Moçambique

Frente a Frente: Em Portugal, com os olhos postos em Moçambique

(c) Miguel Luís

As eleições gerais de Moçambique serão as sextas do país e envolvem a votação presidencial, parlamentar e, pela primeira vez, para as 10 assembleias provinciais. Uma missão história que faz com que a comunidade internacional centre a sua atenção num país que regista taxas de crescimento entre o 4% e os 4.7%, face ao ano anterior, segundo relatórios do FMI. Para isso, contribuem fatores como o aumento dos investimentos no sector gás, crescimento das exportações e uma contenção da política fiscal.

Os três partidos com assento parlamentar, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no poder desde a independência em 1975, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), representados por Filipe Nyusi, atual chefe de Estado da Frelimo, Ossufo Momade, líder da Renamo e Daviz Simango, presidente do MDM, bem como o representante do partido extraparlamentar (AMUSI), Mário Albino disputam o poder.

Numa campanha que até agora está a decorrer com relativa normalidade a e-Global quis saber como os jovens moçambicanos na diáspora acompanham o desenvolvimento destas eleições históricas e quais os problemas e desafios de Moçambique?

 

Moçambique é um país diferente

Malenga, descendente da tribo maconde, um grupo étnico bantu que vive no sudeste da Tanzânia e no Nordeste de Moçambique, cantor, compositor e artista plástico natural de Cabo Delgado, a residir em Portugal há mais de dez anos, refere com naturalidade que Moçambique mudou muito nos últimos anos.

“Muita coisa mudou, especialmente na cidade de Maputo, onde fui recentemente. Notei que as estradas foram reconstruídas, que há várias universidades públicas em praticamente todas as províncias… Nota-se que há uma certa estratégia, acho que o Estado percebeu que a educação é o caminho a seguir. Entre a altura em que eu vivi em Moçambique e agora, apercebo-me de que há uma vontade grande de fazer as coisas acontecerem.”

Malenga, nome artístico que na sua língua língua-mãe, o shimakond, significa “abóbora pequena” tem toda a sua família ainda a residir em Moçambique, mas a sua vida é feita de viagens. Primeiro para Maputo, aos 17 anos, para estudar, depois para o Porto, onde ingressou na Faculdade de Belas-Artes. Seguiu-se uma curta passagem pela Suécia até chegar a Lisboa, onde reside atualmente. Neste percurso, relembra que os tempos em Portugal “foram difíceis”. Em Moçambique vivia da sua arte, do seu trabalho artístico e em Portugal foi “muito difícil e ainda é subsistir da arte”…

Para o jovem artista não faz qualquer sentido “comparar a realidade moçambicana com a realidade europeia”, por exemplo. “Em Moçambique há coisas muito boas, mas também há coisas muito más. Estamos perante um país ainda muito cru. Foram 40 anos conturbados e ainda hoje não se pode dizer que há uma paz efetiva, mesmo com a assinatura do 2º acordo de paz. O Estado tem de ser capaz de nos mostrar que tem um projeto credível,” admite. Mesmo considerando que “10 anos de paz efetiva é muito pouco para reconstruir um país…”

 

Corrupção, um mal endémico

Os níveis de corrupção em Moçambique são dos mais elevados do mundo, especialmente a pequena corrupção, que afeta os direito básicos do cidadão na política de acesso ao emprego, educação e justiça. Os líderes dos principais partidos apregoam uma mudança, contudo “a maior parte dos países africanos tem um elevado índice de corrupção”, mas, “mesmo nos países nórdicos há corrupção. É política e já é assim desde a Grécia Antiga”, admite Malenga.

No que diz respeito a uma política pública para as Artes, Malenga não hesita em considerar que “deveria ser dada mais atenção às artes, pois influencia muito o país”, mas “acima de tudo é preciso ter intuição, não é fácil entender nem falar sobre o trabalho artístico”.

Um regresso a Moçambique não está fora dos horizontes, mas por agora não pensa muito nisso,  não pode afirmar se voltará ou não, independentemente do resultado das eleições”. Já em relação à situação conturbada de Cabo Delgado, a explicação reside na “riqueza que lá se descobriu”. No entanto, não tem dúvidas quando afirma que “a maior riqueza de Moçambique são os moçambicanos” e, “garantidamente, a situação em Cabo Delgado vai melhorar”

 

O Jovem estudante de Maputo sonha com um país mais justo

Também a viver em Lisboa, natural de Maputo, Miguel Luís, 23 anos, finalista do curso de Direito, correspondente do jornal moçambicano o País, decidiu vir estudar para Portugal “pela facilidade da língua”, pelo facto de os manuais utilizados em Moçambique serem os mesmos que aqueles que são utilizados lá e porque Portugal continua a ser visto como uma referência”.

Miguel tem uma postura muito crítica em relação ao estado politico do país, referindo que depois de todas as dificuldades dos últimos anos; “as dívidas ocultas, o FMI, o ciclone”, seria muito estranho que não houvesse “uma reviravolta eleitoral”. Por outro lado, admite,  “o partido que está no poder tem sempre vantagem, visto que tem uma grande máquina partidária atrás de si”.

Tendo em conta a situação atual de Moçambique, para Miguel, o  principal problema de país reside na falta de uma aposta clara na educação e formação. “Apesar de o número de faculdades ter crescido de forma exponencial, ainda falta melhorar a  qualidade do ensino. Maior quantidade não significa qualidade… No entanto, o problema está na base, pois, não vale a pena ter muitas universidades se os alunos nunca pegaram num romance ou livro de poesia, se não foram estimulados para a leitura desde cedo”.

“Os livros em Moçambique ainda continuam a ser escassos”, admite Miguel, apesar de na capital já começar a haver alguma oferta, continua a ser residual. Há falta de bibliotecas e o preço dos livros não não são convidativos. Só com 18 anos é que que consegui comprar o meu primeiro livro, um romance de Mia Couto”.

Encarando os desafios que o país tem pela frente, o jovem estudante de Direito não tem dúvidas quando afirma que a educação é uma garantia para um futuro mais próspero. “A educação é a base de tudo, ajuda a população a ter um espirito crítico e a votar com mais conhecimento de causa”, acrescentando que “instituições como o Centro de Integridade Pública- CIP resultam de um maior esforço para que os processo eleitorais sejam mais transparentes”.

Como jovem Moçambicano na Diáspora, não pode deixar de pensar na situação dos constantes strasos nas bolsas, muitas vezes espera-se seis, sete meses pela chegada dos apoios e torna-se muito difícil viver assim. No geral, os moçambicanos têm muitas dificuldades em ter acesso aos bens e serviços públicos”.

De carater afável e um sorriso no rosto, Miguel fala com desenvoltura de um país que considera que tem tudo para crescer e prosperar, mas ainda há um longo caminho a percorrer. “Moçambique é um país em franco crescimento económico, mas ainda não é um país que tenha um desenvolvimento sustentável”, refere.

Em relação à campanha e da forma com está a decorrer, Miguel admite que na sociedade moçambicana “há um certo sentimento de injustiça que mais tarde ou mais cedo irá gerar conflitos.

“Nós já vimos isto acontecer muitas vezes; acordos, eleições, conflito, acordos, eleições, conflito. É um ciclo que não termina. Agora parece estar tudo bem, mas depois de os resultados serem conhecidos, há um certo sentimento de injustiça entre os derrotados que pode vir a gerar um novo conflito, é um ciclo sem fim”.

No seu entender, esta situção acontece devido “às duvidas que ainda existem em relação à transparência das instituições e ao comportamento dos atores politicos que não sabem acatar as resultados”.

Com todos os problemas inerentes, Miguel é peremptório no reconhecimento que faz de Moçambique; “tem recursos humanos, minerais e energéticos inimagináveis. É preciso apostar na diversificação da economia e na índustria transformadora, para que os moçambicanos não tenham que comprar tudo o que produzem a preços muito elevados”.

E claro, vai votar nas próximas eleições, mesmo à distância.

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