São Tomé e Príncipe

STP: Novas revelações sobre o alegado envolvimento de Patrice Trovoada no golpe de Estado de 2003

O antigo operacional do extinto Batalhão Búfalo, criado pelo regime do apartheid na Africa do Sul, fez novas revelações sobre o alegado envolvimento do cidadão Patrice Trovoada no golpe de Estado de 2003.

Peter Lopes foi ouvido esta segunda-feira pela Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o ex-primeiro-ministro Patrice Trovoada, como mentor do golpe de Estado e que teria ordenado o assassinato dos ex-presidentes Fradique de Menezes e Pinto da Costa, e o ministro da Defesa, Óscar Sousa.

Depois de reafirmar tudo o que disse no vídeo postado nas redes sociais, ele desafiou as autoridades a trazerem Patrice Trovoada para São Tomé.

«Isso de eu estar aqui a falar não tem interesse. Esse cidadão deveria estar diante de mim, para me desmentir», afirmou, para acrescentar: «Era Patrice Trovoada quem alimentava os 12 elementos do Batalhão Búfalo que estavam em São Tomé com sacos de dinheiro provenientes da sua residência no bairro do Campo de Milho», situada na periferia da capital. “Eu fui recrutado para meter armamento em São Tomé para dar o golpe de estado”.

Peter Lopes disse ainda que Patrice Trovoada foi o primeiro dirigente a se deslocar ao quartel-general, onde estavam detidos todos os dirigentes do país depois de consumado o golpe de estado.

«Fizemos o golpe na noite do dia 16 de junho de 2003. Nas primeiras horas do dia seguinte, ainda de madrugada, qual foi o primeiro dirigente que apareceu no quartel? Não foi Patrice Trovoada? Porque lhe ligamos a dizer: venha, que já tomamos isso”, revelou.

«As pessoas me usaram e querem continuar a usar-me. Usaram-me para entrar com armamento em São Tomé», insistiu. “Eu era a peça principal do golpe de estado de 2003. Não foi nossa intenção subir o avião e vir fazer o golpe de estado, alguém nos recrutou. Muita gente sabe o que aconteceu e continuam com a mesma manobra de enganar (…) não querem falar a verdade”, uma referência a Arlécio Costa e Fernando Pereira “Cobó”, que durante a audição desmentiram o envolvimento de Patrice Trovoada.

Arlécio Costa, um dos responsáveis do golpe e outro ex-operacional do extinto batalhão Búfalo, disse desconhecer o envolvimento de Patrice Trovoada no golpe de 2003.

“Na altura, [era] um dos dirigentes do golpe… havia outros colegas meus… Plácido ‘Peter’ Lopes era um subalterno, isto não implica que o que ele tenha dito não seja verdade. Nós viemos da África do Sul com um projeto bem elaborado. Nenhum nacional esteve envolvido moral ou financeiramente.”

Fernando Pereira “Cobó”, que assumiu a liderança da insurreição mlitar, também desmentiu qualquer envolvimento de Patrice Trovoada no golpe de estado de 2003.

«O cidadão Patrice Trovoada não foi tido nem achado nesse golpe. Não houve lista nenhuma de assassinatos, não houve nomes, não houve nada. Isso ultrapassa o limite do absurdo”, declarou Pereira, remetendo para Peter Lopes “o esclarecimento sobre o assunto”
No rol de novas acusações, Peter Lopes referiu ainda que durante as eleições presidenciais de 2016, os elementos do Batalhão Búfalo receberam instruções de Patrice Trovoada para “quebrar a perna do ajudante de campo de Pinto da Costa”, garantindo que tem mais coisas para dizer.

Na sua opinião, o “ódio entre duas famílias” (a de Pinto da Costa e Miguel Trovoada) está na origem dos problemas do país.

A CPI já ouviu vários cidadãos, no âmbito da investigação em curso. Por exemplo, Fradique de Menezes exercia, na altura, as funções de Presidente da República.

O antigo chefe de Estado disse que não pode “confirmar nem tão pouco negar” as alegações contra Patrice Trovoada. Mas “todos têm que reconhecer que aquele golpe foi direcionado contra mim”.

Menezes referiu que, durante os dois mandatos como Presidente entre 2001 e 2011, foi uma figura incómoda no xadrez político, devido às suas posições. Por isso, o ex-chefe de Estado defende a investigação em curso.

“Esse trabalho que a Assembleia está a fazer agora deveria ter sido feito pela Procuradoria-Geral da República”, afirmou. E “se o cidadão, Patrice Trovoada de facto fez isto, ele tem de ser responsabilizado”, sublinhou

 Óscar Sousa, atual ministro da Defesa e Ordem Interna, outro pretenso alvo da intentona, associou Patrice Trovoada ao golpe de 2003.

“[No que diz respeito a] financiamento eu não sei, mas ele foi o autor intelectual”, disse Sousa. “Vim apenas confirmar alguns desses aspetos, que são reais. Enquanto responsável pelo setor da Defesa, de 2003 a 2008, enquanto fui ministro, cheguei a esta conclusão.”

Óscar de Sousa classificou Patrice Trovoada como um homem perigoso, denunciando ainda que, no ano passado, desapareceram dos paióis das Forças Armadas peças de artilharia pesada durante a presença de uma missão militar ruandesa em São Tomé e Príncipe.

“Nós continuamos preocupados. Queremos saber como [as armas] saíram de São Tomé, porque elas vieram legalmente. Será que saíram de forma legal? Portanto, ele gosta muito dessas coisas”, declarou.

Ouvido também no inquérito parlamentar sobre o golpe de 16 de julho de 2003, o ex – Procurador-Geral da República, Adelino Pereira, considerou, no entanto, que esta é “uma questão que está encerrada” por ter sido aprovada uma lei de amnistia.

Apesar da amnistia parlamentar sobre os atos praticados durante o golpe, Fradique de Menezes considerou a denúncia de Peter Lopes como sendo um caso novo e merecedor de investigação.

«Isto é um caso novo, porque nessa altura, quando se deu a amnistia, era daquilo que tinha havido. Entretanto, surge esse caso novo, quando um cidadão vem dizer que houve um individuo que finalmente era chefe e que ele até ordenou para ceifar vida a três dirigentes. Aí a Assembleia está no seu direito de criar uma comissão para de facto verificar”, argumentou o antigo chefe de Estado.

Na audição desta segunda-feira, a antiga primeira-ministra, Maria da Neves, não compareceu por estar ausente do país. O ex-presidente, Manuel Pinto da Costa, também não respondeu à convocatória, e desconhece-se as razões. A CPI anunciou que voltará a se reunir nos próximos dias, altura em que esperam ter as presenças das duas figuras.

O antigo primeiro-ministro são-tomense Patrice Trovoada, alvo do inquérito, convocado por duas vezes, não compareceu na CPI, e também não apresentou justificação. Patrice Trovoada abandonou o país mesmo antes do anúncio definitivo dos resultados das eleições legislativas de outubro passado.

Com um mandato de 60 dias para concluir as investigações, o Parlamento promete acionar outros mecanismos para ouvir Patrice Trovoada, caso ele não compareça na terceira convocatória.

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