Entrevista a Olga Boyechko: “Nós temos de olhar para a Rússia como para a Alemanha Nazi nos anos 40”

Olga Boyechko, de 23 anos, é uma cidadã de origem ucraniana, que vive em Portugal há quase 19 anos. É estudante de Mestrado em Relações Internacionais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa. 

O e-Global conversou com Olga Boyechko para saber a sua visão acerca do conflito Rússia-Ucrânia-NATO. 

e-Global: Tem experiência pessoal da situação complicada da Ucrânia (há cerca de oito anos em conflito) ou ouve mais através dos seus pais, quando viviam lá? 

Olga Boyechko: Eu fui sempre visitando a Ucrânia, passava lá os verões. E no ano passado vivi em Kiev [capital do país] durante cinco meses, estive a estagiar. 

Então, do seu ponto de vista, como vê esta situação NATO-Ucrânia-Rússia? 

A guerra na Ucrânia já durava há oito anos, só que era naquela área de Donbass. Os territórios Donetsk e Lugansk. 

Isso foi por altura da Crimeia também (em 2014), correto? 

Exatamente. Foi logo após a Crimeia. A Ucrânia, nos últimos meses de 2013 e em 2014, teve uma revolução, que é a revolução “Maidan”. E conseguiu expulsar o governo totalmente pró-russo. O Presidente que tinha fugido da Ucrânia, Víktor Yanukóvytch, era muito amigo do Putin [Presidente da Rússia] e as pessoas fartaram-se, queriam que o seu país estivesse mais virado para a União Europeia, para a Europa. 

E o Yanukóvytch andava a prometer, até ao momento em que simplesmente desistiu dessa ideia, porque como ele era totalmente pró-russo, totalmente apoiado pelo Putin… Houve mesmo uma reunião entre os dois antes de a Ucrânia ter de assinar a associação com a União Europeia, e nessa reunião… pronto, não sabemos o que foi dito… mas de certeza que não foram coisas boas, para que ele não ter assinado a tal associação. E as pessoas revoltaram-se e deu origem à revolução “Maidan”. 

“(…) nunca na vida alguém pensaria que fosse possível a Rússia atacar a Ucrânia num momento mais vulnerável.” 

Essa revolução tirou a vida a mais de 100 pessoas e, num momento tão fraco, a Rússia, que foi sempre vista como o país vizinho que era nosso amigo, por causa da História em comum que tínhamos, a União Soviética… muitos ucranianos têm família na Rússia, muitos russos têm família na Ucrânia… e nunca na vida alguém pensaria que fosse possível a Rússia atacar a Ucrânia num momento mais vulnerável. 

Primeiro foi a Crimeia. Lá infelizmente houve mortes, mas não foi em massa, e pronto, a Crimeia foi ocupada. E então os russos pensaram fazer o mesmo nas zonas do leste da Ucrânia. O que não correu bem, porque começou a ver-se que se a Ucrânia não começar a defender-se, eles vão entrar por dentro mesmo. Foi basicamente o que aconteceu agora, há já uma semana. 

E como vê a NATO? O melhor para a Ucrânia seria continuar neutra, independente, ou ir para a NATO (e isso faria o Putin sentir-se ameaçado)? 

Em 2014, antes do Putin entrar pela Crimeia, eu via a Ucrânia como amiga tanto da União Europeia, como da Rússia. Porque dá para ter esse estatuto neutral, como diz. Mas, lá está… o Putin deu aquela facada por trás, quando o país estava mais vulnerável, quando as pessoas ainda estavam a chorar pelos mortos no centro de Kiev, causados pelo governo pró-russo. E ele faz isso? Tira a Crimeia, ataca os nossos territórios a leste? O que se pode esperar mais? 

“Há oito anos que fomos ameaçados pela Rússia de entrar ali adentro, quase todos os dias havia soldados ucranianos a morrer, civis também.” 

A única forma agora de manter a Ucrânia segura é mesmo a NATO. Ou é a NATO ou simplesmente uma revolução qualquer na Rússia, que mude ali drasticamente o Governo. Há oito anos que fomos ameaçados pela Rússia de entrar ali adentro, quase todos os dias havia soldados ucranianos a morrer, civis também. Tudo isto foi causado pelos eventos de 2014. Se o Putin não tivesse entrado na Crimeia e no leste da Ucrânia, se calhar a Ucrânia continuava assim, neutra. Ou a tentar para a União Europeia e simplesmente fazia um referendo e as pessoas depois decidiam o que queriam, se queriam a Europa, se queriam ser neutras, se queriam ser amigas da Rússia. 

“É impossível agora a Ucrânia estar neutra. Foi atacada e agora já não vai ser possível ser neutra.” 

Mas só o facto de ele não ter permitido que o povo ucraniano se reorganizasse depois de tais eventos traumáticos… isso não há maneira de desculpar. O povo ucraniano agora, as futuras gerações, já estão manchadas com o sangue por causa dos russos e não vão desculpá-los nunca, é impossível. É impossível agora a Ucrânia estar neutra. Foi atacada e agora já não vai ser possível ser neutra. 

E a Suécia e a Finlândia, que não fazem parte da NATO, ao verem estes acontecimentos, obviamente que também se sentem ameaçadas. Principalmente a Filândia, que há 80 anos sofreu uma guerra por parte da União Soviética. E eles só disseram que se calhar não era má ideia [aderirem à NATO] e o governo russo começa a ameaçá-los quase diretamente: “Se vocês entrarem na NATO, nem sabem o que vos acontece”. 

Sim, isso foi noticiado recentemente… 

Não dá. Todos os países vizinhos da Rússia não se sentem seguros. A Rússia sempre fez as suas guerrazinhas ali ao pé, que foram escondidas debaixo do tapete, seja a luta dos chechenos pela sua independência, a quantidade de pessoas que foi ali fuzilada… Agora eles mantêm aquilo controlado porque a Rússia dá dinheiro aos líderes e esse território é totalmente controlado pelos russos por causa do dinheiro. Mas é um território onde reina a repressão. 

Se alguém ali fala mal do Kadyrov [Presidente da Chechénia], que é basicamente um servo do Putin… mas o Putin dá-lhe todo o dinheiro que for preciso para mantê-lo calmo, a ele e à região. Mas a Chechénia queria ser livre. Não permitiram. Houve duas guerras avassaladoras lá. 

A corrupção é então a maneira de manter esse território sob controlo… 

Sim, sim. Totalmente. Se as pessoas acham que Portugal é um país corrupto, vocês não viram a Rússia. E, para além da Chechénia, os territórios que foram também anexados, que eram a Geórgia, a Ossétia, a Abecásia, que também agora são pseudo-repúblicas… lá está. É que em 2008 aconteceu a mesma coisa. Foi o território da Ossétia que foi anexado, foi da mesma forma. Eles simplesmente reconheceram a tal pseudo-independência dessa pseudo-república e anexaram. Mas ninguém quis saber. Teve a atenção do mundo durante algum tempo, mas como é um país pequenino, ainda está longe da Europa, não lhes afeta… 

A Crimeia não foi tão falada como a Ucrânia é atualmente. Porque pode vir a ser o gatilho para a Terceira Guerra Mundial… 

Não espero que seja para a Terceira Guerra Mundial, mas que seja o gatilho para as pessoas perceberem que o Putin é uma pessoa perigosa, a Rússia é um país perigoso. Tem de ser sancionado, isolado, custe o que custar. Quando eram territórios pequeninos ninguém dava conta, agora a Ucrânia… É vizinha da Polónia, país da União Europeia e da NATO. É vizinha da Hungria, Roménia… já é Europa. 

E quase todas as cidades ucranianas já foram bombardeadas, já foram alvos, incluindo cidades que fazem fronteira com a Polónia. Na Moldávia as pessoas ouvem os bombardeamentos que acontecem na Ucrânia. 

Já percebi, tendo entrevistado também outros cidadãos ucranianos, que a maioria tem a sua opinião. É contra Putin e os seus antepassados já sofreram com o Holodomor. Mas entendi também que há ucranianos, não sendo a maioria ao que parece, que são pró-Rússia, porque dizem que o governo atual é corrupto e que o Putin vai lá salvá-los. Confirma que é uma minoria? 

Sim, é minoria. Em 2014 realmente havia bastantes pessoas pró-russas. Mas elas viviam bem na Ucrânia. A Ucrânia é corrupta, mas a Rússia também é. E quando as pessoas têm a ideia de que “Ah, na Rússia vivia-se muito melhor”, é mentira. É a falsa propaganda russa. A máquina da propaganda russa é incrível. A quantidade de milhões que são gastos nessa propaganda… e há mais do que provas de que tudo o que eles lá dizem é fabricado. São as tais “fake news”. E quem acredita nisso é a população mais velha, que não tem acesso à Internet, ou são pessoas que simplesmente não querem saber o que se passa do outro lado. Elas vivem bem, é o que lhes basta, e como vivem os restantes já não lhes interessa. 

Portanto na Ucrânia, em 2014, havia sim pró-russos. A Ucrânia tem uma grande parte da população que é russófona, que fala russo. Mas lá está, eles nunca foram oprimidos. Eu tenho imensos amigos que falam russo, que são inclusive dessas zonas que estavam ocupadas, de Donetsk, falam russo, mas nunca se sentiram oprimidos. 

“Lá, se uma pessoa sai para uma manifestação, que é um direito democrático, que está na Constituição, é logo detida (…)” 

Eles nunca eram maltratados como o Putin dizia: “Ai, a população russófona na Ucrânia sofre imenso, porque a Ucrânia é governada por nazis que perseguem os russófonos”. Totalmente mentira. Os russófonos, aliás, são melhor tratados do que os próprios russos na Rússia. Lá, se uma pessoa sai para uma manifestação, que é um direito democrático, que está na Constituição, é logo detida e fica durante duas semanas detida nos centros. 

Como aconteceu com os russos que se têm manifestado a favor da Ucrânia… 

Exatamente. Os russófonos são tratados como cidadãos comuns. Mas na Rússia dizes algo contra o Putin, fazes algo contra o Putin, esquece… a tua vida poderá estar em risco, literalmente. 

Existe, atualmente, uma dupla narrativa sobre o que se está a passar. Enquanto na Rússia o Presidente Putin coloca a culpa no Ocidente sobre a guerra, nós vemos no Ocidente que focam muito a culpa no Putin. Mas não estará também o Ocidente a querer lavar um pouco as suas mãos, uma vez que os Estados Unidos da América, juntamente com a NATO, estavam a puxar a Ucrânia para a NATO, prometeram-lhe coisas, e, quando a situação ficou má com a invasão russa, deixaram a Ucrânia um pouco por sua conta no início? Como vê o sucedido? 

Sim, concordo com isso em relação ao que se passou agora. Em 2014 a Ucrânia estava a virar-se um pouco mais para a Europa, mas ainda não se falava assim da NATO. Essas questões começaram a surgir na cabeça dos ucranianos depois do ataque da Rússia. Mas sim, agora, principalmente nestes últimos meses em que estavam a prometer “Não faz mal, nós vamos ajudar com tudo, vamos apoiar, vamos aplicar sanções severas, muito duras”, a Rússia ataca e eles demoram, e demoram, para aplicar seja qualquer tipo de sanções. 

“(…) os Estados Unidos, devido aos seus interesses, também intrometeram-se e prometeram coisas que não deviam.” 

Durante o último mês tivemos o parceiro mais fiável da Ucrânia, que nem eram os Estados Unidos, era o Boris Johnson [primeiro-ministro do Reino Unido] e a Polónia. É que os Estados Unidos estavam a prometer, a prometer, mas depois “Ah, se calhar não era assim tão boa ideia”. Obviamente que a principal culpa está no Putin e na Rússia, mas claro que os Estados Unidos, devido aos seus interesses, também intrometeram-se e prometeram coisas que não deviam. 

Em relação ao Presidente ucraniano atual, Volodymyr Zelensky, entende-se o porquê de ter assinado os papéis para entrar na União Europeia (para obter ajuda do Ocidente). Mas, para quem está a ver de fora, não parece ser uma decisão que vai atiçar o Putin, com risco de o povo ucraniano sofrer mais? 

Eu acho que sim… 

Em vez de chegar a um acordo com o Putin, por exemplo? 

Eles estavam a tentar chegar a um acordo. Mas durante as horas em que estavam a negociar, em vez de os russos se acalmarem e, pelo menos durante esse tempo, adotarem o cessar-fogo, não… eles foram bombardeando, atacando durante todas as horas em que estavam a negociar. Mas sim, esse pedido de adesão à União Europeia… eu vejo isso como algo já desesperante, como um pedido de ajuda desesperado, do género “Nós já não temos nada a perder, o Putin já está a bombardear as nossas cidades, os nossos civis já estão a morrer”. E a Ucrânia sabe bem que com a Rússia é impossível chegar a um acordo. 

Nós tínhamos os acordos de Minsk, que foram constantemente violados. Havia organizações de monotorização que iam registando quem violava mais esse acordo. Obviamente que eram os russos e os seus lacaios separatistas pró-russos. A Ucrânia também tinha de se defender. E é impossível chegar a um acordo com o Putin. 

Ou seja, para os ucranianos a esperança está na NATO? Querem entrar o mais brevemente possível para que a NATO ajude? 

Agora, o que a Ucrânia quer mesmo é que a NATO ajude. Guarde, pelo menos, o céu ucraniano. Todos os bombardeamentos das cidades vêm exatamente do território bielorrusso e nós precisamos de ajuda. O exército ucraniano já está bem preparado. Felizmente recebemos imenso apoio, armamento, material que está a permitir defender-nos. Mas, quanto ao céu, nós não estamos a conseguir proteger o nosso céu. E por isso é que centenas de civis já morreram. 

“(…) o que a Ucrânia quer mesmo agora é que fechem o nosso céu, protejam o céu.” 

Portanto, o que a Ucrânia quer mesmo agora é que fechem o nosso céu, protejam o céu. E depois sim, a Ucrânia vai querer aderir à NATO. Já não confia e nunca mais vai confiar na Rússia, isto ficou manchado. Cada geração ucraniana, não houve uma só que não sofresse com os russos. Foi durante a União Soviética toda, antes da União Soviética foi o Império Russo durante séculos, em que a língua ucraniana era proibida, em que quem falasse ucraniano era perseguido, mandado para a prisão. Não houve uma só geração que não fosse marcada pela opressão russa. E agora pronto, pensávamos nós que até já estava tudo bem e lá está, eles atacam-nos. 

“É que não dá para perceber o que o Putin pretende.” 

E porquê? Para quê? É que não dá para perceber o que o Putin pretende. Ele pretende pôr lá um Presidente pró-russo? Os ucranianos conseguem pôr esse Presidente fora num instante, como aconteceu em 2014. Ele quer pôr um Presidente russo e manter ali o seu exército? Isso também é uma ideia pouco inteligente, porque os ucranianos agora estão angustiados e revoltados com os russos. Eles não vão tolerar uma presença russa no país. 

E mesmo para manter sobre controlo o maior país da Europa vai ser preciso todo o exército que a Rússia dispõe no território ucraniano. Será que isso vale a pena? Não sei. Se o plano dele era conquistar a Ucrânia e depois anexá-la à Rússia, essa ideia também não serve de nada porque a Ucrânia está revoltada, não quer ter nada com os russos. Nada. 

O atual Presidente ucraniano está a ser visto no Ocidente como um herói por continuar no país, mesmo os Estados Unidos tendo feito a oferta de tirá-lo de lá. Como o vê e, já agora, o que acha do currículo que ele tem? Sendo ator, humorista, contra Putin, que foi membro da KGB (principal organização de serviços secretos da União Soviética)? 

Nas eleições presidenciais eu não votei no Zelensky, por não ter experiência. Veio de uma área completamente diferente. Não o via como algo de mau, porque sempre acreditei nas melhores intenções dele e parece ser uma pessoa honestamente boa, que quer o melhor para o seu país, que ama o seu país. Mas tem pouca experiência, era isso que me revoltava. Porque é que se foi meter aí? 

Mas ele foi eleito e eu pensei “Ok, talvez ele traga caras novas para a política ucraniana”. Tal não aconteceu. Ele trouxe sim algumas caras novas, mas também trouxe caras que pertenceram ao governo pró-russo, o que revoltou imensa gente, do género “Prometes uma coisa, mas depois acabas por fazer outra”. Como acontece em todo o lado, muitas promessas e depois, no final de contas, quase nada se faz. 

Está a dizer-me que este atual governo é uma mistura dos dois lados? Ele tem no governo gente pró-Rússia, mas está a tentar aderir à NATO? 

Realmente é confuso. É que não dava para perceber se ele é pró-ucraniano, se quer chegar a um acordo com a Rússia… Antes de ser Presidente dizia que queria acabar com a guerra e quando os jornalistas lhe perguntavam como iria fazer isso, respondia “Ah, basta só assinar um cessar-fogo”. Pois… não aconteceu porque, lá está, é impossível negociar seja o que for com o Putin. 

“[sobre o atual Presidente ucraniano] Não houve reformas, nada que me permita dizer ‘Ah sim, o governo dele foi bom’.” 

Mas o governo dele, até à guerra, teve como principal característica o facto de ter ficado quase tudo igual. A corrupção permaneceu nos mesmos níveis, as reformas nas instituições jurídicas, nos tribunais, não aconteceram, apesar de terem sido prometidas… ficou assim um bocadinho no pára-arranca, avançámos um bocadinho, depois voltávamos. Não houve reformas, nada que me permita dizer “Ah sim, o governo dele foi bom”. 

“Esta guerra é um suicídio para o Putin.” 

Mas até antes da guerra, quando o mundo Ocidental, principalmente os Estados Unidos, começaram a dizer “Ai, a Rússia vai atacar. Será a 16 de fevereiro… não, afinal é 17, não afinal é 18…”. Foi desde outubro ou novembro que começaram a dizer “A Rússia está ali a pôr todas as suas forças militares na fronteira da Ucrânia. Algo vai acontecer, isto é perigoso”. Mas o Presidente Zelensky foi acalmando a população, do género “Não, está tudo bem”. Ele não permitiu que o pânico se instalasse logo, ninguém sabia o que iria acontecer. Porque o Putin já tinha feito isso no passado, meteu todas as suas tropas para a fronteira com a Ucrânia, mas depois retirou-as. Já tinha feito isso no passado, porque não faria isso agora? Esta guerra é um suicídio para o Putin. Eu quero acreditar que seja um suicídio para ele. 

E as sanções aplicadas pelo Ocidente? Não parecem prejudicar mais a Europa do que a Rússia? 

Não, agora já estão a prejudicar a Rússia, a população russa já está a sentir. Eu tenho amigos russos que têm família na Rússia e tenho uma vaga ideia do que se está a passar lá. 

“Nós temos de olhar agora para a Rússia como para a Alemanha Nazi nos anos 40.” 

E quanto ao povo ucraniano, mais de 100 mil ucranianos alistaram-se para o exército. A revolta deles é tão grande que estão prontos para proteger o seu território, a sua terra. Porque sabem que se a Rússia chegar até ali não vai ser uma vida como deve ser. Nós temos de olhar agora para a Rússia como para a Alemanha Nazi nos anos 40. É exatamente isso. Se nessa altura ninguém parasse Hitler, que mundo seria agora? 

É o tudo ou nada o que se está a passar neste momento na Ucrânia? 

Exatamente, é isso que o povo ucraniano está a sentir. Ou damos tudo ou nada. Eu já tenho vários amigos que viveram aqui em Portugal e que se alistaram. Um já está no exército. Outro deve ir para a semana. É tudo ou nada. Sinto-me orgulhosa por os meus compatriotas serem assim, estarem prontos para lutar pela sua terra, pela sua família e pela liberdade. Mas obviamente que também sinto pena, porque ninguém sabe como esta guerra vai acabar, se acabará. 

“Estive a última vez na Ucrânia em janeiro, durante alguns dias, e tinha recebido uma proposta de trabalho para ir trabalhar para Kiev. Era para estar ali este mês.” 

Eu agora sinto-me privilegiada por estar em Portugal. Estive a última vez na Ucrânia em janeiro, durante alguns dias, e tinha recebido uma proposta de trabalho para ir trabalhar para Kiev. Era para estar ali este mês. E eu sinto que, se já estivesse na Ucrânia e isto estivesse a acontecer, ia tentar arranjar forma de ajudar. Ir para aqueles cursos de primeiros socorros, para dar alguma assistência médica na frente. Ir para a frente duvido muito que me aceitassem porque não tenho nenhuma experiência militar. Ou então estaria com os civis, como muitos estão agora a fazer, a preparar os ‘cocktail molotov’ e atirar para os russos. 

“O mundo russo é um mundo de repressões, censura, tortura, onde até as crianças poderão ser presas.” 

Os ucranianos estão revoltados, eles não querem a Rússia. Eles querem expulsar até ao último soldado russo que esteja no nosso território. Ninguém chamou a Rússia, ninguém pediu a Rússia pra ali. O mundo russo é um mundo de repressões, censura, tortura, onde até as crianças poderão ser presas. Não sei se tem conhecimento ou não, mas acerca de um mês um rapaz de 16 anos foi condenado a cinco anos, se não me engano, por causa de um jogo, o ‘Minecraft’. No jogo, no mundo virtual, ele e os amigos dele explodiram uma coisa que disseram “Ah, isto aqui é o FSB”, que é tipo a CIA americana, mas russa. E as autoridades viram isto como “Ah, este aqui poderá ser terrorista, fez isto no jogo, mas quem sabe se não fará no mundo real?”.  

A quantidade de prisioneiros que são torturados. Foi neste ano ou no final do ano passado que foram publicadas centenas de vídeos com prisioneiros russos a serem torturados. Pessoas que foram presas, seja pelo que for. 

E na Ucrânia o estilo de vida que levavam era europeu? 

Exatamente. Nós eramos democráticos. A Ucrânia, de quase todos os países da ex-União Soviética, era aquela que se estava a pôr do lado mais democrático. Pronto, os países bálticos já estão integrados na NATO, na União Europeia. Mas o resto… A Bielorrússia é totalmente aliada da Rússia. E os restantes países, como Tajiquistão, Quirguistão, Turquemenistão, é a mesma coisa. Cazaquistão também. São países que não são democráticos. 

“Acho que a Rússia tem um complexo de inferioridade (…)” 

A Ucrânia, apesar de tudo, é democrática. Tem os seus problemas, tem problemas com a corrupção, com outras coisas, mas é um país democrático. As pessoas pode eleger o seu Presidente. Se se fartam de um conseguem eleger outro, não havia problema nisso. Ninguém falsificava as eleições, como acontece na Rússia e companhia. A Ucrânia estava a tentar e quer ser um país democrático. Acho que a Rússia tem um complexo de inferioridade, porque parece que não se sente poderosa o suficiente não tendo a Ucrânia ali ao lado. 

Cátia Tocha

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.




Artigos relacionados

Entrevista: "A pandemia já tinha gerado todo este processo inflacionista", diz a economista Sandra Ribeiro

Entrevista: "A pandemia já tinha gerado todo este processo inflacionista", diz a economista Sandra Ribeiro

A economia portuguesa já estava a atravessar um período delicado antes da pandemia da Covid-19. Quando esta surgiu em março…
“Avião de Gente Séria” retido na Guiné-Bissau há oito meses já pode sair do país

“Avião de Gente Séria” retido na Guiné-Bissau há oito meses já pode sair do país

O Airbus 340 que em Outubro de 2021 aterrou no país sob pretexto da construção de um hangar, segundo o…
Cabo Verde: Opiniões divergem sobre desenvolvimento da Praia

Cabo Verde: Opiniões divergem sobre desenvolvimento da Praia

Os partidos com assento na assembleia municipal da Praia mostraram-se em desacordo na sessão solene realizada para assinalar o Dia…
Moçambique: Nyusi diz que terrorismo não se deve a conflitos religiosos

Moçambique: Nyusi diz que terrorismo não se deve a conflitos religiosos

O chefe de Estado moçambicano, Filipe Nyusi, rejeita a possibilidade de o terrorismo existente nos distritos a norte da província…
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin