Entrevista | Guiné-Bissau

“Com a minha eleição, a Guiné-Bissau deixou de ser uma República das Bananas”, diz Umaro Sissoco

O Presidente eleito da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, disse à e-Global que com a sua eleição o país deixou de ser “uma República das Bananas” e que a sua prioridade é o desenvolvimento, atrair investimento estrangeiro “limpo” e combater o narcotráfico. Umaro Sissoco Embaló afirma também que pretende utilizar, “ao serviço da pátria”, a sua rede de contactos e influência.

Revisão constitucional

Umaro Sissoco Embaló: Tudo está em cima da mesa. Sou o presidente eleito e vou tomar posse, mas nunca irei tomar uma decisão que apenas convém a mim. Sou um democrata e todos juntos poderemos ter uma Constituição mais viável para a Guiné-Bissau. É certo que a temos de mudar.

A Guiné-Bissau não está preparada para viver com esta Constituição. É uma boa Constituição, que evita ter um ditador e homens que pensam que têm o monopólio do poder. Mas também foi o foco da instabilidade na Guiné-Bissau, houve sempre um primeiro-ministro que não respeitava o Presidente da República, mas também um Presidente da República que queria ir além dos poderes que lhe confere a Constituição. É importante os homens entenderem-se. Primeiro será fundamental ter uma boa comunicação com o Primeiro-Ministro, mas quem manda é o Presidente da República.

Podemos fazer uma nova Constituição, e há duas maneiras para a fazer, com aprovação da Assembleia ou através de um referendo nacional.

Manutenção do actual primeiro-ministro?

Não sei. Ele [Aristides Gomes] disse que não poderia trabalhar comigo. Agora depende se ele mantém a mesma posição ou não. Não tenho nada contra ele, mas uma coisa é certa, não haverá desordem na Guiné-Bissau. Vou querer conselhos de ministros frequentes e exijo transparência na gestão dos bens públicos.

Eu fui primeiro-ministro e nunca usei um tostão do Estado para meu proveito, e nunca servi-me no cofre do Estado. Agora não vou tolerar. O Procurador-Geral da República fará o seu trabalho na integra e vou exigir tolerância zero na corrupção e narcotráfico.

Narcotráfico e terrorismo

Sou um homem pacifista e contra a pena de morte. De facto disse durante a campanha que, se necessário, poderíamos admitir essa hipótese [N.R. aplicação da pena de morte aos narcotraficantes], mas também temos de ter em conta que a Guiné-Bissau não é um Estado que produz droga nem a consome.

Há pessoas que têm compromissos para fazerem da Guiné-Bissau um ponto de trânsito da droga. Isso terminou, acabou! Com a minha eleição, terminou! Provavelmente os traficantes já estão a sair da Guiné-Bissau.

Sobre o terrorismo, nós não temos o problema de terrorismo. A Guiné-Bissau nunca foi a base de terroristas, nem nunca será. Não temos esse flagelo. A minha prioridade será o combate ao narcotráfico e vou criar todos os mecanismos para esse combate. Vou ser implacável! Todos têm de compreender que a Guiné-Bissau deixou de ser uma República das Bananas.

Instabilidade política no país

Felizmente já caiu a máscara do maior destabilizador da Guiné-Bissau. Depois destas eleições a Comunidade Internacional viu quem é de facto o grande destabilizador.

Comigo, na Guiné-Bissau, não haverá ninguém acima da Lei. Nem eu como Presidente da República estarei acima da Lei. Vou abdicar da imunidade que um Presidente beneficia. Se eu fizer alguma coisa fora da Lei, o procurador poderá notificar-me, e eu irei responder, não como Presidente da República, mas como cidadão. Não quero trair a esperança da nova geração, desta segunda república. Quero mostrar que ninguém está acima da lei, nem o Presidente.

Relações internacionais

Sou uma pessoa de fácil relacionamento e que gosta de respeitar as pessoas, a nível nacional e internacional. Vou utilizar a minha rede de contactos e conhecimentos para o beneficio do país.

Não sou do tipo de guineense que quando está fora, fala mal da Guiné-Bissau. Qualquer filho do país devia orgulhar-se em trazer as suas boas relações para a Guiné-Bissau, bem como capacidades e sinergias, e as pôr ao serviço da sua pátria.

A Guiné-Bissau tem agora a capacidade para resolver os seus problemas e terá um papel no contexto internacional, implicando-se na resolução de conflitos. Já falei sobre este assunto com o presidente do Níger, bem como com outros presidentes.

Lusofonia, Portugal e Angola

Eu sou um homem lusófono. Nasci lusófono e morrerei lusófono. A CPLP é um dos organismos que privilegio, até mais que a CEDEAO. Antes de pertencer à CEDEAO, a Guiné-Bissau já era um país lusófono.

As relações com Portugal estão óptimas. Mas reconheço que no passado houve situações complicadas com outros governos que não permitiam que Portugal mostrasse a estima que tem pela Guiné-Bissau. A culpa foi nossa, porque ninguém sabia quem era quem na Guiné-Bissau.

Eu sou das raras pessoas que nunca foi a Angola pedir dinheiro para fins pessoais. Sei que Angola não está confortável com a minha vitória, mas isso é um problema deles. O povo angolano não vota na Guiné-Bissau. Mesmo assim há um respeito como países irmãos. Mas, tal como eu já disse ao presidente João Lourenço, a relação entre a Guiné-Bissau e Angola não é a relação entre PAIGC e MPLA, mas sim de um Estado com outro Estado.

Espero que Angola não queira reduzir as relações entre os nossos países a uma relação PAIGC/MPLA, seria lamentável.

Permanência da ECOMIB

Confirmo que vou exigir a retirada da ECOMIB da Guiné-Bissau. Já falei com os presidentes dos países que fazem parte da Ecomib, e disseram-me: “Você é que manda”. Até ao dia 30 de Março a Ecomib deixa de estar na Guiné.

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Iarés

    25/01/2020 at 15:01

    Quem manda é a lei e não o Presidente da República como pretende o inocente Sissoko.
    Disso é simplesmente candidato presidencial e não presidente eleito,pois há um contencioso eleitoral que deve clarificar se os resultados anunciados pela CNE são credíveis

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