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Patrice Trovoada anuncia necessidade de reformas em discurso do Estado da Nação

 

Os impactos da desfavorável conjuntura internacional afetaram o desempenho económico deste ano de São Tomé e Príncipe. O mote foi dado pelo primeiro-ministro na apresentação do Estado da Nação no parlamento. Porém, Patrice Trovoada considera que a situação não é alarmante, mas o país tem que encontrar soluções internas.

No retrato apresentado aos deputados e à nação, através dos meios de comunicação social, o chefe do governo começou por recordar que “o país é estruturalmente dependente da ajuda externa”.

«O mundo está mergulhado numa profunda crise financeira e económica e os sinais que nos chegam de todos os lados são de uma agudização da situação com o surgimento de novos contornos, ao mesmo tempo que os instrumentos e dispositivos institucionais clássicos de intervenção revelam-se cada vez mais inadequados e incapazes de debelar as diversas crises e estimular o crescimento e o desenvolvimento», disse.

«Os nossos principais parceiros estão irremediavelmente em crise e vivem todos num contexto de total incerteza política e económica que não pode deixar de nos preocupar. O mesmo passa-se com o Banco Africano de Desenvolvimento, instituição africana de primeiro plano e importante financiador da nossa economia. Os países membros não continentais desta instituição constituem hoje os seus principais financiadores contrariamente ao que se poderia à partida esperar. Outro facto não menos importante e que deve ser tido em devida consideração é que se prevê até ao final do corrente ano um crescimento global para o continente africano de 1,4%. O que é preocupante com África é a pior cifra registada no continente nos últimos 20 anos», acrescentou.

Patrice sublinhou também que “ao nível bilateral a situação não se afigura mais otimista. A Nigéria, o Gabão, a Guiné Equatorial e Angola responsáveis por uma ajuda global entre dons e empréstimos superiores a 100 milhões de dólares, incluídas as receitas de privatização nos últimos 8 anos encontram-se mergulhados numa profunda crise decorrente essencialmente da queda do preço do petróleo nos mercados internacionais”.

Com este cenário é necessário inverter a situação. “Esta realidade deverá levar-nos a tomar definitivamente consciência que o mundo mudou radicalmente, que nada será como antes e que o futuro será ainda mais difícil e temos de contar cada vez mais com os nossos próprios esforços. (…) Tudo isso dá-nos a dimensão do esforço que temos de empreender internamente, os hábitos que temos de alterar, das reformas necessárias e roturas que temos de levar a cabo para continuarmos a melhorar as condições de vida das nossas populações, para continuarmos a sobreviver e configurar um futuro mais consentâneo com a dignidade e ambição do Homem e do povo santomense”.

«A verdade é que temos de compreender que não podemos continuar indefinidamente a consumir esforços e recursos alheios. Não podemos continuar a contar com os excedentes dos outros que trabalham e sacrificam quando estamos a fazer festa, a contemplar as nossas praias ou simplesmente a circular nos nossos Pajeros e Hilux de cabine dupla adquiridos com os esforços dos outros quando fica por fazer aquilo que não necessita nem de recursos financeiros externos, nem de conhecimentos que tenham de ser importados de outras paragens, mas tão-somente de trabalho, de responsabilidade, de disciplina e de honestidade», insistiu.

O nível de desemprego, particularmente o desemprego jovem, os créditos contraídos pelo executivo e a sua finalidade, a reforma monetária, o custo-benefício das viagens feitas pelo chefe do governo, os resultados do STeP In London, os catamarãs adquiridos para facilitar a ligação entre as ilhas e com os países vizinhos, foram alguns temas abordados durante o debate.

Os partidos da oposição não pareceram muito convencidos, porque na sua opinião as dificuldades no cenário internacional já eram conhecidas. Por outro lado, o governo deu garantias de mobilização de grande parte dos fundos necessários para financiar o Orçamento e as Grandes Opções do Plano.

Para o PCD, o governo falhou em todas as suas previsões. Delfim Neves apontou vários exemplos. Entre eles, o crescimento sai de 5% para 4%. A inflação vai ser superior a 5,5% em comparação com 2015. A reserva internacional líquida para importação que baixa de 6 meses para dois meses e meio.

«O governo falhou no abastecimento de água potável às populações. Hoje muitos lugares continuam a ter tubos e não água apesar das inaugurações com pompa. Governo falhou na gestão e distribuição de água potável. Tinha prometido melhorias substanciais até junho deste ano. Não obstante a aquisição de novos grupos de geradores os cortes constantes continuam a ser o pão nosso de cada dia, com sérias repercussões para as famílias, serviços e empresas. O governo falhou na sua promessa de reduzir a pobreza. A pobreza aumentou em todos os domínios de análise», destacou ainda o dirigente do segundo maior partido da oposição.

O MLSTP/PSD, de igual modo, entende que o executivo do ADI chumbou e “como o primeiro-ministro não respondeu às diversas questões”, Jorge Amado instou o chefe do governo a repor vários montantes em falta.

«Senhor primeiro-ministro, são tantas as dívidas que tem, mas a mais importante que nos interessa e até agora o senhor não deu resposta ao povo de São Tomé e Príncipe é cadê os 30 milhões de dólares que o senhor recebeu em nome do povo para construir a cidade administrativa e a casa dos trabalhadores que lá deveriam ir trabalhar. Esse dinheiro tem que aparecer».

A bancada do ADI que suporta o governo considera, por sua vez, que a oposição falhou na sua estratégia e não representa uma alternativa para a governação. A constatação de Levy Nazaré.

«Reconhecer que uma oposição fraca frustra a sociedade que não encontra alternativa. Reconhecer também que ficou notório que um parlamento enfraquece o exercício democrático. Isso é responsabilidade nossa enquanto políticos, responsáveis de partidos políticos para que no momento próprio saibamos que pessoas devemos escolher para representar o povo na casa parlamentar. É um desafio que aproveito e lanço aqui a todos os partidos políticos em 2018».

O debate sobre o Estado da Nação foi o primeiro exercício do género este ano. A oposição tinha condicionado a sua participação na discussão do orçamento para 2017 com a discussão sobre a situação em que o país se encontra.

 

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