Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: Militantes de Braima Camará atacados pelo chefe da segurança do PR

Arquivo

Os dois jovens militantes do Movimento Alternância Democrática (MADEM-G15) recentemente “raptados e torturados” acusaram o responsável de Segurança do Presidente da República (PR) de ser o autor do ocorrido.

Em conferência de imprensa promovida esta sexta-feira 9 de Outubro, na casa dos Direitos, os dois jovens, que são activistas de Braima Camará, revelaram terem sido levados à Presidência da República, despidos e filmados durante a tortura.

Os mesmos acreditam que, a “ira” de Tcherno Bari, o Chefe de Segurança do presidente Sissoco Embaló, é devida ao facto dos jovens terem afastado do PR e recusado a proposta de promover a imagem da actual ministra dos Negócios Estrangeiros, Suzi Barbosa.

Na conferência de imprensa, em que foram ‘apoiados’ pela Liga Guineense dos Direitos Humanos, os jovens começaram por manifestar o arrependimento de estarem a ser vítimas de um regime pelo qual lutaram bastante. “Não é esta a mudança que nós queremos”, disse Carlos Sambú, um dos responsáveis da Juventude do MADEM.

O primeiro a pronunciar-se foi Queba Sané, conhecido no partido como R Kelly, e apontado como o principal alvo do Segurança do PR, que revelou que começou a incompatibilizar com Tcherno Bari quando manifestou a sua indignação com a posição de Suzi Barbosa, pelo facto de não permanecer fiel ao PAIGC depois de da derrota de Domingos Simões Pereira.

“Disse frontalmente ao Tcher Bari que, nada me move contra Suzi Barbosa, mas pessoalmente acho que ela é má perdedora. Não pode pertencer a um partido e mudar de repente de posição só porque perderam”, explicou Queba Sané na tentativa de perceber o verdadeiro motivo de divergência com os seus aliados. Disse também que a partir daquele momento, Bari o advertiu que, Suzi Barbosa é para ele, “uma irmã”, pelo que, qualquer ataque contra ela, teria consequências.

Seguiram as acusações de próximos de Umaro Sissoco Embaló e de Tcherno Bari em como Queba Sané criara um perfil falso no Facebook, ‘Muminato Cande’, que o utilizava para atacar as posições do Chefe de Estado.

“Confrontaram-me com isso. O próprio Tcherno me fez tais acusações. Um outro apoiante de Umaro Sissoco de nome Mutaro escreveu na sua página que aquele perfil era meu. Nunca respondi a ninguém, porque não correspondia à verdade. Começaram as ameaças. Numa manhã vi sangue na porta da minha casa. No dia seguinte fui avisar na Polícia Judiciária, mas infelizmente não me acudiram”, lamentou.

Sobre as condições na detenção, assegurou que a operação foi levada a cabo por Tcherno Bari o qual estava acompanhado de um militar, e ambos estavam armados com armas de fogo. Quando os “encurralaram” nas zonas periféricas de Bissau, Tcherno terá descido empunhando uma pistola e terá dito: “tenho ordens para te matar”.

Segundo Carlos Sambú,  “na hora da tortura, o Tcherno disse-me que eu não era problema. O problema era o Kelly, porque tinha um perfil falso que insultava o Presidente da República”.

Depois de terem sido neutralizados pelos “raptores”, como definiram, foram levados para a Presidência. A tortura e filmagens foram todas efectuadas na Presidência da República. “Foram cerca de 30 minutos e eu levei 50 chicotadas. Contei. Ainda tive tempo de dizer ao Tcherno que ele foi longe demais. Porque quando pisou na cabeça do Kelly, tentei empurrá-lo e deu-me uma coronhada e fui cair contra a pedra que me provocou ferimentos numa das mãos”, relatou Carlos Sambú.

Segundo os activistas, depois de serem “espancados” na Presidência foram levados para o Ministério do Interior. No ministério não foram colocados em celas e tiveram um “tratamento humano”. “Não fosse o público ia mostrar-vos às minhas nádegas. Diariamente desde que aquilo aconteceu, tenho tomado banho com água morna para sarar as feridas. Nunca esperava tamanha humilhação”.

 

“Até filho do Presidente não tem privilégio, quando faz o que não deve”, disse Sissoco Embaló

A detenção dos activistas provocou diversas reacções. A LGDH foi a primeira organização a denunciar, e depois seguiram os partidos políticos e a sociedade civil. No entanto, a reacção mais sonante foi de Umaro Sissoco Embaló.

No dia em que seguiu a visita oficial a Portugal, o Presidente da República abordou o assunto. Disse ter tomado conhecimento e ordenado ao Ministério Público a abertura de um inquérito. Considerou Carlos Sambú e Queba Sané como sendo seus filhos. Todavia, avançou também que o país está na afirmação da autoridade, pelo que, o sucedido é prova de que “até filho do Presidente não tem privilégio, quando faz o que não deve”.

O Movimento Alternância Democrática (MADEM), partido do qual os jovens são militantes e que sustenta o actual Governo chamou atenção sobre os excessos que são cometidas contra os cidadãos e pede que os autores sejam responsabilizados pelos seus actos.

O PAIGC também reagiu para condenar e aproveitou para lembrar que “o regime golpista”, rótulo que os “Libertadores” colam ao actual poder, que quer “usar o terror como forma de consolidar”.

O Ministério Público já abriu inquérito sobre este caso e no dia 9 de Outubro, ocorreram às primeiras audições.

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