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Diáspora guineense: O acordar de um poderoso potencial que a Guiné-Bissau esqueceu

Foto: Maimouna Ba

No vasto mosaico etnocultural e linguístico que compõe as comunidades presentes em França, uma destaca-se, composta por estudantes, empresários, intelectuais, professores, artistas, desportistas, cientistas e quadros, com nacionalidades distintas tais como francesa, Bissau-guineense, senegalesa, gambiana, Conacri-guineense, portuguesa, cabo-verdiana ou burquinabê, entre muitas outras. Mas dois patrimónios comuns são partilhados por todos: a “guinedade” e a Guiné-Bissau.

“Tive a necessidade de agarrar-me às minhas raízes, e reafirmar a minha verdadeira identidade em França”, disse à e-Global o professor universitário, residente em Paris, Alfred Baloucoune que insiste que o seu nome deve ser escrito Alfredo Balucun, a versão Bissau-guineense.

Alfredo Balucun, é um entre milhares originários da Guiné-Bissau que chegaram a França depois de, “em tempos”, as famílias ter transitado por outros países onde adotaram novas nacionalidades. Porém, as tradições permaneceram e o crioulo foi por vezes transmitido por várias gerações, permanecendo viva a memória da origem natal e o património emocional. Uma transmissão complexa a garantir quando se vive na diáspora e quando o país de origem, a Guiné-Bissau, tornou-se externamente sinónimo de instabilidade.

Cansados da ineficiência da Embaixada da Guiné-Bissau em Paris, cuja embaixadora foi exonerada e ainda não foi substituída, mas também das palavras ditas, sem resultados práticos, dos políticos e governantes guineenses de passagem na capital francesa, esta comunidade decidiu organizar-se e criar uma estrutura que promova a especificidade dos descendentes e originários da Guiné-Bissau no estrangeiro, dispostos a promover e colaborar com o país de origem, e especialmente incutir nas novas gerações o orgulho de serem Bissau-guineenses.

A 17 de Agosto de 2017 em Paris, este movimento cidadão das diásporas assumiu oficialmente a forma de uma Organização Não Governamental (ONG) com a “Racines Guiné-Bissau” (Raízes Guiné-Bissau). No ato da sua constituição Francisco de Sousa Graça assumiu a presidência e Idelmisa Pinto Djassi, aliás Delma, foi escolhida para secretária-geral executiva.

A ambição patente nos estatutos da ONG “Racines Guiné-Bissau” é o reflexo do potencial dos seus membros. Dividido em dois eixos de intervenção, um orientado para a Diáspora e outro para a Guiné-Bissau, a ONG “Racines Guiné-Bissau” pretende agir em defesa das comunidades radicadas no estrangeiro reclamando o direito à nacionalidade Bissau-guineense para qualquer expatriado das três gerações nascidas na diáspora, mas também promover a identidade Bissau-guineense junto destas gerações, que com o tempo assumiram distintas nacionalidades.

O segundo eixo da ONG “Racines Guiné-Bissau” pretende agir no país de origem, utilizando uma comunidade integrada nos países de acolhimento, composta de quadros e mais-valias económico e intelectuais, dispostas a criarem pontes de interesses comuns entre a Guiné-Bissau e o exterior. Educação, apoio às PME, acompanhamento na criação de micro projetos e empresas, proteção social, gestão dos recursos naturais e ambientais, incentivos à descentralização, prevenção contra o HIV e promoção de ações sanitárias no interior da Guiné-Bissau, são alguns dos setores em que a ONG “Racines Guiné-Bissau” pretende intervir.

No entanto, apesar de não estar patente nos seus estatutos, a ONG “Racines Guiné-Bissau” quer colmatar as lacunas e o vazio deixado por estruturas estatais Bissau-guineenses face à sua diáspora, assim, a nova organização da diáspora Bissau-guineense aposta num largo universo humano, frequentemente esquecido pelos governantes guineenses.

Tendo como base um estudo do Banco Mundial de 2012, a ONG “Racines Guiné-Bissau” lembra que 24% da população da Guiné-Bissau vive na diáspora com outras nacionalidades, resultado de um processo de “desenraizamento” e de “uma desilusão com o país de origem”. Somando este universo ao conjunto dos Bissau-guineenses, também residentes no exterior, atinge 36% da população da Guiné-Bissau. Um poderoso universo que Bissau tende a esquecer e que agora acorda.

RN

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