A guerra na Ucrânia abre uma janela de oportunidade para as relações da Turquia com o ocidente

As relações entre o Ocidente e a Turquia perderam força após o golpe de Estado fracassado em julho de 2016. A Turquia sentiu-se sozinha, as mensagens de apoio da Europa e dos EUA ao governo turco vieram com atraso e, posteriormente, foram críticos de Ancara após a declaração de estado de emergência na Turquia. Por outro lado, a Rússia esteve entre os países de primeira linha a apoiar o governo turco.

As relações com o Ocidente continuaram a deteriorar-se quando a Turquia decidiu realizar uma operação transfronteiriça na Síria para estabelecer uma zona segura no norte e impedir que fosse estabelecido um corredor, do Iraque ao Mediterrâneo, pelo PYD/YPG, ligado ao PKK. Os militares turcos realizaram as operações transfronteiriças e simultaneamente o PYD/YPG recebia apoio militar e financeiro do Ocidente. No entanto, foi Moscovo a deixar a Turquia entrar na Síria após a reunião em São Petersburgo entre Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdoğan, em agosto de 2016.

Os desdobramentos na esfera política alimentaram a percepção de que a Turquia estava a afastar-se do Ocidente enquanto se aproximava de Moscovo. A história tinha um ângulo diferente na perspectiva da Turquia: o Ocidente deixou o país sozinho na luta contra o terrorismo, enquanto a Rússia entendeu as preocupações de segurança da Turquia e as suas reacções internas e externas. Este paradoxo continuou a piorar à medida que a tensão no Mediterrâneo Oriental se deteriorou. Além disso, a aquisição do sistema de mísseis S-400 levou ao impasse nas relações EUA-Turquia. Tanto a UE como os EUA impuseram sanções a um membro da NATO. Isso era um sinal claro de que as relações caminhavam para uma crise. A eleição de Joe Biden como próximo presidente levou a um diálogo mais próximo entre os EUA e a Europa, o que reduziu ainda mais o espaço de manobra da Turquia.

O custo económico da pandemia, em 2021, aumentou o peso sobre Ancara. Portanto, não foi surpreendente que Ancara tenha decidido abrir um novo capítulo na sua política externa, procurando normalizar as suas relações com as monarquias do Golfo, Israel, Egito e Armênia. À medida que as eleições surgiam no horizonte, essa mudança visava diminuir os riscos ao nível regional, ao mesmo tempo que dava sinais a Bruxelas e Washington de que a Turquia estava pronta para diminuir a escalada. Até agora, a normalização das relações com os Emirados trouxe algumas vantagens económicas. No entanto, com os outros atores o processo parece estar mais moroso.

O fator Ucrânia

A guerra na Ucrânia alterou o equilíbrio do plano internacional, com a ofensiva russa a ser o tema principal nas capitais ocidentais. Ancara, de forma imediata, não hesitou em fechar o estreito para qualquer navio de guerra logo após o início do conflito. Este passo foi visto de forma positiva pelo Ocidente e interpretado como um sinal de que a convergência entre a Turquia e a Rússia tem os seus limites. O governo turco manteve abertos os canais de diálogo com Kiev e Moscovo, tendo se tornado assim um ator de destaque. Até mesmo o Secretário-Geral das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, visitou Ancara para se reunir com o presidente Erdoğan, antes da sua visita a Kiev e Moscovo. Também o chanceler alemão, Olaf Scholz, e o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, visitaram a Turquia para discutir a crise ucraniana.

A imagem da Turquia melhorou devido à estratégia equilibrada entre a Rússia e a Ucrânia. É evidente que a Turquia quer transformar essa vantagem em “alavancagem política”. À medida que as eleições presidenciais e parlamentares começam a surgir, a melhoria das relações bilaterais com o Ocidente servirá, certamente, aos interesses do governo tanto em termos económicos quanto políticos.

Dirigindo-se a diplomatas, o presidente Erdoğan afirmou: “Durante 70 anos, a Turquia mostrou solidariedade com a NATO e provou ser um parceiro indispensável. Além de alegações infundadas e discursos desconexos, a crise ucraniana mostrou mais uma vez a importância da NATO e da Turquia como membros da aliança. A adesão à UE continua a ser o objetivo estratégico da Turquia. As repercussões negativas da guerra, principalmente nas esferas de segurança e energia, revelaram mais uma vez a importância estratégica da Turquia para a UE. Espero que a União dê passos concretos e significativos nesse sentido, sem ceder à pressão da oposição viciosa de alguns Estados membros”.

Um destacado especialista em relações UE-Turquia, Nilgün Arısan Eralp, afirma que a guerra na Ucrânia levou a uma reaproximação entre a UE e a Turquia. No entanto, a sustentabilidade desse diálogo baseado em incentivos geopolíticos sem considerar valores morais permanece desconhecida. Nos EUA, a dinâmica é um pouco diferente. Priorizando as ameaças geopolíticas e satisfeita com o papel de Ancara no conflito, parece que a Casa Branca está pronta para apoiar a tentativa da Turquia de modernizar sua frota F16.

Ainda assim, o Ocidente parece manter-se na estratégia de “esperar para ver” antes de se envolver com Ancara a um nível diferente, sobretudo na véspera das próximas eleições.

Hasan Selim Özertem

Analista Político

hozertem@gmail.com

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