Oitavo cardeal do Chile, Celestino Aós Braco

Oitavo cardeal do Chile diante do dilema do silêncio ou da denúncia

Laicos esperam do cardeal Celestino Aós Braco a valentia e a força necessárias para tirar a Igreja Católica do país da sua hora mais sombria 

Santiago – Aconteceu em setembro de 2019. No salão branco do Palácio Arquiepiscopal da Praça de Armas, o administrador apostólico Celestino Aós Braco presidiu a jornada de planificação pastoral de 2020. 

A audiência de 300 delegados de todo o Chile ouviu com atenção sobre o que faria neste ano uma instituição particularmente atingida por silêncios escandalosos da alta hierarquia, que se traduziram em sórdidos encobrimentos de abusos sexuais e pedofilia por parte de sacerdotes. 

“O calendário definitivo será discutido em privado pelos bispos”, informou o padre que dirigiu o protocolo da reunião, perante o qual Aós Braco se mostrosurpreendido e depois afirmou, palavras mais, palavras menos, “o que iremos fazer, há que fazê-lo com a participação de todos, não na cozinha. Os aplausos dos presentes não se fizeram esperar. 

A partir deste sábado, 28 de novembro, Dom Celestino será o oitavo cardeal na história da Igreja Católica chilena, desde que José Miguel Caro foi empossado cardeal a 18 de fevereiro de 1946. 

Mas quem é este cardeal, chamado a devolver a vida à outrora poderosa Igreja Católica chilena? Aós Braco nasceu a 06 de abril de 1945, na cidade espanhola de Navarra. É psicólogo, professor universitário, teólogo e filósofo. 

Os seus vínculos com o Chile remontam a 1983, quando foi designado para a cidade de Longaví, chegando a ser nomeado Administrador Apostólico de Santiago a 23 de março de 2019, após a renúncia do Cardeal Ricardo Ezzati. 

Não sabíamos em quem confiar 

Jaime Huerta é um laico comprometido, que se magoa com a instituição à qual dedicou os últimos 20 anos da sua vida. O secretário da pastoral norte da capital, Huerta, acredita que Aós é o “pastor propício” para enfrentar os tempos difíceis que a igreja atravessa. 

“A nossa era vista como uma instância classista, elitista. Mas nós somos os herdeiros do legado da Vicaría da Solidaridade, que foi fundamental na defesa dos Direitos Humanos durante a ditadura e no restabelecimento das liberdades democráticas”, disse Huerta, que defende que o novo cardeal deve promover o reconhecimento da verdade e o acompanhamento das comunidades prejudicadas pela ação de predadores disfarçados de sacerdotes. 

“Devemos abrir caminhos para o perdão, mas isso será impossível sem justiça. Fomos tão atingidos pelas revelações que não sabíamos distinguir entre vítimas, criminosos e cúmplices, não sabíamos em quem confiar. Quem brincava com o silêncio? Foi uma pergunta que me fiz algumas vezes ”comentou o laico. 

Deixa que os jovens venham até mim 

Ariel Rojas tem 25 anos e faz trabalho pastoral na paróquia Santa Maria da Esperança, na populosa comuna de Maipú, onde se encontra o templo nacional da Virgem de Carmen, padroeira do Chile. 

“Embora ainda não tenhamos enchido os templos, as pessoas querem participar, mas chama-me a atenção que, em todo esse tempo, Aós ainda não nos visitou. Há uma distância entre os paroquianos e a hierarquia”, assegura quem cita com propriedade para São Alberto Hurtado ou para a Madre Teresa de Calcutá. 

“Creio que o novo cardeal não pode ficar calado perante os abusos. Tem que denunciá-los, para então recuperar a confiança do povo.  Nós temos que sair e procurar os paroquianos: os novos e os antigos que conheceram a cara feia de Deus”, expressou Rojas, que lamenta as recentes queimadas de igrejas católicas. 

Este jovem laico não pode evitar comprometer-se, quando afirma que devem ser os primeiros a organizar as panelas comuns para atender à fome que existe nas comunidades ou responder ao apelo dos sem-abrigo. “A caridade é urgente. Temos que superar a Fé de Malls versus a igreja pobreacrescentou. 

Aós Braco encontra-se em Roma desde 10 de novembro, mantendo as medidas sanitárias e as do ritual que significam converter-se em cardeal. “A Igreja é o Corpo de Cristo e a Igreja, claro, tem momentos em diferentes lugares do mundo, que podem ser mais exigentes, mais complicados. Mas a Igreja está sempre com boa saúde porque a cabeça é Cristo, e a Igreja chilena é uma Igreja extremamente rica, que tem manifestado sua vitalidade não só em todo o processo que está a atravessar, mas especialmente agora, que o coronavírus nos privou de muitas coisas que poderiam ser acidentais ”, declarou recentemente o bispo. 

Agir com mão serena e firmeza, mas sem se calar diante do abuso dos predadores. Essa parece ser a primeira tarefa do novo cardeal Aós, tarefa pela qual Jaime Huerta e Ariel Rojas parecem estar prontos para suar a camisa no terrenomuito perto da dor e da angústia do povo. 

Fernando Peñalver 

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