Guiné-Bissau: Investigação sobre madeira poderá fragilizar o Governo e maioria

A decisão da Polícia Judiciária da Guiné-Bissau (PJ) de apreender a madeira armazenada nas instalações de uma empresa apontada como propriedade do primeiro-ministro Nuno Nabiam está a contribuir para o agravar da situação política no país.

A empresa, com gestores chineses é, segundo as denúncias, um consórcio do primeiro-ministro Nuno Gomes Nabiam e do Coordenador do Movimento Alternância Democrática (MADEM), Braima Camará, cujo partido apoiou a candidatura de Umaro Sissoco Embaló nas presidenciais de 2019.

As acções da Polícia Judiciária estão a avançar e contam com o apoio do Presidente da República (PR) Umaro Sissoco Embaló, limitando assim qualquer possível intervenção de Nuno Nabiam e Braima Camará. O PR está determinado em levar avante o “combate à corrupção”, que definiu como um dos pilares do seu mandato.

A referida empresa de Braima Camará e Nuno Gomes Nabiam, funciona em instalações identificadas como propriedade de Braima Camará. Dados dos serviços alfandegários revelaram também que, os contentores recentemente retirados das suas instalações foram colocados na referida empresa e, supostamente, este despacho não foi liquidado.

A Polícia Judiciária começou a intervir após denúncias públicas que punham em causa a legalidade da empresa. Uma empresa que funcionava como serração mas que não foi legalizada no centro de formalização da empresa.

Na primeira intervenção da PJ, “ordens superiores” exigiram a retirada dos agentes no local, com ameaças de graves consequências caso os agentes da PJ se mostrassem relutantes. Este episódio teve lugar no final de Outubro, quando Umaro Sissoco Embaló estava ausente do país.

No regresso a Bissau, o PR reuniu a Procuradoria-Geral da República, o Primeiro-ministro e a Directora da PJ, e vincou que a Polícia podia investigar onde quisesse.

Dois dias depois, a PJ regressou ao local, onde os seus agentes tinham sido impedidos de prosseguir as investigações por “ordem superior”, e retiraram toda a madeira depositada nas instalações da empresa Malaika de Braima Camará. A operação de apreensão e retirada de madeira decorreu sem incidentes.

O primeiro-ministro e o Coordenador do MADEM, supostamente visados nesta matéria, estavam no país mas não se pronunciaram sobre o assunto.

Para Nelson Moreira, alto dirigente do MADEM, é prematuro estar a associar Braima Camará com a empresa se não existe nenhum registo nesse sentido. O advogado Luís Vaz Martins, próximo da oposição, considera que o mais importante é Braima Camará publicamente distanciar-se da referida empresa, tendo em conta que “todas as pessoas de bom senso não têm dúvidas que ele é um dos proprietários”.

No entanto, como defende Nelson Moreira, é verdade que Braima Camará é dono das instalações onde a empresa está a funcionar e onde a madeira foi armazenada. Luís Vaz Martins, num claro desafio a Nelson Moreira, questionou qual foi o custo do despacho dos contentores para a referida empresa.

Contra o primeiro-ministro e Braima Camará está ainda a suspeita de terem transportado a madeira do interior do país para Bissau “sem o consentimento dos donos”. Numa conferência de imprensa, os mesmos já exigiram a devolução da madeira.

Nuno Nabiam há mais de 8 anos na corrida à madeira

Em 2012 o país assistiu a uma corrida desenfreada no abate de árvores. Um dos nomes mais sonantes, envolvidos nesta corrida, era Nuno Nabiam, futuro candidato à Presidência da República.

A ligação de Nuno Nabiam com as empresas madeireiras levaram alguns círculos políticos a conotar Nabiam como uma das personagens favoráveis ao abate de árvores. Nuno Nabiam foi também apontado de ter ligações com militares que facilitavam a sua actuação.

Devido às consequências do corte desenfreado de madeira, em 2014 o Governo liderado por Domingos Simões Pereira decretou uma moratória de 5 anos. Uma moratória que deveria terminar este ano, mas o Governo de Nuno Gomes Nabiam submeteu ao PR um decreto para o seu levantamento.

Antes de o decreto ser promulgado pelo PR, já estava funcionar uma empresa cujos sócios são o actual primeiro-ministro e o coordenador do partido que suporta o Governo, respectivamente Nuno Nabiam e Braima Camará.

A PJ já retirou a madeira, mas existe uma segunda fase que poderá ser a mais controversa devido a que não está excluída a hipótese de os proprietários da empresa serem investigados. Repetidas vezes, Umaro Sissoco Embaló prometeu que iria combater a corrupção e sobre o corte de madeira, disse, claramente, que não haverá novos cortes.

One Comment

  1. Joãozinho Correia

    Se essa notícia for verdade, quem é que manterá de pé, na matéria de corrupção, entre os políticos Guineenses?

    Se os actuais supostos suspeitos de serem donos do consórcio é que vierem átona, acusando publicamente, num passado recente, o primeiro ministro do governo afastado, não dá para entender se entrariam nesse espectáculo.

    Onde é que está a dignidade dum homem se essa investigação for concretizada e provar esse suposto involuntariamente dessas figuras?

    Quem mais vai confiar em quem na Guiné Bissau? E como é que havemos de reconstruir o país na desconfiança e desonestidade?

    “Papagaiar” não deve ser atitude do homem da virtude, que em vez de acção, usa a palavra como forma de manipular opinião pública.

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