Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: Aristides Gomes debaixo de fogo por nomeações polémicas

Pouco mais de apenas um mês após a tomada de posse, o Primeiro Ministro Aristides Gomes está debaixo de fogo por parte da Comunidade Internacional. Em causa, as nomeações para a estrutura do Ministério do Interior que estarão a ser impostas por Nuno Na Biam, líder do partido APU, parceiro da coligação que sustenta o actual governo de maioria.

No início da semana, o Comodoro Agostinho Sousa Cordeiro tomou posse como comandante da Guarda Nacional. Na próxima semana é esperada a nomeação de Bebe Sanca, actual comandante militar adjunto da zona Leste para director-geral das Alfândegas. Outros nomes que estarão a ser impostos por Nuno Na Biam incluem Biom NaTchongo, ex-director Geral da Segurança de Estado para o lugar de Inspector Geral do Ministério do Interior, e o de José Pogna como adjunto do Comissariado Geral da POP.

Ao que a e-Global conseguiu apurar, Aristides Gomes está a ser pressionado interna e externamente para não aceitar estes nomes devido às supostas ligações ao narcotráfico que estes elementos mantiveram no passado recente da Guiné-Bissau. Sousa Cordeiro, um dos mentores do Golpe de Estado de 12 de Abril de 2012 e até hoje sancionado pela comunidade internacional pela sua participação nesta acção militar, é acusado de ter integrado a rede de narcotráfico liderada por Bubo Na Tchuto, quando este era Chefe de Estado Maior da Armada. Rumores nunca confirmados indicam mesmo que Cordeiro seria mesmo um dos alvos pretendidos pela DEA durante a operação que resultou na detenção de Na Tchuto em 2013. Apesar de nunca terem sido provadas as acusações contra Sousa Cordeiro, a DEA e outras agências internacionais apontam as várias “residências de luxo na zona de Cumura” e os diversos investimentos privados em múltiplos sectores da economia guineense, como sendo incompatíveis com o salário auferido na Marinha.

Para as organizações internacionais, preocupante será também a confirmação da nomeação de Bebe Sanca para liderar as Alfândegas. “Seria como colocar uma raposa a guardar o galinheiro!”, referem membros da comunidade internacional sedeados em Bissau. Sanca é um dos elementos mais próximos de António Indjai, o ex-CEMGFA que liderou o Golpe de Estado de 2012 e que foi responsável pela transformação da Guiné-Bissau num narco-estado na última década. No auge do poder de António Indjai, que coincidiu com a década negra de narcotráfico na Guiné-Bissau, Sanca seria um dos principais operacionais de Indjai, tendo a seu cargo a responsabilidade pelo asseguramento das condições de segurança para a realização das operações de narcotráfico no país, a par de José Pogna e de Biom Na Tchongo.

 

O despertar de António Indjai

A imposição destes nomes por parte de Nuno Na Biam, como contrapartida pela sua manutenção no Governo de Coligação, é assente numa estratégia cuidadosamente delineada pela “velha guarda” dos militares guineenses, sobretudo António Indjai, mas também Bubo Na Tchuto e Zamora Induta, que olham para a APU como a forma mais rápida de recuperarem o seu protagonismo político e militar da “década negra”.

Esta instrumentalização de Nuno Na Biam, um recém-chegado à política que segue o sonho quase naïf de ser Presidente da República, assenta em dois pilares fundamentais: dinheiro e poder. Na Biam estará a ser levado a servir uma estratégia que não dignifica o seu projecto político.

Com a experiência adquirida na “década negra” da Guiné-Bissau, os traficantes sabem que o narcotráfico e todo o gigantesco negócio que lhe está associado só floresce onde as operações de carga e descarga podem ser feitas em segurança e impunidade. Para isso, é necessário controlar não só os militares como todas as forças de segurança, de forma a fecharem os olhos em troco de avultadas “comissões”. Guarda Nacional, Polícia de Ordem Pública, mas também as Alfândegas, controlando em simultâneo o Aeroporto e os Portos marítimos da Guiné-Bissau. O esquema funcionou no passado, até que a Comunidade Internacional deixou de poder continuar a ignorar um fenómeno que era demasiado evidente.

 

As promessas e promessas de Na Biam

É neste contexto que as imposições de Na Biam, induzidas pelos seus apoiantes da “Velha Guarda” militar, sob capa da solidariedade balanta a que o líder da APU é sensível, começam a causar alarme na Comunidade Internacional em Bissau, mas também nos EUA e ao nível da CEDEAO.

A instrumentalização de Nuno Na Biam tem também um perverso efeito a nível político. O líder da APU pretende avançar para as eleições presidenciais a todo o custo, mesmo que isso implique a ruptura com a coligação que sustenta o Governo. Se o fizer, as hipóteses de sair vencedor podem diminuir, a menos que os militares lhe prometam meios e fundos de que agora ainda não dispõe, de forma a permitir-lhe aumentar o resultado que a APU obteve nas últimas legislativas e passar de uns irrisórios 5% para 51% da votação popular.

Até agora, Aristides Gomes, o PAIGC e demais partidos da oposição têm aceite a maioria das exigências de Na Biam, como forma de tentar apaziguar não só o líder da APU mas também os elementos influentes que o rodeiam. Foi-lhe oferecido o lugar de primeiro vice-Presidente da ANP, foi-lhe dado o controlo do Ministério da Presidência e do Ministério do Interior, bem como a Secretaria de Estado dos Transportes e Comunicações, um dos principais geradores de receitas do Estado. Foi-lhe oferecida Guarda Nacional e até as Alfândegas. Mas tudo isto parece não ser suficiente.

A instrumentalização de António Indjai a Na Biam é feita com base em promessas. Na Biam promete lugares no Ministério do Interior porque Indjai promete dinheiro para a campanha presidencial, porque Na Biam promete nomeá-lo de novo como CEMGFA, mesmo com Indjai actualmente na reserva, porque Indjai promete que Nuno será o Presidente da República.

Aristides Gomes, o primeiro-ministro apontado pelo PAIGC para liderar a Guiné-Bissau neste percurso, está refém desta espiral de promessas. Se não forem nomeados os elementos impostos pela “Velha Guarda”e não tiver o apoio da coligação para as presidenciais, Na Biam força a APU a abandonar a coligação e provoca a queda do Governo. Se Aristides nomear, a cúpula dos líderes militares que criaram a “década negra” na guiné-Bissau, marcada também pelo episódio do desaparecimento de 635 kgs de cocaína dos cofres do Tesouro quando o próprio Aristides era também primeiro-ministro, poderá estar prestes a regressar em força. E a Biam, de forma inconsciente, poderá estar a contribuir exactamente para esta estratégia.

O certo é que apenas um mês depois da tomada de posse do Governo, nos corredores do poder da Guiné-Bissau as imposições de Na Biam estão já a levantar o espectro de novas eleições legislativas em 2020. Segundo uma fonte ligada a organização sub-regional em Bissau, legislativas em 2020 “são um cenário já em cima da mesa e que poderá ajudar a clarificar definitivamente quais os partidos com projectos políticos para o país, sejam eles o Terra Ranka ou o Mon Na Lama, e não para servir interesses pessoais”.

 

Rodrigo Nunes, correspondente em Dakar

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5 Comentários

5 Comments

  1. Agostinho Bolamu

    10/08/2019 at 9:40

    Mais uma vez os inimigos do pais ja estao a profetisar o mal. O caso Bubo provou que a vossa teoria so pode ser um desejo de mal para proximo.

  2. IDRISSA DA SILVA

    11/08/2019 at 17:38

    Que mal a Guiné fez a essas pessoas? poxa é revoltante a nossa situação política. Podem crer um dia vão cair, Roma caiu, Espartago foi e a mura de Berlim foi, então escrevam.

  3. Nataniel Sanhá

    15/08/2019 at 7:45

    O que pode fazer uma pessoa, um cidadão guineense, a inventar tamanha mentira e perigosa acusação falsa dessa. Por favor, vamos parar com essa politiqueces de muito baixo nível.

  4. Nataniel Sanhá

    15/08/2019 at 8:14

    Jamais deixarão de inventar calunias tribalusta contra os Balanras?

    “No bai son, dianti ku kaminho. “

  5. Nataniel Sanhá

    15/08/2019 at 8:18

    *Balantas

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