Fundação AIS lança desafio aos portugueses para ajudarem a “curar as feridas da guerra” na Ucrânia

Milhares de portugueses têm vindo a receber, por estes dias, um Boletim da Fundação AIS com um desafio. É preciso ir em socorro dos ucranianos que sofrem os horrores da guerra, é preciso apoiar a Igreja que, neste país em pleno coração da Europa, procura estar ao lado dos que choram, dos que sofrem, dos que estão desesperados. Ajudar a “curar as feridas da guerra” na Ucrânia é o desafio da Fundação AIS para os portugueses nesta Quaresma.

São rostos de pessoas comuns mas que, no contexto da guerra, da violência extrema em que se encontra a Ucrânia, se transformaram em autênticos heróis. A Igreja tem sido, desde o primeiro dia da invasão pelas tropas russas, em 24 de Fevereiro de 2022, talvez o principal suporte do exausto povo ucraniano.

Padres, irmãs, religiosos, seminaristas, todos se viram confrontados, de um dia para o outro, com milhões de pessoas em emergência, aflitas, que precisavam de ajuda por vezes para as situações mais duras e difíceis. Pessoas que perderam as casas onde viviam, destruídas pelos bombardeamentos, pessoas forçadas a fugir das tropas russas que invadiram vastas regiões do território num curto espaço de tempo, pessoas que ficaram feridas, que perderam familiares e amigos, que perderam tudo o que tinham.  Desde que começou a guerra, a Fundação AIS avançou logo com inúmeros projetos de assistência, procurando suprir necessidades mais urgentes. Ao todo, foram lançados mais de 600 projetos num valor global que ultrapassa os 15 milhões de euros. Isto só foi possível graças à generosidade dos benfeitores da AIS em todo o mundo. Mas a guerra continua e as necessidades permanecem. Por isso, é necessário continuar a dar também um grande impulso a esta ajuda para a Igreja da Ucrânia. É isso que a Fundação AIS está a fazer nesta Quaresma aqui em Portugal.

TERROR NO ORFANATO

Quando se escutaram as primeiras explosões, sinal de que as tropas russas estavam já nas imediações de Kiev, logo no início da invasão, as crianças do orfanato de Vorzel, uma cidade a cerca de 30 quilómetros da capital ucraniana, estavam apavoradas. Toda a gente estava apavorada. As irmãs pegaram nas crianças – o orfanato é um equipamento da responsabilidade da Igreja – e levaram-nas para a cave. Era o melhor que podiam fazer para as abrigar. Era o único sítio onde podiam esconder-se das bombas. Nesse momento, a sensação de impotência deve ter sido enorme.

A Irmã Karmela recordou à Fundação AIS como tudo aconteceu. “Foram momentos aterradores. Fomos para a cave, mas não sabíamos mesmo o que fazer, por isso, sentámo-nos lá com as crianças e rezámos.” Mas não podiam ficar ali por muito mais tempo. Era preciso mesmo deixar a casa e partir. Os bombardeamentos estavam a intensificar-se e ninguém conseguia estar seguro em lugar algum. Depois dos bombardeamentos chegaram os soldados. A região foi ocupada. A irmã e os seus rapazes e raparigas fugiram. Felizmente, a ocupação foi curta, durou poucas semanas. Saíram os soldados, regressaram as pessoas. A Irmã Karmela e os seus rapazes e raparigas puderam voltar também a casa. Que também tinha sido assaltada. Desde então, muita coisa mudou em Vorzel, no lar que as irmãs abriram para acolher crianças em necessidade. O orfanato de Vorzel, das Irmãzinhas do Imaculado Coração de Maria, é apoiado pela Fundação AIS. Uma ajuda que a Irmã Karmela não se cansa de agradecer. Até porque a casa foi assaltada durante os tempos de ocupação das tropas russas e foi preciso voltar a torná-la habitável. “Quero agradecer-vos por nos terem ajudado a comprar os bens mais essenciais para a nossa casa. Tivemos de pedir a vossa ajuda, principalmente depois de termos regressado, porque a casa foi assaltada…. Pedimos e, com gratidão, recebemos a vossa ajuda. De coração sincero, muito obrigada!”

MEDO DURANTE A MISSA

Também a Irmã Aneta tem histórias para contar desde que a guerra começou. A missa tinha começado quando se escutaram as sirenes de ataque aéreo. Às vezes, é apenas falso alarme. Mas, outras vezes, os céus transformam-se em palcos de batalha com mísseis que procuram abater outros carregados de explosivos e que trazem um alvo pré-definido. Um alvo que pode ser a nossa casa, a nossa escola, o nosso hospital… É sempre assustador.

As sirenes começaram a tocar e uma rapariga ficou em pânico. A Irmã Aneta Tobiaz estava lá e recorda-se bem do olhar assustado da jovem. “As crianças vivem com medo. Às vezes conseguem descrevê-lo, outras não. Quando soaram as sirenes do ataque aéreo, a rapariga virou-se para mim, horrorizada, e perguntou-me o que fazer… Temos de lidar com a situação de alguma forma…” Mas não é fácil. A guerra está presente em todo o lado. Muitas famílias carregam a angústia de saberem que os seus maridos, os seus pais, irmãos, filhos, estão na linha da frente com uma arma nas mãos a defender o país. O número de mortos e feridos, o número de mutilados desta guerra é já astronómico. E os jovens são forçados a lidar com isso todos os dias.

A Igreja procura dar respostas, procura ser um ombro amigo, procura estar ao lado destes jovens revoltados e assustados. Essa é uma das missões da Pastoral Juvenil na Diocese de Kiev-Zhytomyr. É aí que trabalha a irmã Aneta Tobiaz. Ajudar esta religiosa, a ajudar estes jovens é também uma das missões da Fundação AIS através do apoio que é dado directamente a todos os sacerdotes e religiosas que todos os dias amparam e protegem os rapazes e raparigas da Ucrânia. Muitos destes jovens estão já de luto. Perderam pais, tios, irmãos, amigos. A Ucrânia é um país em guerra em pleno coração da Europa. É bom não esquecer isso…

UM SEMINARISTA EM VORZEL

Por muitos anos que viva, o seminarista Jaroslav  Chmarski irá recorder os dias de medo e angústia que se viveram à chegada das tropas russas poucos dias depois de a invasão ter começado. Ele estava em Vorzel, no seminário que foi atacado e ocupado pelas tropas russas em Março de 2022. Durante cerca de vinte dias, o edifício foi transformado numa espécie de quartel. Os soldados enviados por Moscovo destruíram, vandalizaram e roubaram o que puderam. Nem uma imagem de Nossa Senhora de Fátima escapou. Até os ténis do reitor foram roubados. Foram vinte dias de ocupação que pareceram uma eternidade. Quando deixaram o local, os seminaristas regressaram. Havia muito a fazer. Era preciso limpar, consertar, recuperar tudo o que havia sido destruído. Mal se soube de toda a vandalização que o seminário sofreu, a Fundação AIS decidiu que iria assumir a cobertura dos custos não só para a reabilitação do edifício como também para a compra de móveis e de equipamentos que foram roubados. Jaroslav Chmarski recorda-se bem desses dias. “Esse Inverno foi muito duro”, diz. E não se refere apenas ao estado do tempo em si, ao frio intenso, mas também à violência da guerra. Mesmo depois de os soldados russos terem saído, os bombardeamentos continuaram assustadores. Quase todos os dias, havia alarmes a tocar… “As sirenes soavam frequentemente quando bombardeavam a central eléctrica. Não havia gás nem electricidade. Ficávamos às escuras muitas vezes e rezávamos, como os primeiros Cristãos, à luz das velas…”

UM DESAFIO PARA A QUARESMA

A Irmã Karmela e a Irmã Aneta Tobiaz, assim como o jovem seminarista Jaroslav Chmarsk são apenas alguns dos inúmeros rostos da Igreja ucraniana que está na linha da frente ao lado dos que mais sofrem, dos que mais precisam de ajuda, dos que estão em maior necessidade. É para eles que a Fundação AIS lançou a Campanha da Quaresma. Para ajudar a “curar as feridas da guerra”, como sintetiza Catarina Bettencourt, a diretora do secretariado português da fundação pontifícia.

É uma Campanha que depende de si para chegar ainda a mais sacerdotes e irmãs, a mais seminaristas e religiosos, a mais pessoas que precisam do carinho da Igreja, que precisam de ajuda nestes tempos de enorme angústia. “A Igreja permanece incansável junto do seu povo, socorrendo milhares de pessoas e oferecendo apoio psico-social a doentes, feridos, e familiares de falecidos, partilhando com eles o trauma do horror da guerra. Mas este trabalho não será possível sem a ajuda de cada um de nós. Não os podemos abandonar.”

Paulo Aido – Fundação AIS

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