“Trazemos os cidadãos ucranianos através de aviões”, diz fundador da Associação Ukrainian Refugees

A Associação Ukrainian Refugees UAPT (www.helpua.pt) é uma organização sem fins lucrativos, sediada em Lisboa. Foi fundada a 28 de fevereiro deste ano, quatro dias depois da invasão russa à Ucrânia, com o objetivo de prestar apoio aos refugiados dessa guerra. 

O e-Global conversou com um dos fundadores, Mykhaylo Shemliy, de origem ucraniana, para saber mais detalhes acerca do trabalho desenvolvido pela organização. 

e-Global: Como começou esta associação? Quem teve a ideia? 

Mykhaylo Shemliy: Depois da invasão à Ucrânia ter começado [a 24 de fevereiro], nós reunimo-nos no primeiro sábado dessa semana. A reunião inicial fui eu que organizei. O objetivo era fazer um conglomerado de associações ucranianas para trabalharmos com um único objetivo, o de ajudar humanitariamente os refugiados. 

Depois dessa reunião uns ficaram connosco e outros não. Com as pessoas que ficaram decidimos criar uma associação e na segunda-feira seguinte [28 de fevereiro] registámos tudo nas instituições legais adequadas a isso. A partir dessa altura tornou-se oficial, sem fins lucrativos, com a finalidade de trazer famílias ucranianas da Polónia até Portugal, tratar dessa parte logística, do alojamento. Numa segunda fase foi ajudar a integração das famílias, na educação, em centros de saúde, psicólogos… toda essa ramificação das necessidades das famílias ucranianas. Tratamos desses assuntos todos. 

Paralelamente, mandamos ajuda humanitária para a Ucrânia. 

E como é que a organização consegue obter dinheiro para ajudá-los? 

As ajudas partem através de donativos. Temos a nossa conta bancária e donativos abertos no site para as pessoas que queiram fazê-lo. São os próprios particulares, portugueses simples ou de qualquer outra nacionalidade, que vêm ajudar-nos com bens. Temos vários armazéns, eles ligam-nos, perguntam quais são as necessidades maiores. Outros não ligam, vêm e deixam aqui os bens. Os particulares ajudam-nos mais com a parte dos bens. 

“(…) os nossos principais patrocinadores, que colaboram connosco, já sabem que o dinheiro que vem da parte deles é utilizado em prol da comunidade ucraniana.” 

Já a parte dos donativos nós vamos pedindo, fazendo os requisitos às empresas e vamos falando com elas, explicamos o que fazemos. Inicialmente é óbvio que foi muito complicado, colocam em questão uma associação que tem poucos dias de existência. Mas com o nosso trabalho conseguimos provar que estamos a trabalhar bem, e os nossos principais patrocinadores, que colaboram connosco, já sabem que o dinheiro que vem da parte deles é utilizado em prol da comunidade ucraniana. Nós justificamos isso tudo. 

Essas entidades envolvem, por exemplo, instituições de saúde, hospitais, para darem consultas aos refugiados? 

Claro. Toda essa ramificação, como centros de saúde, hospitais, escolas para as crianças… tratamos disto tudo. Óbvio que inicialmente, como não temos uma equipa especializada, digamos assim, nós juntamo-nos… Eu, por exemplo, sou gestor de empresas, também sou diplomata. Temos colegas que são construtores civis. Ou seja, não temos pessoas propriamente especializadas para estarem numa associação. Mas conseguimos adaptar-nos em poucos dias e o processo ficou mais fácil quando a malta já integrou esse ritmo. 

“(…) à medida que estão cá, já conseguimos ter protocolos com hospitais, centros de saúde…” 

Mas, inicialmente, não conseguimos tratar de tudo ao mesmo tempo. E o objetivo inicial era mesmo trazer a malta para cá e, à medida que estão cá, já conseguimos ter protocolos com hospitais, centros de saúde… Ontem, por exemplo, estive em Mafra, onde temos o nosso centro de acolhimento. Estão lá 30 pessoas, numa pousada privada, que nos cederam, para fazer de centro de acolhimento. E estivemos a falar no Centro de Saúde de Mafra para que, por exemplo, hoje de manhã [24 de março] fossem lá [à pousada] dois médicos e uma enfermeira ver as 30 pessoas. 

Tratamos disso tudo, porque as pessoas também sofrem com o clima, é totalmente diferente entre os países. E vão surgindo problemas de saúde, como alergias. A saúde garantimos totalmente, tudo o que os nossos refugiados… eu não gosto da palavra “refugiados”… damos às famílias ucranianas aquilo que precisam. 

Consegue estimar, aproximadamente, o número de voluntários da Associação Ukrainian Refugees? 

O número é muito volátil, na verdade. Há dias em que não temos tanto trabalho. Na parte dos armazéns é onde temos, se calhar, mais voluntários a ajudar. Na parte da triagem, do material, da embalagem e depois da carga para os camiões ou para as carrinhas. Ali precisamos de mais gente porque é um trabalho difícil e é muito material. 

Em média temos, se calhar, 60 pessoas, em dias mais difíceis. 

Espalhadas pelo país? 

Estou só a falar da sede nas Olaias, em Lisboa. Mas sim, depois temos voluntários em outros locais. Em Mafra, por exemplo, temos uma ou duas pessoas que estão sempre lá com as famílias. Na Azambuja temos outro centro de acolhimento e voluntários quando as famílias estão lá. Agora não estão, mas quando forem para lá vamos ter voluntários. Em Leiria a mesma coisa. No Fundão temos outro centro de acolhimento. Sim, portanto estão espalhados pelo país. 

Quantos cidadãos ucranianos já conseguiram ajudar? 

Oficialmente, ajudámos 510 ucranianos. Foi o número que nós trouxemos nas nossas missões aéreas. Trazemos os cidadãos ucranianos através de aviões, não resgatamos autocarros. 

É da vossa responsabilidade obter esses voos? 

Nós falámos com várias empresas e aquela que nos respondeu foi a EuroAtlantic Airways, à qual também agradecemos imenso. É um dos nossos companheiros, disponibilizou-nos alguns aviões. Já está marcado o terceiro voo. Já fizemos dois e participei na equipa de resgate no segundo voo. 

O voo sai de Lisboa e vai para Lublin, que é uma cidade polaca mais ou menos perto da fronteira ucraniana. E depois temos as listas prévias, as pessoas ligam para os nossos call centers, inscrevem-se ou os familiares que estão aqui inscrevem-nos, dizem que é para ir buscá-los. E eles estão lá à nossa espera. 

“(…) os nossos procedimentos são todos incorporados na legislação portuguesa e ucraniana.” 

Temos as listas, sentamos as pessoas no avião, aterramos em Lisboa, onde são feitos os testes à Covid-19 logo na hora, quando eles saem do avião. Registamos logo as pessoas no SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras]. Ou seja, os nossos procedimentos são todos incorporados na legislação portuguesa e ucraniana. 

Disse-me há pouco que conseguiu pousadas que albergassem algumas famílias. Pergunto-lhe como será, a longo prazo, se a guerra demorar mais alguns meses? 

Se é uma pousada particular nós fazemos um protocolo, onde assinamos enquanto associação que tem as suas responsabilidades lá. E o dono assina que nos cede durante um certo período de tempo. Por exemplo, a de Mafra, que estávamos a falar, foi-nos cedida por três meses, com possibilidade de mais três meses, se for necessário. 

E nesse caso, por exemplo, é gratuito ou a associação têm de dar algum dinheiro? 

Nesse caso foi-nos cedido por completo. Mas nós responsabilizamos-mos pelos estragos, se houver. Responsabilizamos-mos pelas pessoas que lá estão. Imaginemos que o protocolo diz que o senhor X cede-nos, de boa vontade, o edifício, ou uma sede, ou uma pousada, o que for. E nós temos lá no protocolo as nossas responsabilidades, que temos de respeitar. 

A nível de voluntários, têm voluntários ucranianos? Porque temos ucranianos a viver em Portugal há algum tempo. 

Somos, maioritariamente, voluntários ucranianos. 

O senhor é de origem ucraniana? 

Sim. 

Pode contar-me um pouco a sua história? Veio com que idade para Portugal? Para ter noção de como vê esta situação entre a Ucrânia e a Rússia. 

Eu vim com oito anos para Portugal. Já estou cá há 15 anos. Vim porque os meus pais vieram naquela onda de emigração em 2000, 2001. E depois foram buscar-me após uns anos, porque já se tinham instalado cá e não iam voltar. 

Eles atravessaram então a fase complicada da dissolução da União Soviética e a crise económica? 

Na altura era difícil a situação, tanto na Ucrânia como nos outros países pós-soviéticos. Portanto, em busca de trabalho, o meu pai veio primeiro, depois a minha mãe. E passados uns anos vim eu. Sim, era a crise na altura, e as pessoas para sobreviverem tinham que arranjar soluções. 

Por isso também decidiu ser um dos criadores desta associação? Porque eles são os vossos compatriotas. 

Claro. Em casa falo sempre ucraniano, não houve um dia que falássemos português em casa. E eu já estou cá há 15 anos. Portugal também para mim já é um país meu, já tenho nacionalidade portuguesa. Mas a Ucrânia é igual. Ambos são países importantes para mim. 

E, quando isto tudo aconteceu, no primeiro dia fiz as malas para ir à Ucrânia. Não fui, mas tive essa decisão emocional. Depois a minha mãe disse que eu podia fazer mais cá do que lá, se calhar, e até teve razão. 

Só uma pequena dúvida. Há o risco, entre aspas, por ser cidadão de origem ucraniana, de ter de ir para a guerra? Por causa da questão da Lei Marcial… 

Não sou obrigado porque não tenho experiência militar. E como já tenho nacionalidade portuguesa a situação é um bocado diferente. Mas também estou inserido na base de dados da Ucrânia. Efetivamente, poderiam chamar-me se fosse necessário. Mas mesmo na seleção dos voluntários portugueses que querem ir para a guerra, nem todos os que querem vão, mesmo militares. Têm que ter experiência. 

Essa seleção faz-se na nossa Embaixada, os voluntários que querem ir. Alguns já ligaram para a nossa associação com essa dúvida. Eu estive a direcioná-los para a Embaixada ou falei diretamente com a Embaixada, e eles fazem a seleção do pessoal que tem mais experiência. E só esses é que vão.

Cátia Tocha

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