Entre Eu e Deus

A realizadora moçambicana, Yara Costa, trouxe ao cinema São Jorge no último domingo, o seu filme “Entre Eu e Deus”, englobado no festival doclisboa2018 com o intuito de fazer refletir. Segundo a autora, “se as pessoas saírem daquela sala com dúvidas e perguntas, o filme terá cumprido a sua missão.”

O e-Global encontrou Yara Costa numa sala ampla, rodeada de livros, na pacatez de um bairro tranquilo de Lisboa, pouco antes da hora de almoço. Numa conversa descontraída, Yara conta que se formou em jornalismo, no Brasil, na Universidade Federal do Fulminense, mas na Escola de Cinema. Começou por trabalhar na radio e logo a seguir na televisão como reporter. Apesar de gostar muito do que fazia, sentiu a frustração de ter de compilar histórias incríveis num minuto e meio.

Quando regressou a Moçambique entrou no mundo da sétima arte, primeiro como tradutora de um realizador senegalês, que na época estava a rodar um filme sobre as mulheres do mundo, depois como assistente de direção, “mergulhando definitivamente no documentário”. E eis que encontra uma forma diferente de contar histórias, com outro tempo. A partir daí estudou nos Estados Unidos e em Cuba, onde desenvolveu estudos nesta área, à qual se tem dedicado nos últimos dez anos. No entanto, a parte jornalística ajudou-a muito na construção da narrativa cinematográfica para saber como perguntar e o que perguntar. Mas, sem dúvida, dá muito mais prazer trabalhar as minhas próprias histórias do que estar inserida num meio noticioso, onde o formato é muito rígido.

O filme, Entre Eu e Deus apresenta a história de uma jovem estudante, Karen, que decide enveredar pela Sharia (lei islâmica) surpreendendo todos os que estão à sua volta. A película precede os ataques terroristas, que aconteceram em Mocímboa da Praia, no Norte de Moçambique, a 24 de Outubro de 2017. Era impossível não levar isso para o filme, o que acabou por acontecer já na fase de montagem. Para mim (os ataques) não foram uma surpresa total. O meu interesse pelo filme estava ligado a um ambiente que já se sentia. As pessoas é que não estavam a prestar atenção a uma realidade que já vinha acontecendo antes mesmo da Guerra colonial. Segundo a autora, esta situação intensificou-se ainda mais nos últimos anos, não só em Moçambique como por toda a costa oriental e Ocidental de África. O radicalismo religioso, que implica uma mudança de comportamentos está a acontecer com todas as religiões, não é um fenómeno isolado. As mulheres, sobretudo, mudaram a sua forma de vestir, de se comportarem, de Norte a Sul e na Ilha de Moçambique esse fenómeno tornou-se ainda mais forte.

A escolha da personagem feminina, que dá vida ao filme, deu-se por várias razões, em primeiro lugar porque Karen é uma jovem interessantíssima, recém licenciada, conhecedora do mundo e com caraterísticas inerentes a qualquer outro jovem de qualquer parte do mundo, há uma certa familiaridade com as tendência globais, depois porque na mulher o impacto é mais profundo, a maneira de vestir, de agir é totalmente diferente e isso provoca estranheza em toda a gente. Sofre na faculdade, entre os amigos, na família.

Neste contexto, a película tem a difícil tarefa de servir como veículo para desmistificar preconceitos, visto que levanta questões pertinentes, mostra que a radicalização religiosa é um factor muito complexo, que tem consequências. A questão passa por tentarmos entender o que é que isto é. Não são pessoas de fora que trazem isto, como se disse, é a vizinha, a amiga, o amigo.  A cineasta garantiu que ela mesma sentiu que aprendeu com o filme e se sentiu mais esclarecida. As questões religiosas são muito complexas e se queremos tomar uma atitude em relação a isso temos de tentar entender o que se passa. O que está a faltar ou não. As pessoas têm o direito de seguir o caminho que desejam. Contudo, ser muçulmano hoje em Moçambique, tem um preço.  Ser muculmano hoje no mundo, tem um preço. Eu vislumbro um lugar, um espaço um tempo em que qualquer pessoa possa seguir a religião que quer sem ser banida.

 

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