Opinião | Rodrigo Nunes

As Makas de Braima Camará no MADEM-G15

Por via indirecta Braima Camará acusou Angola de ingerência na Guiné-Bissau. Indirectamente também, Braima Camará abdicou em insistir ser o segundo vice-presidente da Mesa da Assembleia Nacional Popular e foi forçado a passar a missão para alguém realmente capacitado. Indirectamente Braima Camará liderou um grupo do PAIGC que foi derrotado no Congresso do Cachéu. Indirectamente Braima Camará assumiu a liderança do dito Grupo dos 15 (G15) e não menos indirectamente contribuiu na criação do MADEM-G15.

O obstinado protagonismo indirecto de Braima Camará deve-se à ambição desmesurada do Coordenador do MADEM-G15, cuja suposta carreira política tornou-se no porto de abrigo que o deveria proteger das tempestades da sua vida passada, decorada de prestigio, makas, traições e atribulações.

Braima Camará quer ser “omi garandi” e queria ser primeiro-ministro, mas, apesar de ser um empresário de sucesso, não teve capacidade de aceder a esse cargo. Foi ultrapassado por outro que prometeu pôr em cima da mesa “mundos e fundos”, acabando mais nos “fundos” que nos “mundos”. Mesmo assim, e com a ingenuidade que o caracteriza, aliou-se a quem o pisou.

Braima Camará acredita que é o líder do MADEM-G15. Mas apenas Braima Camará acredita. O sucesso do MADEM-G15 deve-se à enorme experiência política da maioria dos seus membros, cuja escola foi o PAIGC. Esta elite do PAIGC no MADEM-G15, em que muitos ainda mantêm ligações quotidianas com os líderes dos “Libertadores”, acredita no futuro do partido. Acredita que é verdadeiramente uma “Alternativa”. Mas não acredita em Braima Camará. Inexperiente em política, intempestivo e para quem a política é um negócio, num oceano de tantos outros negócios, mas também um precioso álibi.

Firme à herança do PAIGC, o MADEM-G15 mantém o nobre espírito de guerrilha. Avança, dispara e recua. Eficaz nas emboscadas, armadilhas, propaganda e instalação de minas psicológicas artesanais. Dotou-se de uma “milícia”, composta por jovens em busca de emoções fortes e alguns militares, que aguarda pelo grito de um paciente jugudé pousado, entre muitos, no telhado da baloba no topo da colina, cujo sinal será “A Culpa é dos Outros!”. Mas se a culpa é dos outros, não é uma culpa órfã, dado que o MADEM tem sido o pai e mãe do seu isolamento político, numa estratégia vesga de fragmentação da oposição, de redução de alianças e de difamação dos aliados, como Angola, que no passado suportou os vícios, os desejos e os negócios de muitos dos seus elementos, providenciando proteção e suporte, num contexto em que Luanda é ainda detentora de avultados créditos não ressarcidos.

Note-se ainda que Braima Camará permanece à “cabeça” do MADEM-G15, enquanto as verdadeiras cabeças pensantes do partido considerarem que ainda pode ser útil. Finda essa validade, o tapete será tirado, mas Braima Camará não cairá. Ficará suspenso às suas retóricas, saldos e dívidas. Talvez nessa ocasião Braima Camará regresse a Angola com a habitual palma da mão estendida, ou tente revitalizar ironicamente, uma vez mais, a Câmara do Comércio, Indústria e Agricultura da Guiné-Bissau, ou então opte por outras “funpiadas” iniciativas. Sem ter de recorrer a muita imaginação, poderá desenvolver um novo conceito de Mercosul com sede em Bubaque.

O regresso de Braima Camará a Angola não surpreenderá ninguém. Nem aos seus mais “fiéis”. Aliás, antes de avançar na aventura do Cachéu (2014), Braima Camará pedira a bênção a Angola, assim como pedira, indirectamente e em diversas ocasiões, quando a sua vida empresarial cacimbava. Quando os seus “amigos” no MADEM seguem numa fila presidencial para o beija-mão ao Senegal, Braima Camará sabe que Angola é a sua, garantida e eterna, tábua de salvação, esquecida agora em função das conveniências circunstanciais de mais um conturbado momento de luta pelo poder, onde se identificam já sérias fraturas no seio da colgação. Mantenhas!

 

Rodrigo Nunes (correspondente em Dakar-Senegal)

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