Ecos do Líbano: Viajantes portugueses aventuram-se pelo Líbano – Segunda Parte

Baalbeck e a Cidade do Sol

‘Uma cidade nova por mês’ é o mote do Bruno e Daniela, que fazem das viagens as suas vidas a tempo inteiro. “O Líbano continua a ser (depois de mais de 55 países visitados) merecedor do nosso top de experiências e viagens preferidas de sempre. Um país com caráter. Se tivéssemos que escolher uma única experiência (embora seja um exercício difícil) Baalbeck leva a medalha.”

Baalbeck, cidade antiga e com incontornável carácter histórico, imortalizada pelas suas ruínas romanas, nomeadamente com a heliopolis, a cidade do sol que continua a atrair turistas e viajantes de todos os cantos do planeta. E Bruno e Daniela renderam-se aos seus encantos intemporais: “Possivelmente as ruínas romanas mais impressionantes de todo o mundo – uma autêntica viagem no tempo onde a escala das construções parece indicar que não seriam humanos a habitar estas passagens – mas talvez gigantes, ou quiçá deuses a desfrutar dos monumentos meticulosamente esculpidos como que por magia. Tudo é absurdamente massivo, detalhado, impressionante. Claro que um local que nos convence da existência de divindades romanas tem que ser especial, mas o Líbano é muito mais do que isso. Um país de contrastes, com a melhor gastronomia do mundo, e uma história fascinante. Não há como não gostar. Ficámos verdadeiramente rendidos.”

Palestina e um Museu Repleto de Memórias

Voltamos a Beirute, esta capital de mil e uma histórias, eternamente encalhada entre a reputação de lugar fustigado por episódios de violência devastadora e o título romântico da ‘Paris do Médio Oriente’, onde a Catarina e a Sónia passaram alguns dias, depois de cancelar de forma inesperada a sua viagem até à Síria. Apesar de não terem um roteiro planeado, ambas encararam este imprevisto como uma oportunidade para descobrir o Líbano e, mais especificamente, Beirute. Catarina refere as impressões gerais: “O Líbano, tal como grande parte dos países do Médio Oriente, é alvo daquilo que considero o desconhecimento ocidental que leva a preconceitos impostos, sobretudo pelos media. As ideias preconcebidas giram em torno dos perigos de cenários de guerra contantes, da forma de vida distinta,  como se não fosse civilizada, e muitas vezes da islamofobia propagandeada. Mas nas viagens o que me interessa sobretudo, são as culturas, a gastronomia, as pessoas, as paisagens, as religiões diferentes. Gosto de ir ver com os meus olhos, andar pelos meus pés, questionar e interagir com as pessoas dos sítios, sentir cheiros locais, experimentar outros paladares. Por isso, e pela curiosidade de entender um país com uma das mais complexas realidades sócio-políticas em vigor, o Líbano faz todo o sentido como destino.”

Beirute marcou bastante estas duas viajantes. “Há um esventrar visível de Beirute com prédios cheios de cicatrizes permanentes, e penso que até propositadas para não serem esquecidas, de uma guerra passada e sem fim com o vizinho Israel, pela imagem da Praça dos Mártires, que me transporta às lutas civis contemporâneas deste povo e ao seu desejo de progresso e igualdade. Está ainda visível nos vestígios da explosão do porto de Beirute que a desfigurou no seu coração, e deixou visível a fragilidade política e social do país.”

Fora dos roteiros habituais, e localizados na parte ocidental da cidade, encontramos os campos de refugiados de Sabra e Shatila, imortalizados na história da guerra civil pelo infame massacre perpetrado pelas falanges cristãs em 1982 como acto de vingança na sequência do assassinato do seu líder, o então recém-nomeado presidente Bachir Gemayel. Estimam-se mais de 3 mil Palestinianos chacinados no espaço de três dias. Mais de 40 anos após este episódio negro, ambos os campos continuam a ser habitados por refugiados, agora na sua maioria sírios, mas também palestinianos, nomeadamente na parte de Shatila. Catarina e Sónia, contra as recomendações habituais que os libaneses normalmente dão a turistas, decidiram aventurar-se para dentro dos campos, em busca dos seus habitantes, dos sobreviventes do massacre, das suas lembranças da Palestina.

“A nossa maior lição desta história contemporânea está no entender de como se vive exilado num campo de refugiados com mais de 70 anos, pessoas como tu e como eu, que vivem sem sequer serem cidadãos de qualquer lugar. Curiosamente não encontrei dentro deste gueto sentimentos de ódio ou de vingança.”, revela Catarina.

“Ao percorrer autonomamente os campos, conhecemos o Jihad, um dos habitantes de Sabra e Shatila, que questionou onde queríamos ir e porquê. Uma generosidade ímpar e gratidão sem fim da parte dele, por nos ajudar a percorrer aquelas ruas até encontrar o nosso destino, agradecendo o querer estar ali e entender o seu povo. E no destino, no Museu da Memória da Palestina em Shatila, um local desconhecido para muitos, inclusive os próprios palestinianos em Beirute.”

O Museu da Memória encontra-se escondido num beco e contém vários objectos trazidos pelos refugiados palestinianos que foram parar a Beirute depois das expulsões em massa durante a Nakba, em 1948. Catarina, comovida, narra a visita ao museu e o encontro com o Ali, o respectivo dono: “Encontrei no Ali que me recebeu no museu, e nos seus amigos que sempre ali viveram desde crianças e têm hoje mais de 70 anos, um orgulho imenso de um povo que quer preservar a memória.

Esta é acarinhada através de objetos (chaves de casa antigas, moedas, roupas, livros), tradições e sobretudo das incríveis histórias que partilharam comigo, acompanhadas de um chá e uns bolos deliciosos, como é da tradição árabe.

Tudo isto sempre envolto num profundo respeito e igualdade pela minha condição feminina, sem qualquer medo de um abraço genuíno na despedida, que entretanto se foi estendendo ao passar pelas ruelas, ao som da alegria das crianças e dos adultos que me convidaram para um jogo de matraquilhos e jubilaram comigo por cada golo que marcámos.
O Líbano será sempre uma memória boa e uma grande lição de vida para melhor compreender e aceitar o mundo.”

João Sousa

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