Entrevista | Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: “A instabilidade governativa destruiu os sonhos de uma geração”, diz João Cabral

A segunda volta das Presidenciais na Guiné-Bissau vai ser disputada entre Domingos Simões Pereira, candidato do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e Umaro Sissoco Embaló do Movimento para a Alternância Democrática (MADEM-G15). Os dois antigos Primeiros-Ministros preparam-se para encerrar um ciclo de eleições que começou em Março deste ano com as legislativas e pôr cobro à instabilidade política guineense que se vem registando ao longo dos últimos anos.

A e-Global decidiu seguir esta etapa final das eleições através do olhar de cinco personalidades das áreas da Saúde, Economia, Artes, Política e Ensino, no sentido de perceber o que pode vir a mudar na Guiné-Bissau.

O segundo entrevistado, João Bucancil Cabral, licenciado em Administração Diplomática, é um jovem comprometido com o país que não hesita em valorizar a riqueza natural e humana da sua terra, que “tem tudo para triunfar”. Mas, ressalva o mau desempenho dos políticos que falharam no passado e continuam a falhar no presente. Atendendo à sua formação na área administrativa refere que é necessário uma profunda transformação no país, nas mais diversas áreas, especialmente no ensino profissional e no incremento e desenvolvimento do sector do turismo, fulcrais para a economia guineense.

João, antes de mais, pode falar um pouco acerca do seu percurso profissional nos últimos anos?

Sou licenciado em Administração, com pós graduação em Administração Diplomática pela Escola Nacional de Administração na Argélia. Em 2010 fui responsável pela relação exterior e cooperação no Conselho Nacional da juventude, em 2015, ocupei o cargo de Assessor de Chefe de Missão dos Médicos Sem Fronteiras e desde 2017 trabalho como Administrativo no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

O que significa neste momento ser jovem na Guiné-Bissau? Sente que a sua geração tem sofrido com a instabilidade governativa dos últimos anos?

Ser jovem na Guiné-Bissau significa ser obrigatoriamente político mesmo sem convicção nem a experiência requerida para fazer política. Os jovens são utilizados pelos partidos para chegarem ao poder e em seguida são esquecidos e abandonados durante o mandato até serem relembrados nas próximas eleições. Portanto, a única saída para conseguir formação, emprego e meio de auto sustentar-se é ser militante de um partido político, é por isso que as organizações juvenis são 100% politizadas. Estamos a falar de um país onde mais de 65% dos jovens têm menos de 25 anos, mas nenhum partido se preocupa com a elaboração das políticas realistas a favor dos jovens.

A instabilidade governativa dos últimos anos não só penalizou a minha geração, aqueles que nasceram nos anos 80, mas também criou frustração, impotência e destruiu os sonhos de uma geração que não conhecia a guerra e nunca ouviu o som de um tiro de morteiro e da noite para dia se viu mergulhada numa guerra civil de 11 meses, mais conhecida como «Guerra de 7 de Junho 1998». Não se criou o relevo necessário para formação dos jovens e nem uma integração profissional no mercado de emprego.

Quais são os sectores que destacaria como fundamentais para que o país possa crescer do ponto de vista social e económico?

No meu país, na Guiné-Bissau, necessitam de ser activados todos os sectores possíveis rumo a um desenvolvimento sustentável porque até agora nada se fez, o que significa que é país virgem em todas as áreas do progresso socioeconómico. Mas na minha humilde opinião, penso que devemos começar, do ponto de vista económico, pela Industrialização da agricultura por causa da terra fértil que possuímos, pela inovação de infra-estruturas como estradas, pontes vias de acessos e fábricas para transformação dos produtos da primeira necessidade, incremento na criação de empresas nacionais e privadas, especialmente ligadas ao sector da pesca devido à extensão do nosso mar territorial e uma aposta cada vez maior na profissionalização do sector do Turismo a nível nacional por causa das 89 ilhas e ilhéus nos arquipélagos dos Bijagós.

Do ponto de vista social são necessárias políticas de formação e emprego para os jovens, uma reforma do aparelho de Estado com objectivo de modernizar dos serviços nos diferentes ministérios e Secretaria de Estado, reformas profundas na política de ensino, especialmente na formação profissional dos jovens.

O que acha que pode vir a acontecer no dia 29 de Dezembro, dia de eleições?

No geral, vejo um processo eleitoral livre e transparente, onde a expressão do povo será clara, pois o nosso problema nunca foram as eleições mas sim o cumprimento do mandato depois dos resultados saírem. Penso que também é possível que haja grande contestação em relação aos resultados. Julgo isso atendendo aos discursos dos candidatos.

Como vislumbra o futuro da Guiné-Bissau nos próximos anos? Quais as principais ameaças que podem afectar o desenvolvimento do país?

Tudo vai depender destas eleições Presidenciais neste mês de Dezembro. Imaginando um cenário possível cenário, será um país com apoio financeiro do Ocidente, no caso da vitória do candidato apoiado pelo PAIGC ou um país com fundos dos Emirados Árabes Unidos, caso ganhe o candidato suportado pelo MADEM-G15. Agora as ameaças começam sempre a nível interno quando não há consenso entre os políticos e se instaura uma guerra interna que a pouco e pouco se transforma numa crise de baixa tenção, que não permite a intervenção do exterior, mas que também nunca termina. E isto sim, pode travar o desenvolvimento do país.

Para quem não conhece a Guiné-Bissau, como descreveria o país? Quais são os pontos fortes que fazem da Guiné-Bissau um país único?

A Guiné é um país pequeno de aproximadamente 36.125 km², com cerca de dois milhões de habitantes, com uma cultura impressionante por causa da diversidade étnica; há mais de 36 grupos com dialectos e trajes diferentes e é o único país em África com mais de 89 ilhas e ilhéus. Os guineenses são pessoas orgulhosas da sua história e comprometidas com o seu futuro. Há um potencial enorme que pode atrair investidores, principalmente por causa dos minérios como fosfato de primeiríssima qualidade, Bauxite, Petróleo, Ouro etc… Somos Guiguis, os únicos.

© e-Global Notícias em Português
Comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo