Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: “Há pouca intervenção em projetos focados no bem-estar das meninas e adolescentes guineenses”, diz Aissatu Forbs

(C) Aissatu Forbs

A segunda volta das presidenciais na Guiné Bissau vai ser disputada entre Domingos Simões Pereira, candidato do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), e Umaro Sissoco Embaló, do Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15). Os dois antigos primeiros ministros preparam-se para encerrar um ciclo de eleições que começou em março deste ano com as legislativas e pôr cobro à instabilidade política guineense que se vem arrastando ao longo dos anos.

A e-Global decidiu seguir esta etapa final das eleições através do olhar de cinco personalidades das áreas da saúde, política, ensino, economia e artes, no sentido de perceber o que pode mudar na Guiné Bissau.

A primeira entrevistada, Aissatu Forbs, atual Presidente do Conselho Nacional de Juventude da Guiné-Bissau é também médica e uma ativista pelos direitos das mulheres, que nas suas palavras, tem sido uma área pouco apoiada pelo Estado e parceiros. Ao longo da entrevista, Aissatu, ressalvou que  “é  preciso fazer mais e melhor e dar continuidade aos projetos que se acumulam”.

 

Pode falar um pouco do seu percurso profissional até agora?

Comecei o meu percurso pessoal muito cedo com apoio da minha mãe que era na altura líder comunitária das mulheres do bairro de Belém. A minha primeira participação cívica ocorreu numa organização de jovens do bairro e depois, fui convidada para participar no grupo Sida service de caritas Guiné-Bissau, um grupo de jovens que faz actividade nos liceus sobre projeto alerta à vida. Em seguida, fui representar a minha organização nas actividades do Conselho Nacional da Juventude (CNJ), e passado algum tempo convidaram-me para ser membro dessa organização e comecei a desempenhar as funções de secretária de direção, depois responsável de programas, responsável de relações exteriores, vice presidente e agora como presidente da Organização Magna da Juventude Guinense.

Numa das representações do CNJ, estive em representação do país na reunião da organização oeste africana de jovens mulheres líderes, e inspirada por isso de criei uma organização em colaboração com outras meninas guineenses, que se chama Rede Nacional de Jovens Mulheres Líderes da Guiné-Bissau, uma das poucas organizações de jovens mulheres do país. Ao nivel da CPLP, sou a vice presidente da direção do Fórum da Juventude da CPLP.

Também estudei Medicina na Faculdade Cubana-Guiné-Bissau e fui durante dois anos apresentadora do programa televisivo, Educação Para Saúde, na Televisão Nacional ( TGB)

Tendo em conta a sua formação em Medicina e sendo uma jovem mulher como olha para a situação das meninas e adolescentes em idade escolar que reside na Guiné Bissau?

Na Guiné-Bissau, a situação das meninas e adolescentes é precária, infelizmente, as meninas não têm acesso a educação de qualidade, há imenso abandono escolar, principalmente nas regiões mais pobres do país, há casos em que as meninas não vão à escola porque não é valorizada a educação feminina e como resultado disso crescem os casamentos forçados e precoces. Mesmo nos casos em que as jovens guineenses têm oportunidade de  frequentar a escola deparam-se com imensas barreiras culturais e sociais. Muitas meninas são vítimas de pedofilia, assédio ou violência sexual por parte dos professores ou familiares.

Em relação à saúde, registam-se ainda muitas vítimas de práticas nefastas, como mutilação genital feminina. Embora o Estado tenha proibido essa prática, ela ainda se manifesta clandestinamente. Outro fator de risco é o facto de as adolescentes iniciarem a sua vida sexual muito cedo e, muitas das vezes, isso conduz a situações de gravidez indesejada, e por isso seria fundamental as jovens terem acesso a  informações correctas sobre a saúde sexual e reprodutiva incluindo as doenças de transmissão sexual. Outro grande problema reside no acesso limitado aos centros de saúde e serviços de planeamento familiar, que não são serviços gratuitos e não existem em número suficiente para fazer face às necessidades. Infelizmente mesmo ao nível dos parceiros existe pouca intervenção em projectos focados no bem estar das meninas e adolescentes guineenses.

Que programas conhecidos  têm sido desenvolvidos para combater o abandono escolar por parte das meninas e impedir o casamento precoce?

O Governo através do Ministério da Educação e o UNICEF fizeram alguns projectos neste sentido, mas com pouco impacto no terreno e com resultados escassos, porque estas questões da não valorização da educação das meninas é uma questão enraizada na sociedade. Por isso, deve-se continuar, de forma persistente, a trabalhar em sintonia com as comunidades para a valorização da educação das meninas e das mulheres.

Segundo a Organização Mundial de Saúde- OMS, cerca de 90% do financiamento do setor da saúde tem sido garantido por parceiros de cooperação. Acha que é uma estratégia que deve continuar a ser seguida pelo governo da Guiné-Bissau? A instabilidade governativa pode de algum modo pôr estes acordos em perigo?

Infelizmente, o Estado da Guiné-Bissau, não assume a liderança na cooperação com os parceiros que intervém no país e esta falta de liderança tem custos elevados  para o país. O Governo não faz o seguimento dos acordos ou o devido trabalho de colaboração com os parceiros, não respeitando as contrapartidas dos investidores. Muitos financiamentos não obtiveram resultados ao que acresce a constante instabilidade governativa que impediu a implementação de vários apoios ou acordos. Por isso o próximo governo deve assumir a liderança dos vários processos em curso, investindo com contrapartidas e zelando no cumprimento dos acordos já assinados.

Cerca de 41% da população guineense é jovem. Acha que há, neste momento, uma política nacional de juventude na Guiné Bissau?

Mais de 65% da população é Jovem entre os 15 a 24 anos. Esta demografia faz dos jovens um importante instrumento para consolidação da paz, por isso é primordial um forte investimento no capital humano constituído pelas mulheres e pelos jovens. Porque limitar oportunidades aos jovens guineenses não lhes permitindo mostrar todo o seu potencial é prejudicial para todos nós e para a Guiné-Bissau. A Guiné-Bissau, já dispõe da política Nacional da Juventude, que foi aprovada em dezembro de 2015 mas, ainda não foi aprovada a implementação do seu plano estratégico.

Qual a importância destas eleições no momento atual e o que considera que pode ser feito para melhorar as condições de vida do povo guineense?

Estas eleições são fundamentais e determinantes para o país, porque na nossa constituição o Presidente da Républica é aquele que garante a paz e unidade nacional. Há muita coisa que falta ser feita na Guiné-Bissau, mas o mais importante é que haja estabilidade politica para que todos esses projectos e ações possam ser implementados e o país se possa desenvolver à semelhança de outros Estados  do mundo.

Está otimista em relação ao futuro da Guiné-Bissau? Onde é que reside a maior força do país?

Estou sim, optimista que o meu país um dia vai mudar. Sei que o desafio é enorme, mas acredito que a Guiné-Bissau tem todas as potencialidades para se desenvolver. Quando nós, os guineeses, começarmos a lutar e a defender o nosso país, e os políticos começarem a defender os intereses da nação e não interesses particulares e mesquinhos e a comprometerem-se com coragem, a favor de um país renovado, inclusivo, ambicioso, quando houver estabilidade politica e económica, investimento na educação de qualidade e Saúde para todos, aí a Guiné será um país próspero. Acredito que a maior força e tesouro do país é a Juventude. Se for feito bom investimento na educação e formação de qualidade, saúde e emprego digno para os jovens, sim, podemos, sem dúvida, mudar o país.

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