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Guiné-Bissau: “Se ocorrerem violências durante os comícios, a responsabilidade será de quem tem o Poder”

Domingos Simões Pereira

O presidente do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Simões Pereira, juntamente com os líderes dos 21 partidos que formam o Colectivo dos Partidos Políticos da Guiné-Bissau, confirmou que vai participar na marcha e comícios agendados para 16 e 17 de Novembro. Um momento critico em que a Comunidade Internacional receia que Bissau se torne no palco de violências entre partidários de Domingos Simões Pereira e do Presidente da República José Mário Vaz. A par disso, existem receios também de excessos que possam vir a ser cometidos pelas forças de ordem e segurança.

“Se ocorrerem violências durante os comícios, a responsabilidade será de quem tem o poder”, disse Domingos Simões Pereira à e-Global. “As entidades estatais devem garantir que em democracia este tipo de actividades possam acontecer”. O líder do PAIGC lembrou que o Presidente da República “organizou recentemente uma grande concentração de pessoas para o acolherem, mesmo sendo notório que uma boa parte das pessoas que estavam presentes nessa manifestação contestam aquilo que tem sido a estratégia do Presidente da República. Foi no entanto possível criar um ambiente apaziguado sem incidentes. Esperamos que o mesmo ambiente seja garantido para a marcha dos dias 16 e 17”.

Segundo o líder do PAIGC, os 21 partidos políticos que constituem o Colectivo “são partidos que reconhecem que a democracia está ameaçada na Guiné-Bissau” e exigem que o Presidente da República “respeite a ordem democrática, que pressupõe o respeito das leis, e em caso de necessidade devolver a palavra ao povo. Todos os partidos exigem também o respeito do Acordo de Conacri”, sublinhou Domingos Simões Pereira, “que é um instrumento incontornável para criar as condições de normalização do país e levar o país para o próprio calendário eleitoral”.

O Colectivo entende igualmente que “este Governo não tem condições para iniciar o processo de eleições”, avançou Domingos Simões Pereira: “A acontecer estaríamos já a criar condições para uma fraude massiva que obviamente irá obrigar a uma reacção dos partidos, e essa reacção dos partidos pode degenerar em alguma instabilidade democrática”.

Sobre os ataques e acusações proferidas durante comícios contra o primeiro-ministro Umaro Sissoko Embaló, Domingos Simões Pereira defendeu que “apenas um ou outro caso que poderá ser considerado como ataques”.

Segundo avançou o presidente do PAIGC à e-Global, o Colectivo pretende confirmar “uma informação” que indica que “entidades ligadas à segurança internacional” terão levado ao conhecimento do Presidente da Republica dados sobre a ligação do actual primeiro-ministro a “uma rede internacional de terrorismo”. Segundo Simões Pereira a informação a que “chegou é que essa evidência surgiu nos dados que foram recolhidos no telemóvel de um dos terroristas que participou num dos atentados no Burquina Faso”.

Segundo Simões Pereira a informação a que “chegou é que essa evidência surgiu nos dados que foram recolhidos no telemóvel de um dos terroristas que participou num dos atentados no Burquina Faso”

“É a abertura de um inquérito sobre esta informação que pretendem os partidos políticos”, explicou Simões Pereira: “Nós entendemos que se for confirmado que o Presidente da República teve essa informação, ele não a pode ocultar nem impedir que as autoridades competentes possam tirar a limpo essa situação”, disse Simões Pereira que sublinhou que “É inaceitável que um país tão vulnerável com a Guiné-Bissau tenha essa informação e tenha optado por não dar qualquer tipo de atendimento a essa preocupação”.

“Nós não temos a capacidade de avaliar a veracidade dessas acusações por isso exigimos ao presidente da Republica que torne público se teve ou não a informação. Se ele teve essa informação porquê tomou a decisão de nomear o Sissoko?”, perguntou o líder do PAIGC que confirma que estão a ser contactados “alguns advogados a nível internacional que têm experiência neste âmbito, para ajudarem a compreender até que ponto essas indicações podem consubstanciar um crime de uma entidade com a importância do Presidente da República”.

Reagindo ao apelo do Presidente da República para que o PAIGC “abra as portas”, Domingos Simões Pereira considerou que a “insistência” do Chefe de Estado “não é exemplo do exercício democrático” e recordou que: “nós somos instituições de natureza diferente” acusando o Presidente de ter perdido a “capacidade de discernimento”.

Para Domingos Simões Pereira “as observações do Presidente da República ao PAIGC e à Assembleia Nacional Popular não aconteceram por acaso. Nos dias 19 e 20 de Outubro ordenou o assalto à sede do PAIGC e poucas horas depois já havia um comunicado de imprensa do Gabinete do Presidente da República a tentar distanciar-se desse acto. Mas em Bissau todo o mundo sabe que a ordem foi dada pelo Presidente da República de forma directa e foi ele a conduzir todo o processo”, denunciou Domingos Simões Pereira. “O que temos é que situações como estas se transformem em situações descontroladas que podem vir a destabilizar o país em cenários que nós já conhecemos no passado”, acrescentou.

Fazendo alusão à probabilidade de Carlos Gomes Junior regressar à Guiné-Bissau, Domingos Simões Pereira afirma que: “Sou a favor do retorno ao país de todos os cidadãos nacionais que o queiram fazer. Mas é preciso ter em atenção que o cidadão Carlos Gomes Junior não é um cidadão qualquer e não saiu da Guiné-Bissau em condições normais”.

“Quero acreditar que quem está a tratar do seu regresso tenha a capacidade para garantir a segurança de Carlos Gomes Junior”

“Quero acreditar que quem está a tratar do seu regresso tenha a capacidade para garantir a segurança de Carlos Gomes Junior, mas também que possa garantir se o seu retorno, e as condições em que está a ser feito, não vá criar qualquer situação de perturbação extraordinária de anormalidade em relação a outras pessoas que possam ficar incomodadas com esse retorno. Eu estou tranquilo com a ideia e a perspectiva do regresso do Carlos Gomes Junior. Lamento que muitas pessoas que têm sido associadas a esse retorno não consigam esconder a existência de um propósito e aproveitamento político de esse retorno”, disse o líder do PAIGC acrescentado que “Carlos Gomes Junior está melhor posicionado para analisar se considera ser este o melhor momento para o seu retorno”.

Face à possibilidade de Carlos Gomes Junior tornar-se num candidato à liderança do partido, Domingos Simões Pereira afirma que para além de ser dirigente e presidente do PAIGC, é um “militante convicto do PAIGC” e acredita que aquilo que está a fazer no PAIGC é “necessário o partido como para o país”.

Domingos Simões Pereira diz que espera que “na eventualidade de Carlos Gomes Junior se posicionar dentro do PAIGC” que “haja uma apresentação que possa permitir compreender os seus intentos no PAIGC”. Simões Pereira garante que está “absolutamente tranquilo” e enfrenta com “toda normalidade as escolhas dos militantes do PAIGC, seja no Carlos Gomes Junior ou noutro militante”, e que continuará “sempre” a dar todo o seu contributo ao partido.

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1 Comentário

1 Comentário

  1. Iarés

    17/11/2017 at 22:45

    Grande intelectual, DSP!
    As suas respostas evidenciam o seu alto nivel de formação.

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