África Subsaariana

Entrevista: Vidas em mudança na África do Sul

O surto do novo Coronavírus atingiu todos os continentes sem exceção e os vários países, a velocidades diferentes, preparam-se para aliviar as medidas de confinamento, depois de três longos meses. O país africano mais atingido pela pandemia, foi a África do Sul, com cerca de 10 mil casos positivos e 194 mortos. Desde final de março que as autoridades sul-africanas impuseram medidas restritivas na mobilidade da população para conter a disseminação do vírus e se do ponto de vista sanitário, as medidas foram louváveis, do ponto de vista económico e social, as consequências podem ser catastróficas.

Estima-se que atualmente vivam na África do Sul cerca de meio milhão de pessoas com raízes portuguesas, especialmente na área de Joanesburgo, muitos deles pequenos e médios empresários, que de um dia para o outro se viram sem fontes de rendimento. Na história tumultuosa do país, pouco se viram confrontados com desafios tão altos e a expectativa gera medo. Se os mais velhos fazem contas à vida, os mais novos querem sair do país, estão preocupados com o futuro, o aumento do desemprego e a insegurança.

Na faixa etária entre os 25 e 34 anos,  o desemprego atinge 36% da população e o caso agrava-se se analisarmos por género e etnia, sendo as mulheres negras, as mais afetadas.

 

 

Marta Campos, professora de Português na África do Sul, 39 anos

Eu vim para a África do Sul em 2015, para um concurso local que tinha a duração de nove meses, mas entretanto fiz o exame de leitora de português para o Instituto Camões e no ano seguinte acabei por ficar em comissão de serviços na Universidade de Witwatersrand em Joanesburgo. Em 2017, tornei-me diretora do Departamento de Português e em 2019, diretora dos Estudos Graduados. Fui trabalhando, as oportunidades foram surgindo naturalmente à medida que abraçava diferentes projectos e fui abrindo portas. Quando cheguei à Universidade havia apenas um Major em português de 3 anos e agora já há uma pós-graduação e Mestrado em Estudos Portugueses.

Gosto muito de trabalhar cá, sinto-me muito apoiada a nível profissional, embora deva confessar que este não é o meu país de sonho para viver. A minha maior dificuldade no país tem a ver com o clima de insegurança que se sente. Embora viva numa zona mais recatada, temos sempre de ter sempre muito cuidado quando saímos à rua. Nós, em Portugal, podemos andar muito mais à vontade, mas Joanesburgo é uma cidade que tem tantos habitantes como Portugal inteiro, então é diferente.

As universidade de Wits e de Capetown são duas das melhores instituições do continente africano, por isso temos uma variedade muito grande de alunos que se inscrevem nos cursos e, curiosamente, há mais alunos sul-africanos inscritos nas aulas de português do que alunos luso-descendentes, apesar do número ter aumentado nestes últimos dois anos e isso pode estar relacionado com o novo sistema de quotas em vigor na África do Sul, que impossibilita que muitos jovens luso-descendentes tenham acesso a um bom emprego ou até a um bom curso na universidade. Na minha opinião, os jovens luso-descendentes não têm futuro neste país.

E desde que esta situação de pandemia começou, os problemas têm-se agravado, aquilo que vemos é que há muita gente a passar fome, porque não ganham dinheiro, não têm trabalho e isso gera situações sociais muito fortes. No que diz respeito ao sistema de saúde, o país tem boas infra-estruturas, bons médicos e nesse aspeto sinto que estamos bem aqui.

 

Daniela, Estudante de mestrado em Português, Pretória, 23 anos

Quando entrei na Universidade, no 1ºano escolhi português como disciplina opcional, achei que era interessante e poderia ter outras saídas profissionais e gostei muito, por isso continuei. Se, por exemplo, tiver um proposta para ir para Portugal, vou, mas gosto muito de estar aqui, gosto de viver na África do Sul, por isso não me importo de ficar. Nós, os jovens não somos tão pessimistas como os nossos pais, não estamos assim tão preocupados com a economia, mas, claro que com esta situação de confinamento, os problemas começam a surgir, depois disto  haverá de certeza mais desemprego, a criminalidade vai aumentar, as pessoas vão estar mais desesperadas…

Por enquanto estamos no nível 3 de quarentena, ou seja ainda não podemos fazer quase nada a não ser falarmos uns com os outros, partilharmos vídeos, usar o tik tok  e isso com o tempo torna-se muito aborrecido.

 

Roberto Adão, Estudante de Direito, Artista, 24 anos

Sou estudante do curso de Direito e, ao mesmo tempo, sou também cantor, faço vários espectáculos junto da comunidade portuguesa. Para além disso, sou leitor assistente dos alunos de português do 2 ano em Witwatersrand. Então tenho três ocupações, mas com esta situação de confinamento, todos os meus concertos foram cancelados e este seria provavelmente o meu melhor ano, não só em termos financeiros, mas também em termos de reconhecimento artístico, devido às comemorações do dia de Portugal.

Só posso falar no meu caso, mas sinto que todos estão a sofrer nestes tempos de pandemia, há negócios a fechar todos os dias e, para já, não estou a ver uma solução rápida.

Por exemplo, o meu pai é mecânico, tem duas companhias e está a vir para casa com muito menos dinheiro do que o normal, também penso que o governo sul-africano nem sempre agiu tão bem, acho que as medidas de confinamento têm sido demasiado rígidas e a nível económico a situação está a tornar-se insuportável.

Só fui 2 vezes a Portugal, tenho família no norte do país tanto do lado do meu pai como do lado da minha mãe, mas só de férias,  temos a nossa vida toda aqui, não é fácil deixar tudo para trás. Embora já antes desta situação de pandemia se sentissem muitas dificuldades, especialmente para arranjar emprego.

Agora, no pós-Covid, temo que tudo fique ainda mais difícil, mas a minha jornada passa por aqui, pois o meu curso é muito específico deste país. Pode ser que o facto de sempre ter estudado português me possa ajudar de alguma forma no futuro.

 

Miguel Pregueiro, Joanesburgo, 26 anos

Desde o início da pandemia tem sido muito difícil para mim e para todos aqueles que, como eu, trabalham na indústria da música e entretenimento. A minha maior fonte de rendimento vinha dos concertos ao vivo, estava habituado a fazer 3 ou 4 performances por semana, mas agora foi tudo cancelado e não tenho esse retorno financeiro. Então vi-me forçado a arranjar outras formas de ganhar dinheiro. Felizmente, posso contar com o apoio da minha família durante este momento menos bom, mas há muitas outras pessoas neste meio que nem sequer podem contar com esse apoio.

Além da minha carreira musical também trabalho para uma agência de modelos e vou a audições para anúncios publicitários ou marcas, mas não é algo que aconteça com muita frequência. Sou ainda um influencer, ou seja promovo diversas marcas, roupas, acessórios através das minhas redes sociais e a par com isso também edito os meus próprios vídeos musicais e o de outros artistas, sou também um criador de conteúdos.

No entanto, sempre me vi como cantor, é aquilo que sou, o meu foco principal é a música e é daí que vem a minha fonte de rendimento. Mas tendo em conta esta quebra no número de espectáculos vejo-me forçado a explorar outras áreas.

Os meus amigos que trabalham nesta indústria estão exactamente na mesma situação que eu ou até pior. Um deles teve de começar a trabalhar numa área completamente diferente, outros dão aulas de música online, outros ainda já arranjaram trabalho a tempo inteiro, temos de nos ir aguentando, enquanto esta situação de confinamento se mantiver.

O estado disponibilizou um apoio a que nos podemos candidatar, mas essa ajuda financeira é muito reduzida e não é acessível a todos. Eu sei que noutros países tem havido medidas de apoio em relação aos artistas, mas aqui na África do Sul isso não tem acontecido.

Antes da pandemia começar e terem sido decretadas estas medidas, eu tinha concertos marcados em Portugal e ainda espero poder ir lá antes do final do ano, assim que tudo isto se recompuser. Agora há muito menos restrições, estamos no grau III, mas ainda há um longo caminho a percorrer até que as salas de espectáculo voltem a abrir. A situação não é boa e vai ser muito difícil para todos.

 

Alexia, 23 anos, estudante de mestrado de Biologia

Em relação a estes últimos tempos de confinamento, provocados pelo novo coronavírus, tem sido realmente difícil viver sob fortes restrições, apesar de eu adorar estar em casa e não gostar assim tanto de sair, é mesmo muito assustador saber que há um vírus à solta que pode, potencialmente, atingir as pessoas de quem mais gostamos.

Eu penso que um dos maiores problemas em viver aqui, na África do Sul, tem a ver com a violência contra as mulheres, a cada três horas uma mulher é morta e a cada 4 segundos, uma mulher é violada, então, penso que estes factores por si só tornam vida difícil aqui. Agora, com esta situação pós-Covid o número de desempregados irá aumentar, vai haver um agravamento do estado da economia e isso preocupa-nos a todos.

Já se começa a notar que tem havido mais assaltos, já muita gente perdeu o emprego e cada família está a esforçar-se ao máximo para conseguir resistir aos efeitos desta pandemia. No futuro não sei se vou continuar a viver aqui, eventualmente posso ir para Portugal  ou para outro país da Europa. Sou estudante de Mestrado em Biologia e este ano também estou a fazer uma cadeira de português, porque quero conseguir falar com os meus avós, sei que eles iam gostar muito. Esse é o principal motivo, mas definitivamente quero ir viver para o estrangeiro, trabalhar fora do país, por que eu acho que é muito difícil conseguir ter uma carreira e vida estáveis aqui. Vivemos todos os dias com este sentimento de insegurança, sempre preocupados se trancámos as portas, se ligámos o sistema de alarme, sempre com receio daquilo que possa acontecer.

Então, eu creio que qualidade de vida no estrangeiro seria bem melhor, sem termos de nos preocupar com todos estes aspetos a toda a hora. Por outro lado, também considero que teria mais oportunidades para trabalhar naquilo que realmente gosto fora do país, pois é realmente difícil conseguir uma boa oportunidade aqui. Há tantos jovens com formação superior que não conseguem arranjar emprego…

 

Vasco Abreu, Conselheiro das Comunidades na África do Sul, Joanesburgo

Na África do Sul temos 5 estágios de quarentena e nós ainda estamos no nível 3, ou seja, os restaurantes ainda estão fechados, grande parte do comércio ainda não abriu, mas também houve um pouco de alarmismo, quando se disse que os portugueses passam fome. É verdade que há casos de carência, mas a comunidade tem-se unido, o problema são os mais idosos, mas reafirmo que são casos pontuais. Desde Abril, houve também pelos menos dois aviões de repatriamento que levaram portugueses e se houver necessidade haverá mais.

Eu tenho duas filhas de 32 e 28 anos e digo-lhes constantemente que o melhor que têm a fazer é partirem. É muito difícil viver cá, o Estado ajuda muito pouco, não há um verdadeiro estado social.

O problema é que os jovens estão habituados a viver aqui e o estilo de vida é completamente diferente do estilo de vida português, por exemplo. Gostam muito de Portugal, vestem a camisola do Ronaldo quando há jogos de futebol mas nasceram cá, sentem-se sul-africanos. Não vou dizer que não há esperança neste país, porque ainda temos democracia, liberdade de imprensa, um bom sistema judicial, mas a cada dia que passa torna-se tudo mais complicado.

Há grandes problemas económicos não só na África do Sul mas também nos países vizinhos, a nível de industria, infra estruturas é um país de vanguarda, quem vem à África do Sul apercebe-se que está num país fabuloso, mas infelizmente a situação tem vindo a complicar-se, também porque a corrupção é muito alta, o investimento externo decresceu… é uma pena.

Há também grandes conflitos inter-raciais e o discurso nacionalista do presidente não ajuda.

 

Roberto Silva, Porta-Voz do Fórum Português na África do Sul

O Fórum Português é o único organismo mandatado pela comunidade Luso- Sul-Africana para os representar perante o governo sul-africano. Como tal temos recebido não só informação da comunidade, mas também mantemos conversações com o governo Sul- Africano em relação a estas matérias.

No que diz respeito à nossa comunidade temos encontrado alguns problemas, na medida em que devido à quarentena severa imposta pelo governo, muitos empresários e trabalhadores ficaram sem qualquer forma de rendimento e isto, claro, tem criado grandes dificuldades financeiras.

No entanto, a comunidade tem demonstrado o verdadeiro espírito de solidariedade português e a vasta maioria dos casos reportados tem sido resolvidos com a ajuda de outros membros da comunidade, através de instituições de solidariedade ou de vários bancos alimentares que se realizam um pouco por toda a parte.

Em relação ao governo sul-africano temos atuado como parceiros para que rapidamente, em conjunto, possamos chegar a uma situação favorável para todos e ajudar este país que tanto amamos. Até agora, sabemos de dois casos de mortes por Covid 19 entre a comunidade portuguesa, ambos da cidade do Cabo, Província de Western Cape.

 

 

Por Ana Gonçalves

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