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Entrevista: UNICEF Portugal afirma que moçambicanos estão “verdadeiramente impressionados” com apoio dos portugueses

Crianças

Duas semanas após a passagem do ciclone Idai por Moçambique, ocorrida a 14 de março, o país continua a tentar reerguer-se, aos poucos, fazendo frente aos inúmeros prejuízos causados por este desastre natural, que atingiu principalmente a cidade da Beira.

Para ajudar nesta tarefa, muitas são as ajudas que têm chegado de várias partes do mundo, tanto a nível monetário como de bens materiais. Portugal é um dos países onde mais se tem notado a crescente onda de solidariedade para com as vítimas do Idai, que causou, pelo menos, 468 mortes, além de milhares de pessoas afetadas, entre elas cerca de um milhão de crianças.

Em entrevista ao e-Global, a Diretora Executiva da UNICEF Portugal, Beatriz Imperatori, contou como esta organização não governamental tem acompanhado a situação e de que forma tem ajudado as crianças moçambicanas.

e-Global: De que forma é que a UNICEF Portugal está a acompanhar os estragos causados pelo ciclone Idai, que devastou Moçambique e que afeta, pelo menos, um milhão de crianças no país?

Beatriz Imperatori: Acompanhamos sempre todas as situações de emergência de perto, não só através das actualizações que recebemos dos nossos colegas da UNICEF no terreno e na sede, assim como de outras agências das Nações Unidas. Mas esta é uma situação de emergência que – enquanto portugueses – nos toca profundamente por se tratar de um país irmão com o qual temos uma ligação muito forte. Penso que não terá havido um português que tenha ficado indiferente a esta tragédia que se abateu sobre o povo moçambicano.

Moçambique é um dos 190 países e territórios onde a UNICEF tem presença permanente e, por isso, assim que se deu a passagem deste ciclone devastador, começámos a receber informação sobre a situação das crianças afectadas e das suas famílias no espaço de pouco tempo. Porque nas primeiras horas e dias havia muitas zonas e localidades inacessíveis, os números – apesar de serem elevadíssimos – ainda não espelhavam o verdadeiro impacto do ciclone. No entanto, tendo em conta o número de pessoas que vive nas zonas afectadas, conseguimos fazer uma estimativa aproximada do número de pessoas que possivelmente poderiam vir a precisar de assistência humanitária. À medida que os dias foram passando e mais zonas ficaram acessíveis isso veio a comprovar-se. Se nos primeiros dias falávamos em cerca de 260.000 crianças afectadas, a última actualização indica-nos que serão 900.000 neste momento.

Qual o apoio da UNICEF às vítimas do Ciclone Idai?

O apoio da UNICEF às crianças e famílias afectadas começou imediatamente logo após a passagem do ciclone, pois temos uma equipa permanente de 150 colaboradores no terreno, dos quais 20 foram destacados em permanência para a Beira. A estes viriam juntar-se outros colegas de outras bases noutros países, consoante as necessidades. Apesar de todos os desafios, a UNICEF começou a despachar vários equipamentos e materiais de apoio pré-posicionados em unidades de armazenamento regionais como sais de reidratação oral, kits de higiene e pastilhas de purificação de água.

Também nos primeiros dias a UNICEF fez chegar ao país – a partir do nosso armazém central em Copenhaga – uma carga aérea de 43 toneladas, que incluiu contentores de água potável, bombas de água, kits de higiene e cerca de 10.000 kits escola e outro tipo de artigos.

A UNICEF estima que sejam necessários 30.000.000,00 USD [26.552.200 euros] apenas para dar respostas às primeiras necessidades das crianças e das suas famílias em Moçambique. A UNICEF Portugal começou imediatamente a recolher fundos para as vítimas do ciclone Idai aqui em Portugal.

O donativo em dinheiro é a forma mais eficaz de ajudar Moçambique. A UNICEF garante, através do seu sistema logístico e da sua cadeia de abastecimento, que as crianças e as suas famílias recebem efectivamente o que é preciso, da forma mais ágil, célere e economicamente eficiente. As características dos produtos, as condições de aquisição, o armazenamento e o transporte são variáveis críticas para podermos ajudar de forma célere e eficaz. Por isso a UNICEF apela a donativos em dinheiro, para assegurar a entrega dos bens que são realmente necessários e nas devidas condições.

Como somos a única agência das Nações Unidas que depende inteiramente de contribuições voluntárias, públicas e privadas, o apoio de todos os nossos doadores é extremamente importante.

Que balanço faz das ajudas efetuadas até ao momento?

A mobilização dos portugueses no apoio a Moçambique tem sido verdadeiramente extraordinária. Estamos profundamente gratos a todos os que contribuíram para a resposta humanitária da UNICEF naquele país.

Em pouco mais de uma semana, os portugueses contribuíram com 500.000,00€ para a UNICEF Portugal destinados a apoiar as crianças de Moçambique e suas famílias. Esta verba inicial foi transferida para o Fundo de Emergência para Moçambique da UNICEF no dia 26 de Março.

Do montante de donativos recolhidos em pouco mais de uma semana, mais de 200.000,00€ foram doados através da página Facebook da UNICEF Portugal – um valor notável nesta plataforma no nosso país.

Qual a reação de Moçambique em relação à vaga de apoio de Portugal?

Estamos em contacto permanente com os nossos colegas em Moçambique que estão a trabalhar incansavelmente e nos transmitem o que vai acontecendo no terreno. Também eles nos manifestaram estão verdadeiramente impressionados com o apoio vindo de Portugal.

O que ainda é preciso fazer para auxiliar as crianças vítimas do ciclone Idai?

Para já, a UNICEF está focada na resposta humanitária de primeira linha para colmatar as necessidades mais básicas das crianças e famílias afectadas. É preciso garantir abrigo, prestar apoio nutricional, assegurar o acesso a água potável e condições de saneamento – para evitar o surto de doenças transmitidas pela água, tais como a cólera –, e proporcionar também cuidados médicos básicos.

É importante que as crianças tenham espaços onde se possam sentir seguras e por isso a UNICEF já montou vários Espaços Amigos das Crianças, onde também presta apoio psicossocial – algo tão importante depois do trauma por que passaram. Não nos podemos esquecer de que muitas delas não só perderam a sua casa e tudo o que tinham, como também familiares e amigos.

A médio e longo prazo é importante que as crianças retomem a sua rotina e a educação é uma das principais ferramentas para isso, pois dá às crianças um sentido de normalidade na vida – às vezes mesmo no meio do caos. Por isso, a UNICEF vai continuar a trabalhar para que a educação seja retomada o quanto antes, começando, numa primeira instância, por usar os Espaços Amigos das Crianças que já estabeleceu como salas de aula.

Neste âmbito, um dos artigos que despachámos para o terreno foi o Kit Escola, ou School in a Box, que foi criado pela UNICEF há 20 anos como uma solução de baixo custo para que as crianças continuem a ter acesso à educação. Estamos a falar de uma caixa que contém materiais escolares para um professor e até 40 alunos que lhes permite continuar a sua educação.

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