Carta de Havana: A transição para o capitalismo

O sistema cubano, apesar de continuar a querer identificar-se como comunista, está, gradualmente, mas de forma muito sofrida, a transformar-se num regime capitalista. Os sonhos estão a ficar muito pesados para serem aguentados com a barriga vazia.

Estou em Havana para fazer uma operação ao esqueleto. Apesar de estar a custar-me os olhos da cara, não estou minimamente arrependido. É uma experiência especial esta, de ver um povo a lutar entre a manutenção da dignidade e a penúria.

Ao lado de um serviço médico de alta qualidade, comparado a qualquer hospital do primeiro mundo, temos uma população que tem carência de tudo um pouco. Ontem não conseguimos comprar um iogurte para mim. E a enfermeira me dizia que já a alguns dias que está a procura de detergente para lavar sua roupa, e que não encontrava. Pequenas coisas vão faltando. Mas no essencial, este povo aguenta. Sofrido mas aguenta.

As pessoas que lidam connosco (estrangeiros) no seu dia-a-dia, sentem na pele a humilhação de não poderem ter aquilo que os outros apresentam: um telemóvel diferente, enquanto o deles já nem esta na moda; um sapato distinto; uma roupa de marca, enfim… Sinto que lhes dói na alma. Não se pode compreender que, por um lado venho cá buscar aquilo que não tenho; e do outro, eles tenham a capacidade de me oferecerem esse serviço mas, em contrapartida, não poderem ter as pequenas coisas que eu pude adquirir. Será que tudo isto faz sentido?

No sistema actual, um médico ganha cerca de 1.500 Pesos cubanos por mês. O equivalente a cerca de 60 Euros. E tem consciência de que, para viver razoavelmente, precisaria ganhar em Pesos Convertíveis (CUC), a nova moeda que circula paralelamente com a antiga. O que é mais ou menos equivalente a um CUC igual a um Euro. Mas ninguém é pago em CUC na administração publica. Só a economia privada funciona com o CUC.

Um chauffeur de táxi abriu-se comigo, informando que ganha, em lucros limpos, uma média de 50 Euros por dia. São carros como estes que vês na fotografia, conhecidos pelo nome de almondron. Foram construídos nos anos 45, 50 e 60 do século passado. Mas não encontras nenhum estragado, parado, abandonado. Dá muito lucro esse negócio do transporte de pessoas.

A carência de transporte é tanta, que inventaram o bicitaxi, com capacidade para dois lugares. Um lucro garantido de cerca de 20 Euros por dia. Um honorário muito superior à de um médico que só ganha cerca de 2 Euros por dia. Atenção: estamos a falar de Havana, a capital do país. No interior predominam os cotches: carros puxados a cavalo.

Mas ninguém olha com atenção para este sector privado florescente. Não estão organizados em associações, nem têm representantes nos órgãos políticos de base do partido comunista. Contudo, são legais. O mesmo tipo de negócios em relação ao aluguer de casas, que se cobra ao dia e não ao mês.

Cuba já se ressente da fuga de quadros para o estrangeiro. Já começa a escassear de especialistas em determinadas matérias. Os que lá trabalham estão sobreutilizados. É preciso lembrar que muitos estão fora em resposta a cooperação com diferentes povos de África e da América Latina. Mas, muitos simplesmente abandonaram o sistema comunista.

Agora, que a grande questão que construía a unidade nacional está a desmoronar-se (o bloqueio norte americano), fica-se com a impressão de que se vai entrar numa zona de sombra, onde não se sabe muito bem, quais as saídas para manter toda uma população mobilizada, motivada e sobretudo, ordeira e obediente. De um lado, uma população mais velha, completamente embebida pelos ideais da revolução; e do outro, a imensa população jovem sem muito apego a estes ideais.

Foi com mágoa que escutei uma enfermeira contando que um dos filhos, ainda jovem, tentou suicidar-se pela inadaptação a toda esta situação.

A grande questão é: quais os caminhos, estratégias, que restam a Cuba, para manter a sua opção política (o Socialismo) mas satisfazendo as necessidades básicas de sua população. É que os níveis de carência já começam a afectar as áreas sociais que eram vistas como o grande sucesso dessa política. Hoje começa a faltar materiais, consumíveis, em áreas como as da saúde.

De Havana, aquele abraço, com a esperança de que ainda vamos ter tempo para visitar as discotecas da terra, e dançar como só nós sabemos fazer…

2 Comments

  1. Cesário Silva

    Uma visão detalhada da Minha Cuba!
    Abraço e rápidas melhoras para o retorno à casa.

    Hasta la vista Compay

  2. Leo

    Boa analise.

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