Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: O meteorito Umaro Sissoco Embaló, o General politicamente incorrecto

A candidatura de Umaro Sissoco Embaló à presidência de Guiné-Bissau apenas começou a ser encarada como séria quando foi o segundo candidato mais votado na primeira volta das eleições.

Os olhares estavam voltados para Domingos Simões Pereira, que muitos acreditavam que venceria as eleições logo na primeira volta. Estavam também concentrados em Carlos Gomes Júnior, que falhara o seu regresso político à Guiné-Bissau, bem como em José Mário Vaz e em Nuno Nabian que destacou-se como a surpresa política nas eleições legislativas.

Este inesperado sucesso de Nuno Nabian poderia reproduzir-se nas eleições presidenciais. Segundo alguns analistas, face à probabilidade de Nuno Nabian entrar na corrida à segunda volta com Domingos Simões Pereira, o líder da APU-PDGB teria algumas possibilidades de sair vencedor. Este cenário levantou o véu de uma possível união de candidatos derrotados que apostaria em qualquer nome que concorresse contra Domingos Simões Pereira.

Contrariando as estratégias políticas de todos os seus adversários na primeira volta, Umaro Sissoco Embaló arrancou sozinho e poucos acreditavam na hipótese de sucesso do “enfant terrible” da Guiné-Bissau.

O primeiro passo de Umaro Sissoco Embaló foi percorrer África em busca de apoios financeiros e de conselhos, junto dos seus “padrinhos” e mentores políticos tais como o controverso Denis Sassou Nguesso, há 35 anos no poder no Congo Brazzaville, ou Macky Sall no Senegal. Aproveitou também para recolher opiniões e motivações no Médio Oriente e na Europa. Umaro Sissoco Embaló construiu assim a fórmula de como se ganha uma eleição quando todos dizem que é uma “batalha perdida”.

Umaro Sissoco Embaló tem uma forma pouco convencional de gerir os seus contactos. Por exemplo, assume ter sido conselheiro e manter uma grande admiração pelo ex líder líbio Muamar Kadhafi, mas também não esconde uma enorme admiração e orgulho de ter efectuado uma formação em Israel, quando o Guia líbio e o Estado Hebraico sempre nutriram um ódio de morte recíproco.

O segundo passo de Umaro Sissoco Embaló foi obter um suporte político interno, tendo conseguido forçar o MADEM-G15 aceitar a sua candidatura, quando não era o nome favorito no partido. Esta investida foi facilitada por Braima Camara o qual forma uma dupla política com Sissoco Embaló, cuja ambição de ambos é ressuscitar os descontentes do Congresso do Cacheu, apagar a aréola política sagrada do PAIGC e neutralizar Domingos Simões Pereira.

O segundo passo estava dado, sendo coroado quando Sissoco Embaló recolhe 27,65% dos votos na primeira volta das eleições e posiciona-se na corrida à segunda volta tendo expectavelmente como adversário Domingos Simões Pereira, que reunira 40,13% dos votos.

Apesar da importante vantagem do candidato do PAIGC, Domingos Simões Pereira sabia que esgotara a sua reserva dos eleitores fieis ao PAIGC e dificilmente conseguiria atrair mais votos que lhe garantissem a vitória. Apenas jogos de alianças e compromissos pré-eleitorais poderiam, eventualmente, inverter a ameaça da humilhação da derrota. Sissoco Embaló estava igualmente consciente desta vulnerabilidade eleitoral de Simões Pereira.

Na maratona para a segunda volta das eleições o “plano Nuno Nabian” foi retirado da gaveta e constituída uma “União Sagrada” que não apoiava Umaro Sissoco Embaló, mas queria visceralmente a derrota de Domingos Simões Pereira. Um apoio “contrariado” que não afectou nem incomodou Umaro Sissoco Embaló, mas que o levou a impor uma marca individual, “politicamente incorrecta”, que, por um lado, o distanciaria do formalismo académico de Domingos Simões Pereira, e por outro, o diferenciaria dos candidatos derrotados que agora o apoiavam.

Compreendendo tardiamente a estratégia de Umaro Sissoco Embaló, Domingos Simões Pereira tentou esvaziar a candidatura do seu adversário atraindo as estruturas politicas dos candidatos derrotados. E conseguiu, atraiu as estruturas, como da APU-PDGB, mas não teve em conta o potencial e carisma dos seus lideres. Tal foi o exemplo de Nuno Nabian, que teve a capacidade de capitalizar e orientar os eleitores, contrariando a sigla do seu partido que depositara o apoio em Simões Pereira.

Outro erro fatal na campanha de Domingos Simões Pereira foi de o PAIGC ter apostado em demasia na figura do seu candidato. Durante a campanha eleitoral o exacerbado culto da imagem de Domingos Simões Pereira abafou qualquer intervenção de outros membros do PAIGC e ressuscitou rivalidades intestinas nos “Libertadores” com círculos que apostavam na calada na derrota do seu líder. Não delegando a palavra, o candidato do PAIGC esteve sempre limitado no tempo e ao espaço onde se encontrava fisicamente, não podendo Domingos Simões Pereira estar a fazer campanha simultaneamente em Gabu, no Cacheu e em Bissau. Mas Umaro Sissoco Embaló, sim.

Os candidatos derrotados na primeira volta, que canalizaram o apoio para Umaro Sissoco Embaló, tornaram-se em autênticos embaixadores eleitorais da candidatura de Sissoco. Cada um destes ex candidatos empenhou-se nas regiões onde obtivera mais votos na primeira volta, assim, virtualmente, Umaro Sissoco Embaló conseguia estar simultaneamente em campanha no norte, leste e sul do país.

Contrariando o discurso estudado, pedagogo, politicamente correcto e musical para a comunidade internacional de Domingos Simões Pereira, Umaro Sissoco Embaló apostou no inverso, privilegiou a espontaneidade e a irreverência, demolindo o paradigma do politicamente correcto.

Defendeu a pena de morte contra os narcotraficantes. Reafirmou os valores étnicos dentro da mesma nação. Expôs-se envergando um djellaba e o “Kala” (turbante vermelho e branco que usa na cabeça), religiosamente conotado. Apostou no tabu dos debates políticos guineenses através de uma retórica populista assente na afirmação do pluralismo étnico e na identidade de cada região. Criticando violentamente a presença das forças da CEDEAO da Ecomib na Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló cativou em surdina a classe castrense. Sissoco Embaló disse alto, o que muitos falavam baixo.

O “Kala” tornou-se numa das imagens de marca de Sissoco Embaló, com um impacto mais poderoso que uma sigla, logótipo ou slogan eleitoral. Descomplexadamente étnico e religioso, o porte do “Kala” passou a significar pertença a uma “nova vaga”, explicou um conselheiro de Sissoco Embaló. De Bissau a Lisboa, de Dakar a Paris, envergar o “Kala” passou a significar militantismo e nacionalismo. O fenómeno da “Embalomania”, como designou um jornalista senegalês, estava em curso, assim como votos garantidos.

O ponto marcante da estratégia de Umaro Sissoco Embaló aconteceu no debate com Domingos Simões Pereira, pouco antes do término da campanha eleitoral. Horas antes do início do debate, conselheiros de Umaro Sissoco Embaló transmitiram-lhe alguns pareceres. Sissoco Embaló ouviu mas decidiu não abdicar do impacto do imprevisto. Contra a opinião dos seus conselheiros, optou por expressar-se durante o debate unicamente em crioulo e não em português, tal como fora previamente estabelecido. Domingos Simões Pereira manteve o compromisso com um discurso em português.

Para Sissoco Embaló o crioulo é a língua do povo guineense enquanto o português é língua dos intelectuais guineeses. Tendo assumido a “patente” eleitoral de o “general do povo”, na mira de Sissoco Embaló estava o povo, que representa a maioria do eleitorado, e não os intelectuais que, para além de serem os mais severos críticos de Sissoco Embaló, a seu ver, representam uma minoria citadina com pouco peso nas urnas.

Apesar de temerem um efeito negativo da opção crioula de Umaro Sissoco Embaló, os conselheiros do candidato reconheceram que acabou por ser a escolha certa. Depois do debate, nas tabancas no interior do país, os mesmos conselheiros ouviram alguns guineenses que acompanharam o debate dizerem que apenas tinham compreendido o que falava Sissoco Embaló.

Resultado destas estratégias, pouco convencionais, entre a primeira volta e a segunda, Umaro Sissoco Embaló conseguiu acrescentar mais 140 mil votos ao seu eleitorado, passando de 27,65% a 53,55%. O seu adversário, Domingos Simões Pereira, apenas atraiu pouco mais de 31 mil novos votantes, passando de 40,13% a 46,45%.

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