Regresso ao Passado? – A Guiné-Bissau e a maldição do narcotráfico

À margem da crise política que afeta a estabilidade e o desenvolvimento da Guiné-Bissau, diversas notícias e investigações policiais revelam que a Guiné é, de novo, assolada pelo regresso de narcotraficantes e do espetro da droga, num contexto de progressiva infiltração do tecido socioeconómico, da fragilização das intuições políticas e do já precário quadro político-securitário. 

Quando a comunidade internacional começou a acreditar que, após a eleição do Presidente Umaru Sissoco como Presidente, seria possível libertar a Guiné-Bissau da maldição do narcotráfico internacional, é visível uma reorganização das redes, desta vez com ligações ao Brasil, à Colômbia e à Bolívia. A nível regional identificam-se as ligações, à Gâmbia e ao Senegal, numa triangulação que terá o centro de comando estabelecido na Gâmbia, onde Braima Seidi Bá administra as operações de narcotráfico, através da Guiné-Bissau, com apoio direto dos seus contatos nos setores da segurança, da justiça e da defesa. Nos meios securitários, é cada vez mais referida a intervenção protetora de personalidades políticas ao nível da facilitação dos tráficos e da obtenção de benefícios financeiros para apoio, mormente, a processos eleitorais.            

As ligações regionais e transcontinentais estão a ser reanimadas por antigos facilitadores guineenses, alguns dos quais são, há anos, alvos da Agência norte-americana de combate ao narcotráfico DEA. Recentemente os EUA renovaram o seu interesse na detenção do ex-CEMGFA António Indjai, o que vem revitalizar as suspeitas do seu novo envolvimento em atividades ilícitas. 

Contato na Presidência da República refere à e-Global que esta é uma preocupação do PR Umaru Sissoko, mas que estes agentes locais do narcotráfico internacional marcam, ao mais alto nível e impunemente, presença nas instituições e administração do Estado, como a Polícia de Intervenção Rápida, a Guarda Nacional, as Alfândegas, as Forças Armadas, e alguns políticos de Ministérios, designadamente dos Ministérios do Interior e das Pescas. Esta é sem dúvida uma constatação que fragiliza a imagem da Presidência, quando o próprio PR Sissoko se anuncia como assertivo e intransigente no combate ao narcotráfico.    

O PR Umaru Sissoko sabe que estas ligações inviabilizam as investigações, considerando o acesso privilegiado que os agentes facilitadores guineenses têm à informação, mormente ao nível do setor judicial, onde as fugas de informação põe em risco não só as operações, mas também as vidas dos polícias e dos informadores. 

Por outro lado, a influência política que alguns exercem ao mais alto nível do Estado, dificulta a abertura de novas investigações, quer aos tráficos, quer às ações de encobrimento das atividades criminosas, quer às lutas entre grupos criminosos, que frequentemente terminam com o roubo de significativas quantidades de estupefacientes, armazenados em locais controlados pelos traficantes e mesmo os apreendidos pelas autoridades. É de facto um regresso ao passado em que, contudo, os grupos transferem para a Guiné-Bissau práticas mais violentas associadas aos tráficos, como os raptos e potencialmente os assassinatos de traficantes de grupos concorrentes. 

É neste contexto que os militares continuam a ser apontados como agentes do tráfico e facilitadores da circulação, pela Guiné-Bissau, de grandes quantidades de cocaína com destino aos emergentes mercados africanos e europeus, atividades muito facilitadas, mais uma vez, pela proteção “cimeira de agentes do Estado” que é, por exemplo, conferida a certos voos provenientes da América Latina – em especial da Bolívia e da Venezuela. 

Contato da e-Global na segurança dos portos e aeroportos referiu, com manifesta preocupação, que determinadas embarcações e voos são alvo de tratamento especial, muitas vezes ao abrigo de um não comprovado estatuto diplomático, o que impede a fiscalização de carga, bagagens, passageiros e tripulações, em clara violação das normas internacionais de segurança marítima e aérea.   

Ainda que nem todos os casos estejam ligados a narcotráfico ou outros tráficos como o de armamento, a atribuição de privilégios concorre para uma falta de rigor e de transparência que, por omissão – voluntária ou forçada – de intervenção das autoridades, contribui para o aumento da atratividade da Guiné e para o aumento da suspeição de fragilização do sector político guineense. 

Perante este quadro, cumpre perguntar ao Presidente da República da Guiné-Bissau quando conseguirá efetivamente exercer o seu magistério de influência para, senão erradicar, reduzir a influência do narcotráfico no seu país, quiçá valorizando os seus apoios regionais, mormente do Senegal, da Nigéria e Gâmbia, igualmente afetados pelo fenómeno.

One Comment

  1. José Taborda

    Pedir ao Lacrau que deixe de ser Lacrau ou, é ingenuidade ou, é falta de conhecimentos da Zoologia e da Biologia! O tão propalado magistério de influência por parte do falso general, tem estado a ser utilizado precisamente para obstaculizar todas as ações tendentes a combater a criminalidade e a marginalidade de todo o tipo, com destaque para o tráfico de drogas, Infelizmente, na Guiné-Bissau este fenómeno não é recente, já vem do tempo do Nino Vieira. Só que agora, o protagonismo dos mais altos representantes do Estado é mais visível e agressivo, agora, o mais difícil é encontrar quem na Presidência da República a começar pelo autodenominado “chefe”- sede do fenómeno – não esteja implicado! A Guiné-Bissau há muito que deixou de cumprir os requisitos básicos para merecer o nome de PAÍS! As investidas recentes do falso general quer na Constituição da Reública que diga-se de passagem para ele não existe, quer na Procuradoria Geral da República, quer no Supremo Tribunal de Justiça, quer na CNE, quer nas depauperadas “Forças Armadas” (entre aspas porque de Forças Armadas não têm nada) não auguram um bom futuro para as populações e para o país. Só podemos dizer que Deus acuda a Guiné-Bissau e o seu povo!

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