Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: Assinado em Dakar acordo entre Nabian e Sissoko com patrocínio senegalês

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Nuno Nabian e Umaro Sissoko assinaram esta terça-feira 3 de Dezembro um acordo político entre as partes que prevê o apoio político ao candidato do MADEM, que irá disputar a segunda volta das presidenciais com Domingos Simões Pereira, apoiado pelo PAIGC, a 29 de Dezembro próximo.

Na primeira volta, disputadas a 24 de Novembro, Nuno Nabian ficou num surpreendente terceiro lugar quando muitos dos analistas políticos o apontavam como claro favorito a disputar a segunda volta com o candidato do PAIGC. A derrota política traduzida na escassa votação foi entendida como consequência pelas posições assumidas nas últimas semanas, onde se incluiu o apoio ao derrube do Governo de Aristides Gomes, do qual faz parte o próprio partido a que Nabian preside, a APU-PDGB.

Apoiado na Comunidade Internacional, o Governo de Aristides Gomes manteve-se em funções organizando as eleições. Do outro lado, o Presidente da República José Mário Vaz sofreu uma humilhante derrota na primeira volta, sendo relegado para o quatro lugar.

Apesar da decepcionante derrota nas urnas, Nuno Nabian é visto como o “dono” dos votos do eleitorado balanta na Guiné-Bissau. Líder do partido APU-PDGB e tendo a sua candidatura recolhido o apoio do PRS, Nabian tem assim o controlo das duas formações políticas onde esta etnia tem maior presença. E é aqui que para a candidatura de Umaro Sissoko reside toda a importância desta aliança. Não só os dois eleitorados juntos quase garantem a vitória de Sissoko na segunda volta, como permitem a criação das bases de um novo Governo MADEM-PRS-APU, em que Nabian será o próximo Primeiro-Ministro e Sissoko um “presidente omnipresente”.

O acordo tem o alto patrocínio da Presidência Senegalesa, a qual terá investido para garantir a assinatura de Nabian. Aliás, a presidência senegalesa terá mesmo exigido que o acordo que vai permitir resgatar a soberania da Guiné-Bissau, nas palavras do candidato do MADEM, fosse assinado na capital do Senegal, Dakar.

 

As negociações

A assinatura do acordo entre Nabian e Sissoko  é em si todo um resumo dos quebra-cabeças políticos guineenses. Inicialmente previsto para ser assinado em Bissau a dia 29 de Novembro, acabou por ser adiado já quando a sala de uma unidade hoteleira da capital guineense estava cheia de apoiantes das duas candidaturas. Oficialmente, Nabian justificou a sua não comparência com a chegada a Bissau do corpo do seu pai, transladado de Portugal, e com o facto do próprio Sissoko não se encontrar no país.

Perante uma sala cheia de desapontamento, foi anunciado que o acordo seria assinado a três de Dezembro, no mesmo local. A data estava certa, só o país estava errado…

A escolha de Dakar não foi inocente e apresenta-se como central de toda a estratégia de Sissoko. Na noite de 28 para 29 de Novembro, e já depois das duas candidaturas terem anunciado a primeira tentativa para assinatura do acordo para a manhã seguinte, Nabian foi literalmente cercado por vários elementos influentes balantas e por membros da direcção do seu partido que lhe pediam para reconsiderar a sua decisão.

Na cerimónia de “Toca-Choro” (velório) do seu pai, elementos militares na reserva explicaram a Nabian os perigos do apoio a Sissoko:

  • a probabilidade de Domingos Simões Pereira vencer as presidenciais, independentemente de um acordo Nabian-Sissoko era alta, uma vez que o líder da APU não conseguiu atrair os votos de todos os balantas como no passado Koumba Yalá, que por exemplo, tinha um eleitorado fixo de 25%, enquanto Nabian, apoiado em dois partidos, ficou-se pelos 13%. Por isso, era importante ficar desde já no lado do vencedor;
  • a direcção da APU-PDGB iria apoiar activamente a candidatura de Domingos Simões Pereira, uma vez que seria o único candidato que garantia a continuidade do governo do Primeiro Ministro, que o partido integra;
  • Domingos Simões Pereira e o PAIGC estavam abertos  a negociar com Nabian e a APU, reforçando o papel do partido na coligação e abrindo mesmo a porta à entrada de elementos do PRS (partido que também apoiava Nabian no executivo), bem como de outros lugares na administração pública, nomeadamente nas áreas militares e de segurança, garantindo também uma discussão do processo de reforma de sector de segurança e defesa, prevista para 2020, que incluísse as preocupações balantas.
  • O acordo de Nhome, encontro em que Homens Grandes balantas decidiram a estratégia política para a etnia, realizado há pouco mais de um mês, decidiu a aproximação de Nabian ao PRS com vista à passagem à segunda volta. Falhado este objectivo, não seria Nuno a decidir sozinho que o candidato para a segunda volta era Sissoko.

Perante esta pressão interna, Nabian desistiu de participar no encontro em Bissau e do acordo com Sissoko. Aliás, Nabian deu mesmo ordens para que a sua direcção iniciasse negociações com o PAIGC (que oficialmente ainda hoje estão em curso) para negociar o apoio de Nabian a Domingos Simões Pereira. Mas Sissoko, e sobretudo Macky Sall, não desistiram de Nabian.

No último sábado, Nabian acompanhado por Jorge Mandinga, Alberto Nambeia (líder do PRS) e Braima Camará (MADEM),viaja para Dakar onde já os esperava Umaro Sissoko e Macky Sall. Debaixo de forte pressão e aliciado com o lugar de Primeiro Ministro logo que Sissoko tome posse, bem como incentivos financeiros de nível internacional, Nabian aceita o acordo, sem convocar os órgãos do seu partido, nem avisar os Homens Grandes balantas, numa atitude de claro desrespeito.

 

O futuro

Na APU-PDGB o cenário é de pré-guerra, com a direcção em movimentações para convocar um congresso extraordinário com vista a destituir Nabian. Nabian já terá aceite o desafio, afirmando que se for Primeiro Ministro de Sissoko, o mais provável é mesmo acabar a liderar também o PRS, uma declaração considerada “chocante” por membros da direcção do seu próprio partido e do PRS.

Mais delicada e mais grave, será a gestão da relação com os Homens Grandes balanta. Nabian era uma peça política essencial na estratégia da etnia para atingir o sonho de eleger um presidente da república. Mas as suas sucessivas derrotas colocaram o seu estatuto de herdeiro de Koumba Yalá em causa. Apoiando-se em Sissoko, e em caso de derrota deste nas urnas, Nabian arrasta de novo a etnia para um cenário em que ficará fora das estruturas de poder (quer político, quer militar) nos próximos cinco anos.

O futuro dirá se o próprio Nabian ainda terá alguma utilidade para os balantas no final destes cinco anos ou mesmo para o próprio Sissoko uma vez conquistada a presidência. Sissoko presidente terá a capacidade de descartar aliados do momento e nomear elementos da sua etnia, cumprindo e reforçando as ambições e tendências externas de supremacia sobre o mosaico étnico da Guiné-Bissau.

Rodrigo Nunes, em Dakar

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2 Comentários

2 Comments

  1. Djibril Camara

    05/12/2019 at 10:33

    O conteúdo deste texto é o que está na vossa alma na vossa mente e não corresponde a verdade o Nuno está reforçado no seu partido como no prs

  2. Duarte da Silva Lima

    06/12/2019 at 8:49

    Façam jornalismo com isenção, deixem esse comportamento medíocre de atacar certas etnias, isso é um erro fatal!!!
    A pátria de Cabral não tem isso

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