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Entrevista: A Renamo “parece ter-se reinventado nos últimos anos, com um apoio popular cada vez mais crescente e até em zonas historicamente hostis”

Foto: DR

Em entrevista à e-Global, Edgar Barroso, investigador da associação moçambicana Bloco 4 Foundation, e que se tem vindo a dedicar à pesquisa sobre processos políticos e de governação no país, falou sobre as eleições autárquicas que irão decorrer em outubro próximo, orientadas por um novo modelo legislativo sobre a descentralização do poder, a “desfragmentação” da terceira força política moçambicana, o MDM, e o reforço da Renamo como partido de oposição à Frelimo, partido este que lidera o destino do país desde a independência em 1975.

e-Global: Face à revisão pontual da Constituição, qual o impacto que se pode esperar nos resultados das eleições autárquicas de outubro? 

Edgar Barroso: Penso que serão as eleições autárquicas mais competitivas de sempre. Estas eleições decorrem nos principais centros urbanos do país, com uma população predominantemente jovem, relativamente alfabetizada e potencialmente informada sobre a actualidade política, económica e social nacional e local.  

ELEITORES NÃO TÊM “SENTIDO DE PERTENÇA PARTIDÁRIA” 

Sem dúvidas, grande parte dos potenciais eleitores não tem algum sentido de pertença partidária ou ideológica a qualquer um dos partidos políticos históricos ou recentes, pelo que poderão influenciar a sua simpatia política e o seu sentido de voto outros elementos estruturantes.  

Possivelmente, por exemplo, a identidade etária – candidatos mais jovens ou com um “appeal” político orientado para a juventude – ou a origem social dos cabeça-de-lista (futuros Edis) – uma vez que grande parte do eleitorado reside em bairros periféricos extremamente pobres.  

ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS COMO “ANTEVISÃO” DAS ELEIÇÕES GERAIS

O poder local poderá ser uma espécie de antevisão do que poderá vir a ser a tendência de voto para as eleições gerais que acontecerão daqui a um ano. Se os municípios mais expressivos (localizados nas maiores cidades do país) caírem nas mãos da oposição, potencialmente ocorrerá um efeito “spill over” (ou “bola de neve”) não só nas regiões urbanas como também nas regiões rurais ainda mais populosas. 

Julgo que dada a especificidade do processo democrático moçambicano, marcado grandemente por acordos políticos pré-eleitorais regulares, os resultados têm sido (e poderão vir a ser) também sazonais. Parece que tudo é concertado deliberadamente para ser motivo de conflito e de negociação futura. Pelo menos é o que a nossa história recente diz.  

O PROCESSO DE PAZ NÃO PODE ESTAR “REFÉM” DA FRELIMO E DA RENAMO  

Para que o processo de paz seja efectivo, a Renamo deverá desmilitarizar-se, desde que as contrapartidas que exige sejam salvaguardadas e que a sua sobrevivência como partido político esteja assegurada (pelo menos aos seus olhos).  

É preciso garantir que este processo [de paz] seja mais inclusivo e não apenas refém destas duas partes [Frelimo e Renamo]. 

Um processo de paz não é feito só de dois actores políticos. Há outras forças políticas com relativa expressão no país, como o caso do MDM. Há outros grupos de pressão e de interesse, alguns até com lógicas ainda não muito bem identificadas mas com expressividade violenta, como no caso da província nortenha de Cabo Delgado.  

A “DESFRAGMENTAÇÃO” DO MDM É UM REFORÇO “ESTRATÉGICO” DA RENAMO 

O caso do MDM pode ser sintomático da própria natureza da nossa cultura política. Se formos a ver, numa perspectiva histórica, o MDM surgiu de um processo também de “desfragmentação” nas fileiras dos dois maiores partidos, a Frelimo e a Renamo. Parece-me ser um projecto político com prazo de validade e cuja sustentabilidade estava essencialmente dependente da prossecução dos objectivos políticos que as elites que o criaram ansiavam. A sua incapacidade de gerir expectativas internas e os “conflitos de jurisdição” (nacional versus local), aliados à excessiva concentração de poderes em torno do seu líder, fez com que esta sangria que temos estado a assistir fosse inevitável.  

Alguns [ex-MDM] decidiram voltar, estrategicamente, à Renamo, partido que, de forma curiosa, parece ter-se reinventado nos últimos anos, com um apoio popular cada vez mais crescente e até em zonas historicamente hostis.  

Objectivamente, este é um ganho político de capital importância para a Renamo. Fortifica a sua imagem política e alarga a sua legitimidade popular. Pode ser uma mais-valia para que o partido finalmente se dissocie da percepção negativa que sempre se lhe impingiu, dada a sua natureza armada. Pode ser uma estratégia política de curto ou médio prazo sim, mas não deixa de ser assinalável. 

 

O debate em torno das eleições autárquicas tem tido como foco central a posição assumida pela Frelimo ao “condicionar” a realização das eleições em outubro à entrega das armas por parte dos militares e ex-guerrilheiros da Renamo, entrega essa que tem vindo a ser negociada pela Renamo de forma a garantir que o partido não “desapareça”.  

Em simultâneo, a Renamo “ganha” com a “desfragmentação” do MDM, terceira força política em Moçambique, cujo “projecto político” tem “prazo de validade” e está dependente dos objectivos das “elites que o criaram”, diz Barroso.

Com o “retorno” dos ex-MDM, a Renamo tem “um ganho político de capital importância”, sublinha o investigador moçambicano, podendo ser “uma mais-valia para que o partido finalmente se dissocie da percepção negativa que sempre se lhe impingiu, dada a sua natureza armada”.  

Nos últimos anos, Edgar Barroso conclui que a Renamo se tem “reinventando”, possuindo “um apoio popular cada mais crescente e até em zonas historicamente hostis”.  

Xénia de Carvalho

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