Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: Rivalidades entre PRS e MADEM causam turbulência na nova maioria

Alberto Nambeia

O Partido de Renovação Social (PRS), uma das formações políticas que integra a nova aliança governativa, está descontente.

O descontentamento dos Renovadores deve-se ao facto do partido ter sido lançado para a periferia do protagonismo político, pelos seus aliados, principalmente pelo Movimento Alternância Democrática (MADEM).

Para sair da sombra, o PRS decidiu agir à revelia “impondo à aliança” uma Comissão de acompanhamento do Acordo de Incidência parlamentar entre o Renovadores e o MADEM.

A tomada de posição do PRS fez tremer a aliança, levando o Coordenador da mesma a deslocar-se a casa do líder do PRS, Alberto Nambeia para tratar do assunto. Mas o resultado não terá sido o mais desejado.

Atento às evoluções, o presidente Umaro Sissoco Embaló terá transmitido um recado a Alberto Nambeia, em que refere que se houver algum desentendimento entre os partidos da aliança, o chefe de Estado devolveria o poder ao PAIGC.

Em consequência da advertência do chefe de Estado, o PRS prepara-se para se posicionar nos próximos dias, mas sabe-se, no entanto que um intermediário entre Umaro Sissoco e Alberto Nambeia já admite a possibilidade de “negociações”.

Um ambiente que revela a possibilidade de um início de crise na aliança. Os reais motivos da crise entre os parceiros políticos não são revelados publicamente, mas assentam em alguns posicionamentos políticos e sobretudo no debate de quem tem de facto maior peso na aliança.

O número reduzido de pastas no executivo para o MADEM, que não agradou os seus militantes logo após a formação do Governo, foi a primeira causa de tensões na aliança. Por outro lado o PRS sente-se como um partido subalterno do MADEM, e ultrapassado por Nuno Gomes Nabian, chefe do executivo, cuja representação parlamentar é desproporcional na relação protagonismo, poder e número de deputados.

Supostamente à margem da esfera política, está a classe castrense e a figura de António Injai que aguarda ser chamado para assumir a função de Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA).

Oficialmente não existe qualquer documento escrito que aponte António Injai como CEMGFA, caso Umaro Sissoco Embaló assumisse o poder como Presidente da República, tal como aconteceu.

Todavia, alguns indícios apontam para a existência desse compromisso, entre a actual presidência e o ex-Chefe Militar, mesmo que timidamente tenha sido desmentido. A sustentar a tese do compromisso estão aparições publicas de António Injai em dois actos oficiais com as actuais autoridades, e apesar de Idjai não estar no activo. Um destes actos foi na simbólica investidura de Umaro Sissoco Embaló em António Injai foi um dos convidados.

Na ocasião foi referido que António Injai tinha sido convidado, porque foi quem, devido a aproximação com Nuno Nabian, facilitara que os militares garantissem a segurança no momento da investidura de Umaro Sissoco Embaló. Em forma de reconhecimento, António Injai terá tido a promessa de que seria nomeado Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas.

Um segundo acto, António Injai foi convidado para a tomada de posse de Nuno Nabian como Primeiro-ministro, fazendo parte da foto família.

Em ambos os actos, as actuais chefias militares não compareceram, por supostamente ainda estarem a obedecer ao Governo de Aristides Gomes.

Cinco meses depois das actuais autoridades estarem em funções, Injai não foi nomeado. Nos corredores fala-se da existência de um suposto Decreto Presidencial para a sua nomeação, mas o mesmo ainda não foi assinado devido à recusa do actual Chefe do Estado-maior, Biaguê Na Ntan em abandonar às funções.

Na Ntan que durante o período eleitoral parecia inclinado a sair, acabou por reconsiderar a sua posição e manifestou a vontade de permanecer em funções, impossibilitando assim a nomeação de António Injai.

A somar a esta incerteza, está também a possibilidade de Umaro Sissoco Embaló acabar por avançar com outra opção para o posto de CEMGFA, afastando Biaguê Na Ntan bem como a hipótese António Injai.

MADEM assume mais protagonismo que o PRS

A tempestade que assola as relações entre o PRS e o MADEM é praticamente invisível. Esta torna-se imperceptível com o empenhamento do Governo que tenta neutralizar o PAIGC e o seu candidato.

Porém, o PRS está a somar os episódios que considera “graves” devido ao peso dos Renovadores no actual contexto político. Alguns destes episódios ocorreram durante uma audiência de Braima Camará, Coordenador do MADEM com Umaro Sissoco Embaló em que vários assuntos foram expostos dos quais dois não foram do agrado do PRS.

O PRS não apreciou que Braima Camará assumisse ser o Coordenador da nova maioria parlamentar, sem que tivesse existido formalmente um espaço de diálogo para a efectivação desse estatuto. O PRS considera estar a ser “ofuscado” pelo MADEM, por isso, urge pôr em evidência a situação.

O segundo assunto exposto por Braima Camará, e que também não é de agrado dos Renovadores, está ligado a uma possível recondução de Nuno Gomes Nabian no cargo de primeiro-ministro. Braima Camará dissera publicamente que, quem indicou o nome de Nuno Nabian foi o MADEM e que, nenhum ministro pode pensar que “pode ser uma ilha no Governo”.

Um posicionamento firme que não agradou o PRS, e promete convocar um espaço para que o Coordenador da Alternância se posicione, caso contrário será necessário reavaliar o peso de cada um.

Papel de Nuno Nabian na deslocação da maioria parlamentar

No meio destas divergências, o Primeiro-ministro, Nuno Gomes Nabian, é o elo mais fraco. Depois de escapar à possibilidade de ser demitido no âmbito do comunicado da CEDEAO de 22 de Abril, que reconheceu a vitória eleitoral de Umaro Sissoco Embaló e ordenou a devolução do poder ao partido vencedor das eleições, Nuno Nabian viu novamente o seu peso político ser colocado em causa na presente sessão parlamentar. E quem agitou o parlamento foi o PRS.

Dos 55 deputados que agora constituem nova maioria parlamentar, o partido de Nuno Nabian, Assembleia do Povo Unido contribuiu apenas com 1 deputado.

Este número é na perspectiva dos seus parceiros na aliança insignificante, tendo em conta que não conseguiu controlar os seus cinco deputados da APU-PDGB. Daí, a hipótese de ser afastado das funções de Primeiro-ministro começou a ser equacionada, ao ponto de o Coordenador da Alternância Democrática advertir publicamente que quem indicou o seu nome, foi o MADEM.

Reposicionamentos e novos amigos

Perante todos estes cenários de demonstração de força tudo está em suspense, a começar por António Injai. Como é que o actual poder político vai descartar Biaguê Na Ntan e Mamadú N’Krumah? Enquanto não existir a resposta, sobre António Injai, já chegaram explicações que não convenceram.

Para acalmar a impaciência de António Injai explicaram que ainda não foi nomeado nas funções, dado que o candidato do PAIGC, Domingos Simões Pereira terá feito uma diplomacia agressiva junto dos parceiros internacionais nesse sentido, principalmente nas Nações Unidas.

Um argumento que não foi considera credível por António Injai e que o interpretou como operação de distracção. Face ao possível afastamento de Idjai, os parceiros da coligação não sabem qual será a reacção do ex-CEMGFA.

No campo político, a posição do PRS é clara. O partido vai chamar atenção ao Coordenador do MADEM sobre os seus posicionamentos e que estes sejam considerados, caso contrário serão obrigados a posicionar-se.

Sobre Nuno Nabian, apontado como o elo mais fraco da aliança, a suposta ligação com os militares continua a ser a sua mais-valia e alicerce. Daí, perante a evolução da situação, foi sentida uma aproximação entre Nuno Nabian e António Injai.

Quando regressou de Portugal, em Julho, inesperadamente Nuno Nabian fez alusão à eventual nomeação de António Injai e disse que, no dia em que o assunto tiver que ser abordado, será no espaço próprio. Mas por agora não.

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