Memorando secreto dos EUA prevê piratear telefones

Silicon Valley festejou no ano passado, quando a Casa Branca revelou que não iria forçar legislação que obrigaria os fabricantes de tecnologia a instalar “backdoors” no seu software – postos de escuta secretos onde os investigadores iriam “rasgar o véu de sigilo” sobre dados criptografados dos utilizadores, a partir de mensagens de texto em vídeo e conversações. Mas, enquanto as empresas pensavam que esta seria a palavra final, o governo já trabalhava num plano B.

Numa reunião secreta convocada pela Casa Branca por volta do Dia de Ação de Graças, os Serviços de Segurança Nacional ordenaram que as agências de todo o governo dos Estados Unidos encontrassem maneira de combater a encriptação de softwares de maneira a não comprometer os dados dos utilizadores desenvolvendo dispositivos mais seguros. Esta medida abrange empresas como a «Apple Inc.», uma das empresas mais valiosas da América.

A abordagem foi formalizada num Conselho de Segurança Nacional  (NSC) confidencial, que encarregou as agências governamentais de desenvolver soluções de criptografia, podendo estabelecer orçamentos adicionais e identificando leis que poderão ter que ser alteradas para combater aquilo a que o diretor do FBI chama de problema “escurecimento”: os investigadores começam a considerar-se incapazes de aceder ao conteúdo de dados encriptados armazenados em dispositivos móveis ou viajar através da Internet. Detalhes do memorando revelam que, em privado, o governo está a estreitar a sua relação com o Silicon Valley juntamente com sinais púbicos de aproximação.

O porta-voz do Concelho Nacional de Segurança, Mark Stroh, recusou comentar o memorando, no entanto divulgou uma declaração de um ex-oficial da administração Obama, “Não devemos, preventivamente, concluir que opções técnicas e políticas para lidar com este desafio, estão fora de alcance. Mesmo que criar mecanismos para acessar a informação encriptada dê origem a vulnerabilidades, existirão meios técnicos que poderão ser implementados para limitar tais riscos”.

O memorando foi aprovado pelos deputados do Comité do NSC, segundo fontes próximas do processo.

Entretanto, o FBI pediu ajuda à Apple para aceder aos dados do iPhone de Syed Rizwan Farook, o homem que juntamente com a mulher, Tashfeen Malik, levaram a cabo o ataque em San Bernardino, no estado norte-americano da Califórnia, em dezembro que matou 14 pessoas e feriu outras 22 .

O problema que o FBI enfrenta deve-se ao facto da possibilidade, no caso do iPhone, de o utilizador ligar a função “Apagar dados” (disponível nas definições), e o iPhone apaga-se ao fim de 10 tentativas incorretas de inserção do código de desbloqueio do ecrã fazendo desaparecer todos os dados guardados no aparelho. O FBI não consegue contornar este mecanismo, daí ter pedido ajuda à Apple. Nem os funcionários da empresa conseguem aceder ao conteúdo de um telemóvel depois disso, segundo a empresa.

O FBI não está a pedir que a Apple enfraqueça a criptografia – até porque, nesse caso, isso não é mais possível. Mas pede que a Apple enfraqueça as medidas de segurança que servem de apoio à criptografia. O FBI quer que a Apple retire o limite de tentativas de senha, de modo que os peritos possam tentar infinitas combinações até descobrir a senha correta. Atualmente, se o limite de erros for excedido, o iPhone apaga a chave de segurança.

A alternativa que o FBI propõe nos tribunais, embora seja útil para o caso de Syed Rizwan Farook, não vai resolver definitivamente o problema da criptografia, pois uma senha consideravelmente grande seria sempre um grande desafio para o FBI, independentemente de quantas tentativas se possa fazer.

O FBI tenta que o congresso norte-americano obrigue os fabricantes a criarem uma possibilidade de acesso exclusivo da polícia para que as informações possam ser acessadas e utilizadas em investigações, no entanto esta ferramenta pode acabar por ser utilizada por criminosos.

Apesar da ordem judicial, Tim Cook, CEO da Apple, não vai ceder sem dar luta e já garantiu que vai apresentar recurso em tribunal contra a ordem do FBI. “O Governo dos Estados Unidos exigiu que se dê um passo sem precedentes que atenta contra a segurança dos nossos clientes. Opomo-nos a esta ordem, cujas implicações vão para lá do caso legal com que [as autoridades norte-americanas] estão a lidar”, explicou através de comunicado.

 

A segurança nos equipamentos da gigante tecnológica foi melhorada após as primeiras revelações de Edward Snowden sobre os programas de vigilância secreta e ilegal implementados há vários anos pela Agência de Segurança Nacional (NSA) norte-americana.

 

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