Moçambique: Pacientes com HIV abandonam tratamento

Na Provincia de Inhambane desde a eclosão da pandemia tem se notado fraca aderência ao tratamento anti- retroviral (TARV) para pacientes com HIV, facto relatado pelos activistas comunitários naquela parcela do país.

Em entrevista Renilia da Santa Juvenildo, activista comunitária na Associação Malhahe, (termo proveniente da língua Xitswua que, numa tradução livre, significa Mensageiros), lamentou o facto de que a Covid-19 estar a contribuir para que algumas pessoas desistam do tratamento anti-retroviral, por medo de serem contaminadas pela doença nas unidades sanitárias.

“Penso que é necessário que as unidades sanitárias prestem atenção à forma como cuidam dos pacientes com doenças crónicas, porque podemos perder muita gente por não tomarmos medidas apropriadas. Não nos esqueçamos que vínhamos tratando outras doenças antes da Covid-19”, afirma Renilia Juvenildo que trabalha na associação há dois anos no processo de consciencialização comunitária sobre a prevenção de doenças, principalmente HIV-SIDA e tuberculose.

Como uma “mensageira”, Renilia trabalha dia após dia, no Centro de Saúde de TingaTinga, no Distrito de Maxixe, Província de Inhambane, sul de Moçambique, na sensibilização de pacientes sobre a importância de não se desistir do tratamento de doenças crónicas, assim como na sensibilização de pacientes para que possam superar a discriminação que, muitas vezes, sofrem na comunidade.

A activista conta que, na óptica de muitos pacientes, constituiem barreira para o acesso ao tratamento os seguintes factores: as longas distâncias que se percorre para se chegar às unidades sanitárias, os custos de transporte, o longo tempo na fila de espera, bem como a necessidade de realizar outras actividades para o sustento da família.

Um dos objectivos da Associação Malhahe é assistir doentes dependentes do anti-retroviral (TARV), para que os mesmos não desistam de recorrer à unidade sanitária em busca de tratamento, baixando-se, desta feita, os índices de abandono ao tratamento contra o HIV.

Por outro lado, como forma também de diminuir a sobrecarga de trabalho das unidades sanitárias, Renilia Juvenildo tem-se esforçado para promoção da participação activa dos doentes no levantamento e distribuição dos medicamentos entre si e no controlo da adesão ao tratamento TARV.

A activista também dá o seu contributo na assistência psicossocial aos pacientes em TARV e Pré-TARV, reunindo-os em grupo para que discutam melhores mecanismos para recorrer à unidade sanitária, de modo a estabelecerem um sistema de alerta para o rastreio de várias doenças e situações de abandono ao tratamento.

“Trabalho como activista no sector da saúde para ajudar pessoas a compreender a sua situação de saúde, assim como dou a conhecer que elas têm seus direitos e deveres como utentes”, afirma a activista.

Uma das estratégias da Malhahe aponta para o envolvimento da comunidade, trabalhando directamente com os pacientes.

“Através da palestra, aconselhamento e sensibilização da comunidade para fazer o teste, estar em tratamento, fazendo visitas domiciliares, penso que estamos a ser um elo importante entre o hospital e a comunidade, no que diz respeito à retenção de pacientes”, explica Renilia Juvenildo.

Os activistas da Malhahe vivem nos mesmos bairros em que actuam, para que não percorram longas distâncias para a realização de seus trabalhos, facilitando, desta forma, as suas actividades. A sensibilização e o encaminhamento às unidades sanitárias são cruciais para o apoio aos residentes da comunidade de Tinga Tinga.

“Ainda há muita gente que não aceita a doença, dificultando desta forma o trabalho dos profissionais de saúde. Infelizmente, só quando estão extremamente doentes e debilitados é que aceitam deslocarem-se até à unidade sanitária. Após a descoberta da doença, é muito importante o acompanhamento do activista para que o paciente esteja consciencializado sobre a importância do tratamento, assim como sobre a possibilidade de se viver uma vida saudável ao medicar-se”, avançou Renilia Juvenildo.

No decorrer dos primeiros dias, conta a activista comunitária, ela e os seus colegas acompanham o paciente ao médico durante a primeira fase do tratamento, altura em o paciente começa a fazer a medicação.

“É o activista que faz as visitas à casa dos pacientes, incentivando-os a continuar com o tratamento durante os primeiros meses, até que haja garantia de que o paciente continuará o tratamento por conta própria: quando, finalmente, o paciente aceita o seu estado e percebe que precisa da medicação para poder viver saudavelmente”, explicou a activista.

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