Amadora BD- Um Mundo aos “Quadrinhos”

Uma vez mais, a 29ª Edição do Festival Internacional da Amadora traz a Portugal o que melhor se faz em Banda Desenhada. Este ano, o Brasil é o país convidado, ocupando lugar de destaque nesta mostra e evidenciando a atualidade política e as questões sociais que se fazem sentir neste país lusófono.

No Fórum Luís de Camões está presente a exposição Era uma vez um País (mais ou menos) Maravilhoso, que conta com um coletivo de artistas brasileiros como  Marcelo D’Salete, Pedro  Kobiaco e André Diniz, que mostram ao mundo toda a beleza e disparidades de um país maravilhoso aos quadrinhos,na maior seriedade possível.  O premiado autor brasileiro Marcelo D’Salete estará no Amadora Bd, no próximo domingo onde apresentará o seu mais recente livro, Angola Djanga. Esta entrevista foi feita através de áudio ainda com o Atlântico pelo meio.

E-Global (EG) – Como foi evoluindo até chegar aqui? Era um sonho seu fazer Bd?     

Marcelo D’Salete (MDS) – Eu tenho uma relação antiga com o desenho e leio histórias aos quadrinhos desde os 5, 6, 7 anos, porque era aquilo com que tínhamos contacto na época, que era vendido em bancas, aqui na periferia de São Paulo. Por volta dos 17, 18 anos decidi que iria trabalhar também com isso. Comecei a trabalhar com ilustração e um pouco depois histórias aos quadrinhos em algumas revistas com outros autores. Foi um sonho antigo sim, mas ao mesmo tempo fui sempre trabalhando noutras áreas. Não é facil sobreviver apenas com histórias aos quadrinhos…

EG – Quando é que enviou pela primeira vez o seu trabalho para um editor?

MDS- Acho que os primeiros trabalhos que eu enviei foram para a revista quadreca, em São Paulo, em 2001-2002. As histórias foram publicadas e muito bem recebidas. Depois participei durante muito tempo com uma revista chamada fronte, um mix de vários autores, cada edição tinha um tema específico, um trabalho editorial muito interessante e experimental, que se prolongou durante 15 edições.

EG- Qual a principal fonte de inspiração para o seu trabalho?

MDS – No meu caso talvez venha muito a partir da música, do Rap, alguns sambas, de uma influência muito forte do hip hop da periferia de São Paulo e isso levou-me a conhecer autores também da área da literatura, do cinema e muitos cartoonistas negros. No rap, a questão racial e a descriminação social são muito evidentes e contundentes. Nas primeiras histórias aos quadrinhos que fiz, tentei trazer essa energia do universo do Rap brasileiro, de Bandas como Erizo, Racionaise outras mais recentes como Crioulo, James Panto, Rincon Sapiência. Nós temos a tradição, aqui no Brasil de um Rap muito politizado com uma crítica social importante.

EG – A partir de quando é que se dedica a full time como cartoonista?

MDS – Eu sou professor também e poucas vezes trabalhei apenas com quadrinhos e ilustração, só o fiz durante alguns períodos de tempo, há cerca de dez anos. É uma área de trabalho um pouco instável e nunca me consegui habituar a isso e ainda hoje trabalho nestas duas frentes; a banda desenhada e a sala de aula.

EG – Qual é o seu método de trabalho. Há aguma rotina no seu dia a dia?

MDS – Eu tento sempre ter uma rotina de produção diária de histórias aos quadrinhos, é algo um pouco tradicional. Começo por fazer um roteiro escrito, ao mesmo tempo que vou fazendo as pesquisas, tentando direcionar o foco do trabalho para utilizar na narrativa, na forma de ficção. A seguir passo para os esboços dessa história pensando nas personagens, nos objetos, nos cenários e, finalmente, começo a finalizar as páginas, digitalizando cada uma delas com textos, balões e outros detalhes através de programas como o photoshop e o in design já no formato final da edição.

EG . É importante estar a par da atualidade nesta profissão? Quanto tempo levou a projetar e a investigar para o ultimo volume, Angola Janga?

MDS – Nós sempre fazemos algo relacionado com o que está a acontecer. O último livro, Angola Janga, demorou 11 anos a ficar pronto, mas trata de resistência, da escravidão, o mesmo que outros livros como Encruzilhada e Noite- Luz que se referem a conflitos mais contemporâneos, Todas essas obras estão relacionadas com o momento que eu vivi quando as escrevi, o que eu sentia naquela altura e todas elas refletem o passado e o presente do Brasil.

EG – Quais são os seus maiores ídolos na banda desenhada e na literatura?

MDS – As minhas principais referências vêm da música, do cinema, da Literatura e dos quadrinhos. Na literatura gosto muito do Lidio MarcosLuís Fernando e aprecio muito autores como André Diniz, Marcello Quintanilha, José AguiarRafa Coutinho. Nós temos ótimas referências no Brasil em termos de banda desenhada. No cinema aprecio Michel Haneke, um pouco também das obras do spike Lee e Donald Glover da série Atlanta, entre muitos outros.

EG – Está esperançoso em relação ao futuro da Banda Desenhada?

MDS – Os quadrinhos têm um potencial enorme para se tornarem uma referência cada vez mais importante na nossa cultura atual, pois é um meio que conjuga texto e imagem, que pode ser um meio interessante para que tenhamos sentido crítico na leitura de imagens e para aprender a decifrá-las.  Nós precisamos de compreender as imagens para que não sejamos vítimas de manipulação e aí os livros de banda desenhada podem transmitir algo bastante educativo tanto para jovens como para adultos, no sentido de tentarmos desvendar melhor este mundo que temos hoje.

EG – Tem chegado cada vez mais livros de autores brasileiros de BD a Portugal, sente que é bem recebido pelos leitores de países Lusófonos?

MDS – Há diversos autores brasileiros que têm publicado histórias fora do Brasil, principalmente em Portugal e França e outros países europeus. Acho que isso mostra o interesse por esta profissão e a sua importância hoje em dia. Tive a oportunidade de ir duas vezes a Portugal e esta é a terceira vez que vou lá estar. Para mim são sempre experiências muito interessantes, poder falar com o público português sobre as minhas histórias.

EG – Há uma quebra acentuada na venda de livros entre o público jovem em Portugal. A Banda Desenhada pode ser uma alternativa a este desinteresse pela literatura em geral?

MDS – Hoje em dia há muitas alternativas dentro do entretenimento, a literatura está dentro de outro universo como o cinema, os jogos, mas oferece outra capacidade de concentração com uma outra relação com o tempo, que é importante para nós hoje em dia, No entanto, a literatura está a concorrer com produtos que são veiculados no digital, em smartphones e reparo por vezes que nós somos reféns de uma única forma de atenção a uma velocidade estonteante. Mas creio que isto é um fenómeno recente dos últimos 10, 15 anos, e já há pessoas que estão a sentir necessidade de  aprofundarem uma obra de uma forma um pouco mais singular, com maior disponibilidade.

EG – A temática do racismo é recorrente nesta obra e noutras obras suas como é o caso de Cumbe, sente que o racismo ainda é uma ferida aberta no mundo?

MDS – O racismo ainda é algo forte neste mundo global, é uma estratégia dentro do sistema capitalista deixar que alguns grupos fiquem alienados da esfera de poder, de representação e participação dentro da sociedade. E imagino que falar sobre isso, conhecer literatura que aborde o tema é necessário para suscitar este tipo de discussão e acredito. No Brasil, há uma rápida ascenção de grupos extremamente conservadores, extremamente sexistas, racistas e isso é muito perigoso. Por isso, é precisamos de criar estratégias contra estes discursos e isso só é possível atrvés do conhecimento. Infelizmente, no Brasil assistimos a esta escalada, à perda de direitos dos trabalhadores para os próximos anos, sabendo que os representantes que temos hoje no Brasil não estão a pensar em grande parte da população pobre do país.

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