Retaliação do Irão contra Israel gera tensões sem precedentes no Médio Oriente

Na noite de sábado para domingo, o Irão efetuou o seu primeiro ataque militar direto contra o território israelita, numa operação sem precedentes e com potenciais consequências para o atual panorama geoestratégico no Médio Oriente e, em particular, a guerra em Gaza.

A ofensiva (intitulada ‘Promessa Verdadeira’), anunciada por Teerão na sequência do ataque de Israel à embaixada iraniana em Damasco, no início de abril, consistiu no lançamento de mais de 300 drones e mísseis em direção ao solo israelita. A maioria foi intercetada por Tel Aviv, mas também pelas forças militares dos Estados Unidos da América, Reino Unido e Jordânia (que, juntamente com o Líbano, fechou temporariamente o seu espaço aéreo como medida de segurança).

Apesar dos receios iniciais das dimensões do ataque e de uma possível escalada de violência regional, a operação da noite passada resumiu-se a um ajuste de contas simbólico por parte de Teerão (causando apenas 12 feridos) e a confirmação de que as forças iranianas estão preparadas para expandir o conflito, se for necessário.

Do ponto de vista estratégico, o Irão mostrou que, por um lado, Israel continua a necessitar do apoio no terreno por parte dos seus aliados para se defender e, por outro, não será capaz de retaliar isoladamente contra Teerão sem o envolvimento direto dos EUA. Através de um comunicado de Joe Biden, os norte-americanos recusaram a participação em qualquer ataque direto contra o Irão, colocando Benjamin Netanyahu numa posição cada vez mais complicada, numa guerra que se arrasta há mais de meio ano.

O ataque permitiu ainda ao Irão recolher informações sobre diversas bases anti-míssil e respetivas localizações no território israelita.

A ofensiva iraniana foi condenada por vários líderes internacionais, que acusaram publicamente o regime de Teerão de arriscar uma escalada desnecessária na guerra.

O executivo de Netanyahu, por sua vez, considerou a resposta defensiva israelita como um sucesso militar estrondoso e a operação ofensiva iraniana um fracasso rotundo. Contudo, o objetivo principal do Irão não foi causar danos catastróficos em solo israelita, mas, por um lado, mostrar a sua capacidade de retaliação, e por outro, pressionar os EUA para impor um cessar-fogo permanente entre Israel e o Hamas, iniciar um processo de paz na região, elaborando uma solução de dois estados em território Palestiniano, e a reconstruir de Gaza.

Entretanto, Netanyahu tem sido alvo de críticas crescentes por parte do eleitorado israelita. Milhares de manifestantes têm-se reunido nas ruas para exigir a sua demissão e apelar a eleições antecipadas. Netanyahu soma ainda críticas crescentes relativamente ao fracasso em derrotar o Hamas e resgatar os reféns israelitas retidos em Gaza, numa campanha militar que conta com mais de 30 mil civis mortos e escassez de soluções à vista.

Esperam-se várias reuniões de emergência no próximos dias, envolvendo o executivo de Biden, representantes de países aliados e Estados-membros da ONU para encontrar soluções práticas no sentido de evitar uma guerra total, especialmente se Israel decidir organizar uma retaliação unilateral contra o Irão.

João Sousa

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