Entrevista | Lusofonia

Luís Vicente: Nos países lusófonos há uma falta de reconhecimento por falta de políticas de apoio às artes

Luís Vicente, guineense, gestor, a viver em Rio Maior, considera-se um fazedor de projetos de alma e profissão. O projeto Nimba, foi amor à primeira vista e faz precisamente um ano que foi pensado e arquitetado, tendo na Exposição coletiva “ART in Motion – Art, Music & Book”, que estará presente na Fábrica de Braço de Prata, até dia 27 de Outubro, de quarta a domingo, a sua maior expressão, uma vez que reúne vários artistas lusófonos unidos pelo mesmo ideal, a cultura.

e-Global: Luís, anda sempre em viagem?

Luís Vicente: Eu sou gestor de projetos, vivo no Concelho de Rio Maior, já lá estou desde 1998, mas estou sempre em viagem, nomeadamente na Guiné Bissau, que é o meu país de origem, Rio Maior, onde vivo e Lisboa, o meu lugar estratégico, porque tem um conjunto de características que complementam aquilo que desenvolvo na Nimba e, porque reúne um conjunto de pessoas, que também estão cá ou que se podem deslocar facilmente dos seus países de origem, de Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Senegal e aqui podemos fazer as nossas reuniões.

Há quanto tempo nasceu o projeto Nimba?

É um amor à primeira vista e nasceu exatamente há um ano. Já desenvolvo projetos há 24 anos e quando pensei na Nimba Art Gallery, achei que o pudesse desenvolver de forma diferente, fora de todos os outros que já fiz. Este projeto pude materializá-lo de acordo com o meu ponto de vista. Percebi que os artistas plásticos são bons naquilo que fazem, mas não conseguem chegar ao mercado, não conseguem dar um salto qualitativo para serem vistos, apreciados e também criticados. Então, porque não criar uma plataforma onde os artistas pudessem colocar as suas obras e serem negociadas Online? Até porque hoje em dia, galerias com espaço físico não fazem tanto sentido. Quando pensei nisto, falei imediatamente com os artistas.

Sentiu que havia uma lacuna no mercado Português em relação à arte africana?

Sim, tive perceção disso. Portugal podia ganhar com esta localização estratégica, ainda há pouco dias atrás ouvimos a notícia do manifesto em Portugal feito por cerca de 200 artistas plásticos, dizendo que se perdeu uma geração. Nos países lusófonos perderam-se várias gerações, não uma. Se apontarmos um lusófono que tenha atingido um lugar de destaque ao nível das artes plásticas, podemos falar de Malangatana (artista moçambicano) e pouco mais. Falta reconhecimento por falta de políticas de apoio às artes e os artistas precisam de entrar no meio e no espaço onde se negoceia a arte. Há falta de políticas públicas de apoio às artes, a galeria Nimba surge como veículo para fazer chegar esses trabalhos às pessoas em geral. O que é que o artista traz, por onde já passou, um quadro mostra muito mais do que uma simples tela.

Quais os principais problemas que o Luís vê hoje em dia no desenvolvimento e crescimento da arte tanto em Portugal como nos países lusófonos?

Para começar, os meios. Em África, na maioria dos países lusófonos, os artistas plásticos que lá residem compram materiais em Portugal. Essa é logo a primeira dificuldade e há muitos artistas que não têm dinheiro para comprar telas, pincéis e todo o material necessário. É isso que eu quero combater, um artista deu tudo por tudo para conseguir acabar a sua obra e eu não posso permitir que as pessoas cheguem ao pé de um artista plástico que demorou horas, dias, meses para acabar uma obra, oferendo um valor de 50, 100 euros por um quadro. Como é que ele consegue sobreviver nessa profissão negociando abaixo do custo da sua produção ou trabalho?

Os artistas ainda têm dificuldade em impor um preço às suas obras?

Na primeira exposição que realizamos, em Abril deste ano, tive de chamar atenção dos artistas sobre este aspeto, porque mediante o sítio onde eles expunham os preços eram diferentes. Não pode ser só esse o fator. O facto de expor num hotel de 5 estrelas ou numa galeria conceituada não quer dizer que inflacione o preço da minha obra, tem que se chegar a um consenso entre o real valor da obra e o interesse que os críticos têm sobre essas obras. Porque também temos de ver que a aposta na compra de obras de arte é um investimento, como certificados de aforro, ações, etc. No que toca aos países lusófonos ainda não chegámos a um patamar que permita alcançar valores consideráveis ou milionários se quiser, mas o projeto Nimba pretende criar as bases para que isso possa acontecer brevemente, através da promoção e da gestão que faz.

Qual foi em média o número de visitantes que a exposição já reuniu até agora. Está a bater todas as expectativas?

Esta exposição que vai terminar dia 27 de outubro reúne 15 artistas plásticos, todas as salas da Fábrica do Braço de Prata estão ocupadas, tem maior dimensão do que todas as outras exposições anteriores e envolve, arte, música, literatura, moda e gastronomia. Durante o fim-de-semana passam diariamente pela Fábrica cerca de 2000 a 3000 pessoas e, na quarta-feira, o dia em que abre, cerca de 500 a 600 pessoas. Neste momento, todos os artistas estão a trabalhar nas encomendas que recebem, pois as pessoas apreciam, tiram referências e pedem aos artistas para pintar outros quadros e isso causa impacto nas vendas. Atualmente temos jovens pintores que começaram a vender quadros por 400, agora vendem por 2000/4000 euros.

Como é que funciona o processo de seleção de um artista?                  

É um processo interessante. As redes sociais acabam por ser a rampa de lançamento. Nós funcionamos em rede. Na verdade, a Nimba é uma rede onde os artistas travam amizades entre si e começam a colaborar entre eles. Quando entramos numa rede destas, através do site, Facebook ou Instagram, temos de estar muito atentos aos artistas que vão surgindo. Este processo de seleção demora algum tempo, por exemplo estou a acompanhar um artista já há quatro meses, que é muito bom, apesar de ainda não atingir o patamar destes quinze, pois a dinâmica do trabalho ainda não está ao nível dos outros, mas há de lá chegar. Há outros que não consigo integrar de todo. Há, ainda, outros que se sentem muito contentes de exporem ao lado dos seus ídolos, dos artistas que sempre admiraram.

A situação dos vistos é um problema, temos de pedir autorizações, criar compromissos, emitir declarações para os respetivos consulados, onde explicamos que precisamos desses artistas entre os dias tal e tal.

É difícil atualmente um artista deslocar-se até Portugal?

A situação dos vistos é um problema, temos de pedir autorizações, criar compromissos, emitir declarações para os respetivos consulados, onde explicamos que precisamos desses artistas entre os dias tal e tal. No entanto, a situação está a mudar aos poucos, por exemplo, um artista de Cabo Verde tinha de estar cá no dia 4 de Outubro para a inauguração e não sabia se conseguiria chegar a tempo, então, o consulado de Portugal em Cabo Verde antecipou a emissão do visto, para que o artista estivesse cá na inauguração, pois considerou que aquela era uma questão prioritária. Não vale a pena criar aqui fronteiras, até porque a Nimba, pela sua dinâmica, já está a fugir a este mundo da Lusofonia e a estender-se para além fronteiras.

Porque é que a exposição reúne tantos artistas lusófonos?

Como iniciamos o projeto em Portugal, fazia sentido começar pela Lusofonia, mais propriamente os países africanos de expressão portuguesa, apesar de já termos contactos com o Brasil e até Timor. Mas, não sou eu apenas a decidir, também coloco essas questões aos artistas, que avaliam e fazem os seus próprios contactos. Iremos também trabalhar com artistas da Nigéria do Congo entre muitos outros países africanos. O projeto Nimba está em franco crescimento e essa dimensão começa a exigir outra estrutura, mas não tenho medo, se for preciso recrutar mais pessoal fá-lo-ei sem problemas.

O facto de falarmos numa arte Africana, em artistas africanos, não acaba por ser um pouco redutor?

É um artista plástico, independentemente de ser africano ou europeu. A arte não tem fronteiras, por isso é que eu tento sempre fugir a isso. Nem sequer crio essa barreira. A arte Africana pode ser ilustrada por um europeu e há artistas africanos que fogem às características típicas de expressão Africana. Cada artista define aquilo que pinta. O artista é que decide. Um dos grandes objetivos do projeto Nimba é trabalhar num projeto comum, em que todos os artistas se respeitem. Importa perceber que as pessoas apreciam todas as formas de arte e diferentes estilos. Um artista não pode tentar fugir daquilo que vem da sua criatividade e colocar outra coisa na tela, porque quer captar mais clientes ou porque outro artista está a ter mais sucesso do que ele. Por exemplo, eu não posso pedir ao João Carlos Barros, com um estilo Expressionista e Figurativo, onde se insere a técnica do Cubismo, para pintar como Malang Camara, que é um Hiper-realista, que desenha a nossa imagem ao pormenor, a técnica é diferente e cada um deles domina a sua área de expressão artística. O que interessa é abrir o mercado para que os trabalhos cheguem aos apreciadores, colecionadores, críticos e às galerias de topo, eu tenho a certeza que isso vai acontecer, porque a crítica que está a surgir é uma crítica boa. A Mafalda D´Eça, por exemplo, é uma artista portuguesa, que está a fazer um trabalho totalmente diferente, que não tem rigorosamente nada a ver com a arte Africana e está a gostar muito de estar connosco, cada um tem o seu espaço.

O projeto Nimba precisa de ser um parceiro das políticas culturais dos vários países lusófonos.

Está nos planos do projeto Nimba a criação de residências artísticas?

GB_PROJETO_NIMBAEstou a pensar desenvolver um projeto, com recurso aos financiamentos europeus, vulgo fundos comunitários, para criação de uma residência artística que pudesse albergar artistas vindos de todo o mundo durante o ano todo, mas isso ainda não é possível…Então, vamos desenvolvendo parcerias com as várias residências artísticas em Portugal, como em Lisboa, Aveiro, Vila Nova de Gaia, Porto. Eu gostaria que essa residência tivesse lugar em Lisboa, num sítio estratégico e que fosse ao mesmo tempo uma Oficina de Artes. Levando este projeto em frente, Nimba estaria a dar respostas às carências dos artistas que pensam logo na primeira questão, onde é que eu vou ficar? E se eu não conseguir vender um quadro como fica a minha situação? É isso que me move. Apenas não posso promover um artista que não seja crítico do seu trabalho, que não se valorize, que ache que a única forma de estar no mercado é vender a sua obra por um preço muito baixo e aquém do seu real valor, mas isso também acontece porque faltam estruturas de apoio, não só pessoal como também das instituições públicas. Se verificarmos os orçamentos de Estado de muitos dos países lusófonos, não há uma única linha de apoio que estimule o investimento em arte plástica e eu tenho claramente a noção que a Nimba sozinha não consegue fazer muito mais. Não queremos dinheiro, não é nada disso, estamos a falar de criar as condições necessárias para apoiar os artistas. O país pode não ter estabilidade, no caso concreto da Guiné-Bissau, mas precisa ter vontade e acreditar que a cultura é uma das ferramentas mais poderosas para alavancar uma nação, pois um artista está a promover o seu país. O projeto Nimba precisa de ser um parceiro das políticas culturais dos vários países lusófonos. Se consultarmos os orçamentos de Estado dos vários países de expressão portuguesa, vemos que não há verbas para projetos artísticos. Cabo Verde é quase uma exceção nos investimentos culturais e na atenção dada às artes plásticas. É importante que se tenha isso em consideração, que é necessário ajuda dos governos, se as entidades públicas não olham para os artistas, também não podemos fazer muito mais. Por exemplo, um importante artista internacional guineense pediu apoio ao seu país, ajudas de custo para se poder deslocar a Portugal para esta exposição, mas foi completamente ignorado. Esse artista estaria a promover o seu país e não apenas o seu trabalho. O projeto Nimba disponibiliza 10% da sua receita para as crianças dos países lusófonos e ajuda financeira na compra de matérias de arte, porque é isso que também nos move. Agora, os objetivos também passam por atingir mais espaços, mais salas.

Quais foram as maiores dificuldades que sentiu e o que é que lhe está a dar mais alegria neste projeto?

A maior dificuldade sentida foi constatar que ainda existe uma distância muito grande entre as instituições portuguesas, os PALOP e os projetos de iniciativa privada, que atingem esta dimensão. Os artistas plásticos deveriam ser mais apoiados e incentivados a participarem em iniciativas desta natureza, mas falta quase tudo… Não há uma estratégia comum defendida pelos vários governos destes países. Por outro lado, o que me deu maior satisfação foi reconhecer o espírito aberto e de companheirismo entre os vários artistas plásticos participantes na exposição, que aceitaram, sem entraves, partilhar o mesmo espaço, focados no objetivo prioritário da exposição que é a promoção da arte e cultura lusófonas.

© e-Global Notícias em Português
Comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo