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Mauritânia: As redes de droga e o poder de Ould Abdel Aziz

Correspondência recebida no jornal Alakhbar, em novembro de 2008 e dezembro de 2010, de um deputado francês, acusa o presidente mauritano, Mohamed Ould  Abdel Aziz, de alegadamente dar cobertura ao tráfico de droga e a redes de narcotraficantes a operarem entre a América, África e Europa. A correspondência refere ainda, de acordo com a edição nº 19 do semanário, encontros que levaram à libertação, por parte da Mauritânia, de prisioneiros acusados de tráfico de droga.

Reportando-se a novembro de 2008, quando o general Ould Abdel Aziz, que acabara de destituir o primeiro presidente democraticamente eleito na Mauritânia, teve um homem de negócios espanhol de origem sarauí, que na época era cônsul honorário espanhol na Guiné-Bissau. Hamadi Ould Bouchraia (Hamadi Busarai Emhamed nos documentos espanhóis), foi indicado na altura como uma «personalidade importante» apesar de ser pouco conhecido da imprensa e dos meios políticos mauritanos.

Mesmo assim, prometeu acionar as suas influências para melhorar a imagem do novo regime, aos olhos da comunidade internacional. Três dias mais tarde, Ould Bouchraia obtém em troca, o perdão e a libertação do seu sobrinho, detido por tráfico de droga na capital mauritana.

Face às polémicas, o consulado espanhol em Guiné-Bissau foi suspenso. Mas Ould Bouchraia é nomeado cônsul honorário da Mauritânia na Guiné-Bissau. Com 4% do capital da Sobama, a empresa que representa a Coca-Cola na Mauritânia e que controla a comercialização da água mineral «Assil», propriedade de Ould Abdel Aziz, Bouchraia conseguiu um contrato de 15 milhões de euros para uma empresa espanhola que representa, e são-lhe concedidos seis mil hectares na margem mauritana do rio Senegal, refere ainda o jornal Alakhbar.

Em 2009, o general Aziz decide tornar o seu poder legítimo através de eleições. Para tal Ould Bouchraia conseguiu convencer os mauritanos de origem sahariana a votar no general.

Em dezembro de 2010, chega mais correspondência ao Alakhbar descrevendo os detalhes de uma visita de dois dias à Mauritânia de António Indjai, então chefe do estado-maior de Guiné Bissau. De acordo com o documento, Indjai terá acordado com Aziz a libertação de 42 detidos na Mauritânia, devido a assuntos relacionados com narcotráfico. O encontro terá tido lugar a 15 de fevereiro de 2011. Os detidos terão sido amnistiados pelo presidente por ocasião das celebrações de Mouloud.

Ao que consta, para justificar a libertação dos referidos detidos a decisão coincidiu com a libertação de três ativistas anti-escravatura, entre os quais o presidente da OIRA-Mauritânia, Biram Ould Dah Ould Abdeid. Outros membros da rede foram absolvidos pela justiça e outros ainda beneficiaram de uma redução de pena, tal como o francês Eric Walter Amigan que viu a sua pena reduzida de 15 para 10 anos e extradição para a França. Seydou, o último da rede, foi libertado passados alguns meses.

Por outro lado, Nouakchott libertou em setembro de 2010, os narcotraficantes detidos pela forças armadas malianas no norte do Mali. A 26 de fevereiro, o exercito mauritano penetrara no território maliano e deteve cerca de 20 presumíveis terroristas. Apesar das inúmeras acusações contra os detidos não impediu que fossem libertados em setembro de 2010, depois de se ter sido confirmado que não eram terroristas, mas sim «narcotraficantes vítimas de ajuste de contas de uma rede rival que conseguiu que as autoridades acreditassem que eram elementos da Al-Qaeda do Magrebe Islâmico».

Resumindo, mais de sessenta pessoas, detidas ou extraditadas para a Mauritânia nos últimos anos depois da apreensão de grandes quantidades de droga, foram, curiosamente, libertados, refere o jornal Alakhbar.

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