RCA: Djamila, 13 anos, violada e esventrada por elementos da Wagner

Djamila era uma criança de apenas 13 anos que foi esventrada para eliminar o fruto de uma serie de violações horríveis a que foi sujeita. Djamila era surda, muda e provavelmente autista.

Djamila (a bonita) é uma criança vítima de feminicídio. Crimes na República Centro-Africana sobre os quais nunca falamos e que não têm qualquer eco, simplesmente porque a vida das centro-africanas e dos centro-africanos é muito menos comovente que o resgate de uma pequena baleia encalhada na costa bretã de Roscoff.

Quando a França decidiu abandonar a República Centro-Africana aos centro-africanos, que se despedaçavam à machadada, as principais vítimas dos massacres eram mulheres e crianças, que ainda continuam a pagar o preço elevadíssimo do caos que continua e se agrava neste país.

Na República Centro-Africana violam, e depois matam os menores. Djamila tinha acabado de sair da infância. O seu pai era bantu e mãe do povo M’bororo. Órfã de pai e mãe foi acolhida pela sua tia que vivia em Bangui no bairro conhecido por “100 habitações”, a 15 quilómetros na estrada para Boali (saída norte de Bangui).

Desde 2018, o grupo de segurança privado russo Wagner, que está na República Centro-Africana para treinar o exército e garantir a segurança do Presidente Faustin-Archange Touadéra, tem operado em estreita colaboração com as Forças Armadas Centro-Africanas (FACA) e a polícia nacional. Elementos do grupo Wagner estão instalados no bairro “100 habitações”. Estes elementos frequentemente pagam a alguns “motos táxis” para raptarem meninas em diferentes bairros da capital e as sujeitarem a violações colectivas e outros actos de agressões sexuais. As vítimas aterrorizadas não reclamam justiça, receando represálias.

Os “russos” reparam na pequena e frágil Djamila quando ela tinha apenas 12 anos. Um “moto táxi” raptou-a e levou para casa deles. Impedida de gritar, não pôde pedir ajuda. Foi violada alternadamente por todos eles. Uma espiral de terror que não terminou. As violações colectivas continuaram durante meses, sempre com o mesmo esquema. Quando a tia apercebeu-se da metamorfose da sua sobrinha, a pequena Djamila já estava já grávida de oito meses!

Apavorada, a tia correu com a sobrinha para a Missão Multidimensional Integrada de Estabilização das Nações Unidas na República Centro-Africana (MINUSCA), alertou a Brigada Criminal, Unidade Mista de intervenção rápida e repressão das violências sexuais contra as mulheres e crianças (UMIRR), e ligou para a linha verde 4040, disponível 24 horas por dia.

Que fazer para limpar esta afronta e humilhação imposta pelos odiosos invasores? Djamila e a sua tia não podiam imaginar que o pior ainda estava por chegar.

Alguns dias mais tarde, na ausência da tia, dois “motos táxi” capturaram Djamila e a levaram à força. A menina desaparecida será encontrada mais tarde, nas margens de um riacho, esventrada e esvaziada, o interior do seu ventre fora roubado. Para a sua família Djamila foi manifestamente eliminada para serem apagadas as provas da sua violação.

A República Centro-Africana, um país mergulhado em conflitos internos há cerca de vinte anos, conta com dezenas de milhares de meninas e mulheres vítimas de violência sexual, crimes cometidos tanto pelos rebeldes e inúmeras milícias, bem como pelas forças de segurança e os elementos do grupo privado russo Wagner. As vítimas são mulheres, adolescentes, pessoas idosas e até mesmo crianças de sete e oito anos. Com o aumento do poder das Forças Armadas Centro-Africanas (FACA) e seus reforços russos, a violência quintuplicou em menos de um ano.

Os dados são alarmantes. Em 2020 o Sistema de gestão da informação sobre a violência de género registou no país 9216 casos de violência assente no género, dos quais 24% (ou seja, 2281 casos) foram de violência sexual. Entre Junho 2020 e Maio 2021, um parceiro da UNFPA compilou 619 casos de violência contra mulheres. Em 2021, entre Janeiro e Julho, ocorreram mais de 5300 casos de violência registados na República Centro-Africana.

As mulheres e crianças centro-africanas continuam a pagar o preço do caos que se prolonga e agrava.

RCA Marie-Reine Hassen

Marie-Reine Hassen

Antiga embaixadora e Ministra dos Negócios Estrangeiros na República Centro-Africana

One Comment

  1. Ousmanoi

    Informer de tout vos activités

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