Guiné-Bissau: Adolescente morre depois de suposta tortura em ritual de fanado

O corpo sem vida de Amadu Serra, 17 anos, foi levado esta segunda-feira para o hospital regional de Buba, sul da Guiné-Bissau, por um grupo de jovens “lambés” – guardiões de barraca – com visíveis ferimentos no corpo e sinais de tortura.

“Deu entrada ontem [segunda-feira] por volta das 20:30 horas e a criança já estava morta. Tivemos apenas que confirmar o óbito”, disse o médico que estava de serviço, Nauin Batista Barai, adiantando que, sem sucesso, tentaram obter informações junto aos jovens que a levaram ao hospital. “Tentamos saber na altura o nome do pai e da mãe do adolescente, mas só conseguimos identificar o irmão mais velho que chamamos e que reconheceu o corpo da vítima”, precisou.

Apesar de ter confirmado a presença de hematomas na costas e ferimentos numa das pernas do adolescente, o médico considerou que não existem indícios claros que possam elucidar as causas directas da morte do adolescente.

“Não sabemos em que condições estão a viver naquela mata [barraca de fanado]. Por isso, não nos é possível confirmar o diagnóstico correcto da sua morte. Se foi resultado de agressões físicas ou por outras razões, como o paludismo, já que estamos na época das chuvas”, adiantou ainda Nauin Batista Barai.

O pai do adolescente, Yoro Serra, disse que foi surpreendido com a notícia de que o seu filho entrara na barraca do fanado. Avançou que Amadu Serra terá fugido ou forçado a entrar na barraca, mas que não foi do seu consentimento, enquanto pai. “Passamos três dias a negociar com os responsáveis da barraca para libertar o nosso filho, mesmo que fosse mediante o pagamento de algum valor monetário, mas recusaram”, asseverou. 

Yoro Serra testemunhou que informaram o Governo regional sobre a situação e mesmo assim os responsáveis da barraca recusaram entregar a criança. “Soube da morte do meu filho, através de um familiar que foi ter comigo na minha casa na noite de domingo. Nunca me informaram que estava doente”, disse.

O adolescente Amadu Serra saiu da casa dos seus pais a 25 de Julho, depois de tomar o pequeno-almoço com o irmão mais velho, com destino a uma alfaiataria no centro da cidade e nunca mais voltou a ser visto pelos familiares.

Informações sugerem, por outro lado, que no mesmo hospital deu entrada outro adolescente que se encontra em estado de coma. “Ele também foi levado da mesma barraca de fanado para o hospital regional de Buba, sul da Guiné-Bissau”, dizem testemunhas locais.

Segundo o médico Nauin Batista Barai, o adolescente apresenta um “diagnóstico reservado”. No momento da sua hospitalização “não respondia a nenhum estímulo. Mas, de momento, o paciente está a reagir bem, não obstante foram identificadas igualmente algumas feridas no tórax, costas e no braço”. Que sugere que terá também sofrido “algumas agressões na barraca”, concluiu o clínico geral.

As barracas de fanado acontecem tradicionalmente em todas as regiões do país, inclusive Bissau, a capital, sobretudo nas épocas chuvosas que coincidem com as prolongadas férias escolares. Uma tradição de todas as etnias guineenses. Algumas etnias recusam criança mas apenas adultos.

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