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Entrevista: Ataques a civis no norte de Moçambique – Do “Boko Haram” moçambicano à ” fragilidade institucional” no país

Eric Morier-Genoud e Ercílio Chaúque

Em entrevista à e-Global, Eric Morier-Genoud, especialista em história e política africana com enfoque em Moçambique, da Queen’s University de Belfast, na Irlanda do Norte, e Ercílio Chaúque, profissional na área de desenvolvimento comunitário, residente na província de Cabo Delgado, em Moçambique, entraram num diálogo sobre o que pode estar na origem dos ataques a civis no norte de Moçambique.

Desde maio deste ano, o grupo armado denominado localmente por “Al-Shabab” já causou a morte de diversos civis, variando o número entre 46 a 29 civis, bem como a morte de 11 alegados elementos do grupo armado e 2 membros das Forças de Defesa e Segurança (FDS) de Moçambique.  

Partimos da ideia que Eric Morier-Genoud lançou ao analisar o que se está a passar na província de Cabo Delgado, de que estamos perante uma versão moçambicana do “Boko Haram” nigeriano.  

 

DA VERSÃO DO “BOKO HARAM” MOÇAMBICANA À FRAGILIDADE INSTITUCIONAL EM MOÇAMBIQUE

e-Global: Quando compara o que se tem passado no norte de Moçambique ao Boko Haram da Nigéria refere-se a uma organização semelhante? Em que se baseia para concluir uma tal semelhança? 

Eric Morier-Genoud: A comparação ao Boko Haram é baseada na forma como o movimento dito Al-Shabaab (também conhecido por Al Sunnah wa Jama’ah) emergiu em Moçambique. Ao contrário dos que dizem que são jihadistas vindos de fora ou manipulação de operadores ilegais da exploração de madeira e pedras preciosa, eu argumento, na base dos dados que encontro nos jornais e em pesquisa à qual tive acesso, que se trata originalmente de uma seita religiosa, no sentido sociológico do termo, que se tornou violenta, portanto, movimento armado.

Como na Nigéria, a seita só queria, de início, construir a uma contra-sociedade, longe do Estado, regida pela lei islâmica. Não queria que os seus membros reconhecem e lidassem com o Estado laico; não queria que as crianças fossem à escola ou ao hospital do Estado. Isto criou muitas tensões. Em 2016, o desenvolvimento de capacidade armada [no norte de Moçambique], e finalmente a passagem ao ataque em 4 de Outubro de 2017 – tal como aconteceu na Nigéria em 2009. 

e-Global: Como descreveria o que se está a passar em Cabo Delgado?  

Ercílio Chaúque: O que está a acontecer em Cabo Delgado é uma mistura de assuntos e talvez um aproveitamento da fragilidade institucional, em termos de fiscalização de fronteiras e consequente facilidade de acesso ao território nacional.

Mais ainda, pode-se dizer que a facilidade com que ideias de injustiça social e desigualdade se distribuem entre os jovens deixa espaço para que os mesmos sejam aliciados a fazer parte destes grupos.

Segundo depoimentos de jovens capturados, os mesmos foram aliciados com avultadas somas de valores para integrar a rede em causa.  

e-Global: Como se entende este nível de organização do grupo ou sub-grupos, se não há uma liderança organizada? 

Eric Morier-Genoud: Segundo a pesquisa de Sheik Habibe, do professor João Pereira e professor Salvador Forquilha, o Al-Shabaab teria entre 350 e 1500 membros (presumivelmente famílias incluídas, se falarmos de 1500 pessoas); e estariam organizados em dezenas de células ao longo da costa de Cabo Delgado.

Pelo que a gente vê, o movimento não tem liderança carismática, se é que tem um único líder. 

Também não estão interessados na comunicação social, o que baralha muitos observadores, mas faz sentido se entendermos que eles não reconhecem o Estado laico, lutam contra ele, e não estão interessados na sociedade existente que rejeitam. 

e-Global: Na sua leitura, o grupo armado denominado localmente por “Al-Shabab” é resultado de que factores?  

Ercílio Chaúque: Em 2014/2015 ouvimos pela primeira vez que membros deste grupo “Al-Shabab” estariam se instalando na vila de Mocímboa da Praia e arredores (aldeia de Malinde).

O que se dizia era que estrangeiros ou pessoas que tinham ido estudar o Islão no estrangeiro estariam a radicalizar as práticas islâmicas, obrigando os fiéis entre muitas coisas a proibir que seus filhos fossem a escola, por na sua perspectiva não ter nenhuma relevância comparado com a ida às madari.

Deste la já falavam de injustiças sociais, apontando os políticos como os principais responsáveis. Lembro-me que houve uma pequena confusão em Mocímboa da Praia, na qual a polícia dispersou os mesmos, tendo estes ido se refugiar em aldeias vizinhas. 

Para percebermos a origem deste grupo temos de analisar estes incidentes e assumi-los como a génese de toda a confusão.  

Acho que outro aspecto importante pode ser a análise de dois grandes momentos: outubro 2017, os ataques tinham como alvo agentes da segurança do Estado e recolher o máximo de armamento possível; 2018 começaram os ataques a alvos civis com recurso ao terror (decapitações e queima de casas). 

Assumindo que existe uma semelhança entre este grupo e o grupo nigeriano, podemos assumir que esta semelhança está apenas na génese, como sugere o Eric, pois até agora o modus operandi é completamente diferente. Se olharmos para o perfil das vítimas civis, também são muçulmanos e iguais à maioria, incluindo parte dos atacantes, pois são originários dos mesmos locais de ataque.  

DA RELIGIÃO À HISTÓRIA POLÍTICA – OLHANDO PARA A HIPÓTESE DAS CLIVAGENS ÉTNICAS 

e-Global:  Indo aos tempos do Movimento de Libertação Nacional, e ao “afastamento” dos Mwani, isso deve-se a motivos essencialmente religiosos ou a motivos políticos que se tornaram religiosos nesta fase?   

Eric Morier-Genoud: A questão dos Mwani e Makonde é importante, mas não podemos reduzir o conflito a isto.

Os ditos Al-Shabaab emergiram no meio social da costa de Cabo Delgado, onde há grande tensões económicas, sociais e religiosas. Uma destas tensões é entre Mwani e Makonde, particularmente em Mocímboa da Praia, onde vimos distúrbios comunitários em 2005.

Mas há gente de outros horizontes no Al-Shabaab, de outros grupos étnicos, da província de Nampula, e mesmo vindo da Tanzânia – fala-se também de um gambiano.  

Talvez haja uma dinâmica regional que poderíamos chamar de neo-Swahili, que levaria uma secção da população a sonhar com o regresso dos Sultanatos e Xeicados dos tempos antes dos Portugueses, tal como o Xeicado de Tungi, que existia na baía de Palma.  

Mas há também dimensões económicas de expectativas levantadas com as descobertas de gás que não se traduziram em empregos para a juventude; e há também lutas à volta das terras com migrações antigas e migrações novas para a costa. É provável que haja também lutas de gerações, já que os Al-Shabaab são jovens e recusam reconhecer as lideranças islâmicas estabelecidas. O assunto é complexo.  

e-Global: A questão étnica de clivagem entre Mwani/Maconde é um dos pontos de partida? 

Ercílio Chaúque: Não! Acho que temos em Moçambique várias clivagens iguais e mesmo assim não têm força suficiente para se transforme neste tipo de conflito, ou seja, acho que não seria justificativa suficiente para que jovens se fossem alistar neste tipo de organização. 

Mais uma vez o que nos poderia garantir que se trata da clivagem [étnica] poderia ser o perfil das vítimas dos ataques…!  

Em conversa com colegas e demais pessoas do grupo Mwani, com facilidade podemos perceber que também não se vê esta “clivagem” como algo suficiente para justificar essa barbárie. 

OLHANDO PARA ALÉM DAS FRONTEIRAS DE MOÇAMBIQUE 

e-Global: Como entende que a população local oiça líderes a falar em swahili, se de facto a raiz ou origem do grupo é local, sem redes transnacionais ou além-fronteiras? 

Eric Morier-Genoud: Talvez o Ercílio possa responder melhor sobre isto. Mas a informação existente é que em Mocímboa da Praia, as línguas deste distrito, fala-se sobretudo as línguas ximakonde (43%), ximwani (36%) e ximacua (15%).  

O ximwani tem parentesco com kiswahili, mas é diferente. 

A população ouvindo kiswahili? Pode significar que há estrangeiros tanzanianos no grupo – o que sabemos que é o caso. 

Mas também pode ser que quem está a denunciar é falante de ximakonde ou ximacua e está a referir-se aos Mwanis. 

e-Global: Entende, como o Eric, que se trata de um fenómeno a compreender localmente mais do que olhando para fora?  

Ercílio Chaúque: Acho que pode ser visto sob duas perspetivas, uma local e outra de fora.

Isso, porque ao assumirmos que parte dos insurgentes teve treinamento no exterior, devemos assumir que para tal tiveram apoio de uma mão exterior.  

Ao olhar o problema por dentro poderia ver também, como sugere o Eric, um barril de pólvora social que já se acumulava…! 

Esta situação impactou e continua a impactar toda a província [de Cabo Delgado] e em todos os aspectos. Há zonas das quais tivemos de retirar os nossos técnicos, mandando-os para Pemba em Mocímboa da Praia; os grupos com que trabalhamos abandonaram parcialmente as suas aldeias para se refugiarem em Pemba, Mocímboa ou nas ilhas próximas, com destaque para a ilha de Quifuque. 

PERSPECTIVAS PARA O FUTURO

e-Global: Como pensam que esta situação irá evoluir e de que forma? É de esperar que esta instabilidade continue?

Eric Morier-Genoud: A situação agravou-se em maio e junho deste ano.

Os insurgentes começaram a actuar em mais três distritos, o número de ataques aumentou significativamente, e a violência cresceu muito, com numerosas decapitações.  

Os insurgentes estão agora activos em seis distritos de Cabo Delgado – de Pemba até à fronteira da Tanzânia.  

Este agravamento deu a entender que o fenómeno não era nem passageiro nem menor. 

Agora a preocupação é que a insurreição possa ganhar ainda mais terreno, tanto social como geograficamente.  

A insurreição podia pois expandir-se ao sul da província de Cabo Delgado e, ainda mais, chegar à populosa província de Nampula.  

A entrada da guerra nesta última província seria um passo muito significante e alarmante da situação. Mas isto não é garantido. Vai depender das escolhas dos ditos Al-Shabaab (será que querem ir a Nampula?) e da resposta que o governo e os seus parceiros vão dar daí para frente.  

Há actualmente discussão sobre a atuação das Força de Defesa e sobre a resposta social, económica e religiosa que tem que ser dada à situação.  

Penso que muitos esforços foram feitos no aspecto militar; agora é preciso dar muito mais ênfase aos aspectos sociais, económicos e religiosos para impedir que os insurrectos ganhem mais base social e se expandam.  

Ercílio Chaúque: Concordo com o Eric em relação à probabilidade de a situação evoluir, atingindo o sul da província e, potencialmente, Nampula; e eu iria mais longe, falando também do Niassa pelos mesmos motivos (facilidade de acesso pela fronteira, garimpo, caça furtiva, entre outras actividades ilícitas envolvendo cidadãos nacionais e estrangeiros).  

A situação pode evoluir e receio que também hajam pessoas que se aproveitem deste clima de tensão permanente para praticar actos de violência e roubos, como se registou na cidade de Pemba nos últimos dias.  

Contudo, vemos uma grande movimentação das Forças de Defesa e Segurança, assim como a denuncia popular de alguns integrantes do grupo, que podem de alguma forma frustrar algumas tentativas de expansão. 

MOÇAMBIQUE: UM FUTURO COM ELEIÇÕES AMEAÇADO? 

E-global: Pode-se estabelecer aqui alguma ligação com as eleições que se avizinham?

Eric Morier-Genoud: Não creio que a emergência dos ditos Al-Shabaab tenha algo a ver com as eleições de 2018 e 2019, nem que estes insurgentes vão ser influenciadas pelas mesmas.  

Os Al-Shabaab querem a lei de Deus e não vão reconhecer um sistema de eleições. 

Pelo contrário, a resposta do Estado a esta nova guerrilha podia ser influenciada pela perspectiva das eleições. As eleições podiam distrair os dirigentes e os políticos da situação em Cabo Delgado.  

Mas creio que a importância da exploração do gás para o país (estamos a falar de dezenas de biliões de dólares de investimentos e futuros rendimentos), o peso e o medo das empresas multinacionais do gás e petróleo perante este novo perigo, vão manter as mentes focadas.

Ercílio Chaúque: Também não vejo relação com as eleições, não consigo ver quem (nenhum dos partidos políticos) potencialmente sairia beneficiado com esta situação.  

Poderíamos espreitar a cartografia eleitoral do professor Carlos Brito e tentar ver qual tem sido a tendência de voto das zonas atacadas, desde a província de forma geral até as aldeias em específico. 

 

A evolução do que se está a passar em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, indicia que, conforme a conversa entre Eric Morier-Genoud e Ercílio Chaúque, estamos perante um fenómeno que está em crescimento e cujos contornos são de difícil previsão.  

Se este é o início de uma organização semelhante ao “Boko Haram” no norte da Nigéria, cuja comparação importa sublinhar para entender a origem do fenómeno, a questão económica e social da região aliada ao desemprego e frustração das expectativas da população maioritariamente jovem, deixa também pistas para olhar para a capacidade organizacional do grupo e seu impacto na região. 

Xénia de Carvalho

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