Guiné-Bissau: Venda ilícita de passaportes movimentou em dois anos 1.8 biliões de Fcfa

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O Ministério do Interior da Guiné-Bissau informou esta segunda-feira, 19 de Setembro, ter detido 41 indivíduos de nacionalidade camaronesa, assim como o mesmo número de passaportes Bissau-guineenses adquiridos através de uma rede de tráfico de passaportes que conta a participação com funcionários nacionais e estrangeiros.

Os números foram divulgados pelo Director do Gabinete do ministro do Interior Botche Candé, horas depois de este ter visitado os detidos, na sequência de uma operação que decorre há cerca de dois meses.

Os números de envolvidos neste tráfico, em que estarão envolvidos, desde os últimos dois anos, mais de 600 pessoas, segundo os dados apresentados pelo Director do Gabinete, Braima Tcham, apontam para cerca de 3 milhões de Fcfa por cada processo, totalizando 1.800.000.000 Xof. Nesta operação foram efectuadas 44 detenções, entre os quais 41 camaroneses e três altos funcionários afectos ao Ministério do Interior.

Em conferência de imprensa, na qual todos os detidos foram publicamente apresentados, Braima Tcham começou por qualificar de “injustiça”, o facto de o ministro Botche Candé ter sido fortemente criticado por um suposto atraso na disponibilização dos passaportes.

“Nenhum de nós sabe como é que o ministro soube deste assunto, mas podem acreditar que foi um trabalho eficiente. Num certo dia ele aconselhou-me a reter todos os passaportes. Não disse nada, afinal fazia o trabalho de casa, e o resultado é este. Temos 41 camaroneses com passaportes nacionais. Mas, para além de passaportes, eles todos têm os mais básicos documentos nacionais. Isso significa que esta rede é demasiadamente ampla”, começou por referir.

Conforme os dados do Director do Gabinete do Ministro, para além do Ministério do Interior, em que três altos funcionários já foram detidos, também estão a ser alvo de investigação funcionários do Ministério da Justiça devido a emissão de certidões de Nascimento, Certidões Narrativas, bem como bilhetes de identidade.

“Descobrir esta operação exigiu muito trabalho. Quando interceptamos estes passaportes pedimos os seus processos e praticamente toda a documentação que neles se exige, constava. Por isso, a primeira pessoa capturada foi um funcionário do Ministério do Interior que foi obrigado a abandonar o seu posto”, precisou Braima Tcham, adiantando que “numa primeira instância não queria colaborar, mas depois de perceber que tínhamos informações mais abrangentes, acabou por facilitar. E hoje, podemos considerar que temos basicamente ideia das pessoas que estão envolvidas”.

Segundo as explicações do Director do Gabinete do ministro, os estrangeiros em causa chegaram ao país em três grupos distintos e foram alojados em diferentes Bairros, como meio de desviar as atenções da polícia. Nesta investigação, para além dos serviços de emigração e fronteiras, estiveram envolvidas unidades de investigação criminal da Polícia de Ordem Pública e da Guarda Nacional.

“Quando o primeiro funcionário detido foi confrontado pela investigação e ouvido pelo ministro, ele finalmente abriu o jogo. Disse que há cerca de dois anos está envolvido nisto. Acredita que já tenham passado cerca de 600 pessoas nesta operação e para obter um passaporte, o interessado paga 3 milhões de Fcfa. Estes dados são preocupantes. Altamente preocupantes se tivermos em consideração que se tratar de um alto funcionário. Ele, por exemplo, é uma pessoa que está nos serviços de emigração e fronteiras para carimbar os vistos. Uma vez que faz parte da rede, quando aqueles chegaram, ele abandonou o posto para indicar quem os devia conduzir às suas residências. E como o caso já estava sob a investigação, tornou-se fácil os seguir”, precisou

Durante a visita aos detidos, o ministro Botche Candé destacou que todos os ministros que passaram no pelouro desde 2019 assinaram passaportes falsos, tendo o Director do Gabinete aproveitado para acrescentar que para além dos passaportes, existem muitos outros documentos falsos a circular.

“Temos estrangeiros com documentos nacionais. Estes, por exemplo, só eram possíveis de identificar pelos nomes. A rede era eficiente, mas falharam em alguns pormenores. Por exemplo, quando registavam alguém do norte, escolhiam um apelido do grupo étnico dominante. O mesmo fazem com leste ou sul. Porém, não mudaram os nomes próprios. E assim foi fácil descobrir”, explicou Braima Tcham.

Na conferência de imprensa, em que limitou as perguntas, Tcham garantiu que a investigação vai prosseguir, mas não respondeu sobre destino reservado aos detidos, sublinhando apenas que mais pessoas serão detidas.

Sobre o modus operandi, Braima Tcham explicou que quando “ainda no estrangeiro eles enviavam as fotografias para o chefe da quadrilha”, o qual também detido. “O chefe de quadrilha, um estrangeiro, entrava em contacto com funcionários tanto do Ministério do Interior como os da Justiça. A seguir, fazem todo o processo e enviam para o estrangeiro ainda fora do país que recebe o passaporte. De um lado com visto de saída e depois para entrada”, disse explicando que um dos primeiros indícios surgiu quando passageiro português protestou quando viu o agente da emigração a abandonar injustificadamente o seu posto.

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