América Latina

A Comunidade Portuguesa na Venezuela e a Venezuela para a Comunidade Portuguesa

A comunidade Portuguesa na Venezuela não é muito diferente de tantas outras comunidades portuguesas em tantos outros países, onde os portugueses têm destaque, pela sua presença em número, pela sua perfeita integração e pela sua capacidade de trabalho, frequentemente reconhecida e que contribui para o desenvolvimento dos países onde estão inseridos, principalmente pela via comercial.

A Comunidade Portuguesa na Venezuela será, portanto, apenas mais um bom exemplo de uma comunidade representativa (que integra a lista das maiores comunidades à semelhança do que acontece com outros países como França, Brasil ou África do Sul, entre outros), perfeitamente enraizada no modo de vida e no “criollismo”Venezuelano, bem tropicalizada e “venezuelanizada”, como se diz por cá e, como tantas outras, goza do apreço dos venezuelanos e do agradecimento do próprio Governo que, apesar de algumas ações negativas amplamente difundidas e discutidas nos últimos tempos, se tem mostrado agradecido e reconhecido pelo trabalho prestado no desenvolvimento do país.

No entanto e à semelhança de outras comunidades lusas, noutras latitudes, a Comunidade Portuguesa na Venezuela debate-se com problemas, não obstante a elevada capacidade de adaptação ou integração, e apesar da sua dimensão e representatividade, que afetam transversalmente todas as comunidades migrantes independentemente da origem.

De facto, a situação no país não é fácil, aliás é dramática, e sobre isso não vale a pena elaborar muito mais. Contudo, tal como em outros cenários, em outras circunstâncias e em outros países, é quando a situação aquece que vem à superfície a Portugalidade e o sentido de pertença.

Neste momento particularmente difícil a nossa Comunidade continua contudo e ainda assim a apostar numa estratégia de permanência no país porque, aceitem os que têm dúvidas, não fosse pelo que se está a passar agora, nenhum português abandonaria a Venezuela. Este é o momento em que se escuta a voz da Comunidade, seja aqui na Venezuela, como um grupo forte e coeso, seja em Portugal. São muitos os portugueses que estão a sair da Venezuela, muitos para Portugal; são muitos os portugueses que mandam as famílias para fora, e mantém-se o homem para tentar proteger o negócio criado com tanto esforço e dedicação; são muitos os que ficam e mandam os filhos para fora, maioritariamente para Estados Unidos e países da América Latina (essencialmente por questões de língua, mas não apenas); mas são muitos os que ficam, não obstante as imensas dificuldades e as incertezas do amanhã.

É preciso desconstruir a ideia de que os portugueses na Venezuela são um alvo privilegiado do Governo. No contexto atual, existe um problema de escassez no país e de hiperinflação; se considerarmos que os portugueses, tradicionalmente, ocupam as áreas do comércio e da distribuição alimentar, é normal pensar que, neste contexto, as medidas populistas do Governo atinjam diretamente estes empresários e os comerciantes.

O problema decorre do facto do Estado querer ter controlo do abastecimento de comida e dos preços, e a forma mais fácil, à boa maneira deste Regime, é ameaçar com expropriações promover acusações e especulações e punir estes empresários, que casualmente são portugueses. Se considerarmos que provavelmente as 5 maiores redes de distribuição alimentar são detidas por portugueses e que todas as redes do Governo (antes privadas e expropriadas) acabam na falência, podemos entender a necessidade do Governo de querer controlar este setor.

Depois temos as mortes e os sequestros de comerciantes, as pilhagens dos vários comércios, pequenos mercados e padarias, restaurantes, etc. Mais uma vez isto não decorre da sua condição de português, mas do fato de normalmente serem considerados bem sucedidos nos negócios e portanto apetecíveis para a prática deste tipo de crimes. É preciso entender que os Venezuelanos são tipicamente dóceis e bem dispostos, mas existe efetivamente uma cultura de violência, que estava abafada pela qualidade de vida que se vivia no país até há 20 anos, ou mesmo até há 10 anos, já que com Chavez no poder, ainda se vivia bem na Venezuela. Daí os que referem hoje, a propósito da situação de que padecemos, que “éramos ricos e não sabíamos”.

Com a degradação das condições económicas, veio também um aumento da criminalidade e uma total quebra nos valores. E os portugueses, como os italianos, os espanhóis, ou mesmo os venezuelanos, passam a ser alvos dessa criminalidade, cada vez mais recorrente e cada vez mais violenta. Vive-se um problema de falta de segurança generalizada de tal forma que se perguntarmos a um português que saiu da Venezuela, ou mesmo a um Venezuelano que saiu do seu país, as razões para essa partida, a insegurança é frequentemente a causa apontada a par com a situação económica. Se hoje é difícil conhecer um venezuelano que não tenha um familiar ou amigo no estrangeiro, também é frequente que um venezuelano, nascido cá ou não, tenha um familiar ou amigo que tenha sido assaltado ou sequestrado.

A situação atual afeta os portugueses diretamente, mas que estes não são afetados em razão da nacionalidade. Pensar dessa forma seria pouco sério e redutor da realidade que se vive no país.

Mas estes problemas, juntamente com outros que afetam a Comunidade podem resolver-se através de concertação de esforços e dos Conselheiros da Comunidade que detém aqui um papel importantíssimo, ainda que a função não seja simples nem fácil.

A comunidade portuguesa na Venezuela está a atravessar um período conturbado, mas acredita-se que este seja um momento de mudança, uma oportunidade para que se conjuguem fatores que contribuam para reforçar a Identidade e a presença lusa.

A Venezuela fez muito pela Comunidade Portuguesa que prosperou, cabe à comunidade manter a esperança no seu acervo, nos seus valores, nas suas capacidades e fé inabalável de fazer algo pela Venezuela… outra vez.

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