Luis Enrique Gil

As Falácias de um país adolescente I. “O Imperio”.

A Venezuela é um país cheio de complexidades e com uma elite política de muitas contradições. Imagino que não tenhamos o “monopólio” de todos estes males, mas quando se analisa de uma forma desapaixonada a situação real da nossa república, apenas podemos concluir que somos um país adolescente.

Pois é. Um país adolescente. Uma população que, desde a sua elite até ao mais humilde dos cidadãos, não evolui até à sua maturidade. É duro admiti-lo. Porém, apenas assumindo esta situação, racionalizando-a, torná-la consciente, será a única forma de superá-la.

Vejamos alguns sinais do nosso precário caráter, pelo menos no plano politico, para nos alargarmos a outras áreas onde também se apresentam sintomas de adolescência social:

  1. Já a sociedade mundial sabe, pelo menos referencialmente, que a Venezuela padece de uma crise humanitária importante. Esta realidade é inegável para as cúpulas dirigentes deste país. Porém, em vez de assumir com firmeza os esforços para sair deste poço onde se encontram os venezuelanos, continua a diatribe politica, na luta pelo reconhecimento dos espaços de poder. Será que os nossos políticos ainda não perceberam que estão a ponto de perder a República e com ela todo o Poder como o conheciam?
  2. Em uma ânsia e desgastante luta por essa ideia de Poder, apresentam-se duas falácias de composição: 1. Por parte do setor oficialista propõe-se a ideia de uma batalha contra o “Império Norte-americano”, e em algumas oportunidades esta falácia chega a ser tão absurda que se admite que este conflito está a ser ganho; 2. Por outro lado, da facção opositora, que os “gringos” são nossos “amigos”, que a aplicação de sanções e que o intervencionismo estrangeiro, por parte da comunidade internacional e especificamente a intervenção americana, vão ajudar-nos a sair da crise. Chega a considerar-se, erroneamente, que virá uma força superior a remover do Poder os que hoje o detém e que logo se reconstruirá o país.
  3. Enquanto cada um dos lados se consome nas suas próprias falácias, a população venezuelana afunda-se de forma cruel em um mal-estar social sem precedentes, causado por uma economia que já não resiste a nenhum exame lógico. A qualidade de vida do cidadão está a ser “triturada” pela hiperinflação e pela escassez de produtos básicos. A dinâmica para produzir, importar e distribuir produtos de primeira necessidade está sequestrada de uma classe mafiosa, cheia de “esquemas” (umas oficiais e outras paramilitares) que encarecem a chegada de produtos aos grandes centros urbanos.

Agora, o que é uma falácia de composição?

Uma falácia, segundo autores desde Aristoteles até hoje, pode resumir-se no seguinte enunciado:

“falácia é um argumento que parece válido, mas não é”

HAMBLIN Charles. “Falácias” obra publicada em 1970

 

Partindo deste pressuposto, identificamos a definição de Robert Audi, que nos apresenta:

“A falácia de composição é uma falácia que consiste em inferir algo que é verdadeiro acerca de um todo, apenas porque é verdadeira apenas uma parte ou algumas partes”

Desta forma, quando se argumenta algo como válido, mas que não o é em toda a realidade do tema em questão, encontramo-nos nos planos da manipulação e da persuasão.

Entendemos que o espaço da política é o mesmo onde gravitam múltiplos interesses e cada grupo defenderá a sua própria conceção ou ideia que que lhe seja favorável.

Porém, construir falácias para justificar posições extremas e grupais, com um custo tão elevado como a destruição do país que estes grupos de políticos querem dirigir, é algo muito tacanho. É uma reação muito digna de um jovem adolescente que, em um jogo de futebol, desses amigáveis que no meu país chamam de “caimaneras”, ao ver a sua equipa perder, decide levar a bola, que lhe pertence. A equipa perde e acaba-se o jogo porque o dono da bola não aceita a realidade da derrota. Todos perdem.

Finalmente, os “gringos” ou qualquer outro Estado ou organismo da comunidade internacional, não são nem amigos nem inimigos. São Estados ou Nações com interesses próprios, que têm de ser alimentados e cujos líderes foram eleitos para dar-lhes cumprimento. “O Império” estará realmente na América do Norte pois a ideia de localizar geograficamente os grupos de Poder que “dominam” o mundo, parece anacrónica em uma dinâmica global que marca a nossa atualidade.

Qualquer pessoa mediamente informada poderia ripostar; por acaso Emmanuel Macron, atual Presidente da França e mediador da crise venezuelana, não foi funcionário e associado do banco Francês Rothchild & Cie, que é um dos principais e mais importantes entes financeiros da Europa, especialistas na área da assessoria de fusões e aquisições da banca privada? Por acaso isto não será “Império”?

Vamos continuar a circular por este tema, na difícil mas necessária tarefa de amadurecer. Tratar de vencer as falácias, tanto as criadas para manipular, como as históricas, que serão objeto de uma série de trabalhos que continuaremos a analisar e a opinar.

 

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