Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: Vitória de Sissoco Embaló abala Governo e partidos políticos

A vitória eleitoral de Umaro Sissoco Embaló nas eleições presidenciais na Guiné-Bissau pode ter consequências no Governo e demais partidos políticos. Mesmo antes de ser homologado pelo Supremo Tribunal de Justiça, em alguns partidos políticos como Assembleia do Povo Unido, Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB) os primeiros efeitos já foram sentidos.

Um dia depois do anúncio dos resultados provisórios, alguns militantes impediram dirigentes da APU-PDGB que apoiaram a candidatura de Domingos Simões Pereira o acesso a sede. Ontem, 4 de Janeiro, a quinta vice-presidente, Joana Cobdé Nhanca, denunciou publicamente que está a ser alvo de ameaças de morte por parte do presidente do partido, Nuno Gomes Nabian.

Na sua página oficial, a 2 de Janeiro, o Secretário-Geral do partido, actual ministro do Interior, Juliano Fernandes, também impedido de entrar na sede, escreveu: “APU-PDGB não foi fundado para durar até que o seu líder não logre ascender a segunda volta das presidenciais de 2019. Cuidemos da sua viabilidade e durabilidade enquanto houver um cidadão guineense na face da terra”. No mesmo dia e em outro post que intitulou “Atenção”, o Secretário-geral do partido referiu que a APU-PDGB para lá de não se confundir com nenhum dos outros partidos, não é um partido a prazo. Já a 5 de Janeiro, os posts de Juliano mostravam a evidência de crise no partido. “Apelo a muita prudência, humanidade, civilidade e irmandade no APU-PDGB. Não caíamos no ridículo”, alertou Juliano Fernandes, que acrescentou que o nome do partido “tem significado” e “deve fazer sentido”. “Um partido que possui carácter e dimensão nacional, não é a nenhum título, um partido sectário”, rematou.

As indirectas na APU-PDGB são sinal daquilo que se passa um pouco por todos os partidos. No PAIGC e no Governo de momento não haverá qualquer revolução nesse sentido, sendo que a maior preocupação neste momento é preservar a coesão interna.

No caso de Domingos Simões Pereira, o cenário de demissão está afastado, tendo em conta que, se afigura neste momento como único capaz de dirigir o partido para as futuras batalhas. Querido pelos militantes moderados, devido às suas ideias de desenvolvimento tanto para o partido como o país, e temido pelos aqueles com posicionamentos oscilantes, devido ao recurso à disciplina, Domingos Simões Pereira já foi convidado pelos membros do presidium a manter-se nas funções de presidente. Os motivos devem ao facto de os seus adversários (os actuais vencedores da Presidência da República) puderem pensar no assalto ao partido, devolvendo a liderança a Carlos Gomes Jr. Conhecido este cenário, a conclusão existente no PAIGC é que, quem pode fazer face à situação é Domingos Simões Pereira, pelo que cedo desencorajaram-lhe qualquer hipótese de apresentar dimensão.

Talvez foi por esse motivo que, no dia em que pronunciou-se sobre os resultados eleitorais, o candidato derrotado e presidente do PAIGC disse que “nunca deixa o barco” e que “não pensem que, com este golpe vai cair no chão”. “Podem pensar que estou a tentar fortalecer-me a mim. Estão enganados. Nunca tive força para lutar como agora”, prometeu Domingos Simões Pereira perante uma ovação dos militantes no salão Amílcar Cabral na sede do PAIGC.

Fora do cenário de demissão, que seria apenas “politicamente correcto” em virtude da derrota eleitoral, o ambiente político não apresenta nenhuma contestação a liderança de Domingos Simões Pereira. Em quatro embates eleitorais ganhou 3 e perdeu uma, e não existe qualquer voz da oposição interna em todas estas eleições a contestar o seu rendimento.

Contudo, a posição final de Domingos Simões Pereira será conhecida quando o Supremo Tribunal de Justiça pronunciar-se sobre o pedido de impugnação do processo eleitoral intentado, por alegadas irregularidades verificadas. De lá, mesmo não demitindo das funções, Domingos Simões Pereira será obrigado a convocar um Congresso extraordinário para clarificar a sua posição.

O PRS é um partido dividido desde seu último congresso. A divisão acentuou quando, logo nos resultados das legislativas de 2019, a direcção sem consultar os órgãos, assinou um acordo de incidência parlamentar com o Movimento Alternância Democrática (MADEM-G15) partido do Presidente de República eleito. No seio do partido houve insurgentes, porque consideraram que, desde 2015 (início da crise política), o PRS perdeu a sua agenda e passou apenas a potenciar os 15. Foi em consequência disso que perdeu o estatuto de segundo maior partido no parlamento. Os insurgentes agrupados no Movimento de Salvação do PRS e memória de Koumba Yalá, liderados por Ibraima Sori Djaló, ex-presidente da ANP começaram logo com o pedido de um congresso extraordinário. A direcção não deu ouvidos e de repente o país entrou nas eleições. Durante o processo eleitoral, a divisão prevaleceu. A direcção juntou-se a Nuno Nabian e posteriormente a Umaro Sissoco. Os contestatários foram com Domingos Simões Pereira. Terminadas as eleições, a agenda do PRS neste momento é outra: chegar ao poder e resolver o problema da insolvência do partido.

Não obstante a reorganização interna não ser a prioridade, sabe-se que, existem próximos da direcção actual que estão determinados em punir todos aqueles que apoiaram a candidatura de Domingos Simões Pereira. No sentido contrário, há uma mobilização da oposição em correr com a Direcção que consideram de nula sem qualquer estratégia para salvar o partido. Este é ano de Congresso ordinário no PRS e há quem defende que o presidente Alberto Nambeia, devido às suas limitações académicas não tem perfil para liderar o partido, quando comparado com o ritmo imposto pela actual Direcção do PAIGC.

Aristides Gomes pendente

A vitória eleitoral de Umaro Sissoco Embaló vai produzir elevadas consequências no xadrez político nacional. Se nos partidos ninguém falara em demissão, o mesmo não se pode dizer em relação ao Governo. Num “bate-boca” quase permanente com Umaro Sissoco, na altura candidato, o primeiro-ministro garantiu que não teria qualquer dificuldade em apresentar demissão caso o seu candidato não vencesse.

Conhecidos os números, não há qualquer hipótese de Umaro Sissoco Embaló não ser declarado vencedor. A pergunta que se coloca neste momento é se vai ou não Aristides Gomes apresentar a demissão?

A sensação por ele deixada ontem (4) no momento da apresentação das provas de fraude eleitoral, sugere uma retracção no posicionamento. Disse que vai apresentar o pedido de demissão ao partido, mas se o mesmo o confiar, vai continuar a trabalhar como sempre trabalhou. Analistas entendem que, futuras batalhas que aguardam o PAIGC e o Governo vão precisar de Aristides Gomes. Daí que, o facto já é dado como certo: Aristides não vai entregar o pedido de demissão a Umaro Sissoco, se não for aconselhado pelo PAIGC a o fazer.

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