ficou patente entre os Fulas do Burkina Faso que encararam com desconfiança a chegada de refugiados Fulas do Mali, mas também dos Fulas nos Camarões indiferentes aos Fulas na RCA.

A fim de tentar promover uma certa homogeneidade da etnia Fula surgiram múltiplas organizações, com ambições internacionais, em que se destaca a Tabital Pulaaku Internacional, que todavia não goza de unanimidade devido à sua vertente quase exclusiva de promoção cultural Fula, abstraindo-se das questões políticas. A Tabital Pulaaku Internacional é igualmente criticada de ter-se tornado numa organização demasiadamente próxima dos governos e seguir uma linha oficial e estatal.

Como alternativa à Tabital Pulaaku Internacional, surgem organizações não-governamentais que não se esquivam das questões políticas que envolvem a etnia Fula e denunciam as acções de que os Fulas são alvo. Outras organizações com uma ambição marcadamente política, tentam emergir também e criar, implicando personalidades Fulas distintas, uma doutrina e agenda política multinacional que não descriminalize os Fulas e os defenda das “agressões” interétnicas e estatais. Ou seja, lançar os pilares para a consolidação de um lobby internacional Fula em África e em toda a Diáspora, com componentes culturais, sociais, económicas e políticas.

Laços familiares entre personalidades políticas Fulas conseguem ultrapassar as rivalidades e clivagens, constituindo informalmente uma confraria de influências, facilitações financeiras e interesses pessoais

Enquanto as organizações rivalizam-se em estratégias e definições, os laços familiares entre personalidades políticas Fulas conseguem ultrapassar as rivalidades e clivagens, constituindo informalmente uma confraria de influências, facilitações financeiras e interesses pessoais, na qual as comunidades Fulas não são a prioridade. Uma confraria que se estende, do Mali ao Senegal, da Guiné-Bissau ao Níger, da Mauritânia aos Camarões, do Burkina Faso à República Centro-Africana, entre outras conexões.

As comunidades Fulas tornaram-se também num capital de votos, ao qual os políticos não são indiferentes e para tal manifestam abertamente a sua origem Fula, tendo sido esta a estratégia do candidato à presidência no Mali, Soumaïla Cissé, na Nigéria com o presidente Muhammadu Buhari, ou do líder da oposição na Guiné Conacri, Cellou Dalein Diallo, mas também do presidente do Senegal, Macky Sall, que tenta sempre ser discreto quanto à sua origem Fula. Porém, ter um chefe de Estado Fula nem sempre beneficia esta população.

Frequentemente marginalizadas pelos poderes estatais, e estabelecidas fisicamente em territórios que pautam pela ausência das autoridades estatais, as comunidades Fulas tornaram-se no reservatório humano potencial de organizações islamistas radicais.

Sendo uma população maioritariamente muçulmana, que sente-se descriminalizada e abandonada no seu próprio país, está exposta e vulnerável à manipulação de organizações e predicadores que utilizam o factor da vitimização em proveito de dinâmicas sem relação à etnia Fula.

Surge assim Amadou Kouffa, carismático predicador Fula, respeitado por uma parte da população. Líder do movimento islamista radical Frente de Libertação do Macina, no Mali. Uma organização que integrou a esfera do tuaregue Iyad Ag Ghali líder do “Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos”, uma federação de organizações terroristas do Sahel que surge da iniciativa da Ansar Dine e da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI), assim como outras organizações islamistas da região.

Numa mensagem áudio, difundida pela organização de Iyad Ag Ghali, Amadou Kouffa apelara directamente às populações Fulas a aderirem à jihad. Com este apelo Amadou Kouffa tentou canalizar a revolta Fula para as fileiras jihadistas, quando o mesmo predicador sempre defendera a prioridade do Islão em detrimento dos Fulas. O primeiro efeito da declaração de Amadou Kouffa, foi o reforço do estigma da hipotética emergência de uma “Jihad Fula” e do imaginário popular que defende que um Fula “é um terrorista”.

Distinta da Frente de Libertação do Macina, mas que serviu de base no Burkina Faso à organização de Amadou Kouffa, a Ansarul Islam criada por Ibrahim Malam Dicko (antigo combatente de Kouffa, morto em 2017 e substituído pelo seu irmão Jafar Dicko), orientou-se também no recrutamento de jihadistas nas comunidades Fulas. Porém, a cooperação entre Kouffa e Dicko não resistiu às visões diferentes dos dois líderes jihadistas Fulas, em que um priorizava o Islão e outro as comunidades Fulas. O fim definitivo da colaboração entre as duas organizações acontece após a morte de Ibrahim Malam Dicko, e quando Amadou Kouffa integra a esfera de Iyad Ag Ghali.

O Islão radical e aplicação da Charia são incompatíveis com as tradições que caracterizam os Fulas

Apesar da violência das acções das organizações jihadistas Fulas, e da mediatização das mesmas, cada uma destas organizações não consegue atrair mais de três centenas de elementos. O motivo deste “desinteresse” reside na visão de um Islão radical e da aplicação da Charia, incompatível com as tradições que caracterizam os Fulas, tal como o papel da mulher, principal pilar das sociedades Fulas.

Apesar da organizações jihadistas combativas não terem atraído significativamente as populações Fulas, as acções contra estas populações em distintos países africanos, levou à criação de múltiplas organizações armadas de autodefesa Fulas. Algumas sem estrutura, constituídas por aldeões rusticamente armados, à imagem de outras etnias na região.

Surgem também organizações suportadas por líderes políticos fulas na sombra, tais como no Mali com a Aliança de Salvação do Sahel (ASS) cujas relações e tolerância com a organização jihadista de Amadou Kouffa destacaram-se pela ambiguidade. A ASS acabou por perder folgo, entrar num processo de decomposição e a maioria dos seus combatentes integrar o programa DDR (Desarmamento, Desmobilização e Reintegração).

Por outro lado, a ineficácia defensiva destas organizações é demonstrada quando ocorrem acções contra povoações Fulas. Transformando estes grupos em organizações punitivas que propriamente defensivas.

A curta existência das organizações de autodefesa Fulas é explicada também pela instrumentalização das mesmas que acabam por tornarem-se apenas no trampolim político de algumas personalidades.

A República Centro-Africana (RCA) é também um exemplo da dissonância entre um Islão radical e a sociedade tradicional Fula. O radicalismo islâmico, que acabou por ser adoptado pelas milícias Seleka, nunca foi aceite de facto pelos combatentes Fulas destas milícias. A implosão dos Selekas originou aparecimento de um arquipélago de grupos armados Fulas, que auto qualificaram de organizações de “autodefesa”.

Estes grupos assumem-se como organizações maioritariamente muçulmanas mas prioritariamente Fulas. Porém, permanecem apenas como organizações territorialmente circunscritas e regionais, importando a mesma falta de solidariedade transnacional externa entre organizações Fulas, para o teatro centro-africano. Por esse motivo, distintos grupos armados Fulas integraram os acordos de Cartum e posteriormente Bangui, enquanto outros dissociaram-se da iniciativa. Uma estratégia comum Fula na RCA nunca existiu, apesar das numerosas tentativas.

A utopia da solidariedade transnacional Fula, a islamização de alguns grupos, as divisões plurinacionais e regionais, assim como a marginalização e segregação de populações Fula, tal como é patente na Mauritânia, Mali ou Burkina Faso, vulnerabiliza esta população que pode facilmente ser instrumentalizada e manipulada, segundo as realidade de cada país.

Da mesma maneira que os Fulas podem ser instrumentalizados por um líder político que pretende cativar votos étnicos, podem ser utilizados na criação de grupos armados, com a cobertura de organização de autodefesa, tornando-se em reais milícias de personalidades políticas, ou interesses estrangeiros. Tal é o exemplo da RCA em que empresas de segurança privada russas, com o aval de Moscovo, financiaram e rearmaram milícias com o objectivo de impor Moscovo como actor legítimo na resolução do imbróglio centro-africano. Mas estas milícias tornaram-se no prolongamento das mesmas empresas segurança nos terrenos em que a Rússia tem um interesse estratégico devido aos seus recursos naturais.

Outro exemplo foi com a tentativa de instrumentalização das populações Fulas na Guiné-Bissau durante as eleições legislativas de Março. Uma estratégia adoptada por alguns candidatos que não surtiu os efeitos pretendidos. A população Fula na Guiné-Bissau, maior etnia do país, é distinta das variadas populações Fulas em África.

Como ponto comum os Fulas da Guiné-Bissau partilham a mesma variante da língua “pulaar” tal como é adoptada na Guiné Conacri, Gâmbia, Senegal, Mali e Mauritânia. São maioritariamente muçulmanos e partilham apelidos comuns às populações Fulas. Em contrapartida os Fulas da Guiné-Bissau não são nómadas e não canalizam globalmente os seus votos nas eleições para um candidato específico que oriente a campanha para esta população, assim como não é estável na escolha dos seus candidatos.

À imagem do continente e no microcosmos Bissau-guineense, os Fulas também estão divididos entre aqueles que consideram-se autóctones, os Fulas de Gabu ou Fulacundas, e os Fulas oriundos da Guiné Conacri, designados como Fulafuta e Nanias, mas também do Senegal com os Foturanké ou Toranké.

A fim de acabar com o paradigma da dominância da etnia Balanta nas Forças Armadas, a sua fulanização é possível

Estas qualificações, em que uns Fulas são considerados autóctones e outros estrangeiros, abre uma brecha à instrumentalização e manipulação, seja esta de ordem religiosa, demonstrada pela penetração cada vez mais crescente de um Islão rigoroso inabitual na Guiné-Bissau; ou de ordem político-militar em que a confraria informal de influências, já referida, poderá influir na política externa guineense e abrir portas a ingerências externas. Mas também, a fim de acabar com o paradigma da dominância da etnia Balanta nas Forças Armadas, a sua fulanização é possível e enquadrada no mesmo esquema da vulnerabilidade de um exército organicamente fraco e composto por múltiplas milícias pessoais.

O problema é que o atual momento político da Guiné Bissau é propício para uma instrumentalização étnico religiosa que não deixará de apelar à identidade da etnia Fula, no contexto de uma mobilização enganosa de eleitores, a qual tem em vista a valorização de agendas pessoais de políticos que se reclamam dessa etnia, mas que num passado recente demonstraram que o bem estar dos Fulani não constitui a sua principal motivação.

De facto, o exemplo e estratégia russa na RCA poderão ser transpostos para outros teatros, tais como o Mali, Burkina Faso, Nigéria, Camarões e mesmo a Guiné Bissau. Ou seja, onde as populações Fulas sentem-se estigmatizadas, abandonadas pelo Estado e ou vítimas do alegado “genocídio étnico programado” e “limpeza étnica”. Consequentemente, estas populações estão mais receptivas à opção de autodefesa e consequentemente militarização ou vulneráveis a um alinhamento com políticos carismáticos que, em alturas de eleições, se apresentam como messias portadores de dinheiro e de promessas que nunca chegarão a ser concretizadas.

Também, o apelo lançado por Hamadou Kouffa em Dezembro de 2018 de uma insurreição Fula com o estandarte da Jihad, poderá não ter tido os resultados esperados pelo líder da Katiba Macina, mas, réplicas da mesma estratégia podem obter resultados prolíferos em contextos menos globais e apenas integrados a uma região ou país.

Assim, não será a temida “Jihad Fula” mas as “Jihads Fulas”, como prováveis. Mais vulneráveis e facilmente instrumentalizáveis por países ou organizações atentas às novas dinâmicas das nações Fulas, cada vez mais receptivas à opção insurreccional pela violência. Exemplo desta propensão aconteceu logo após o massacre em Ogossagou que levou muitos jovens Fulas a optarem por integrar organizações armadas regionais, maioritariamente jihadistas, como meio de defender as suas comunidades.

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