Luis Enrique Gil

Venezuela, um país vulnerável que deve despertar

Já explicamos em artigos anteriores a falácia onde se constrói uma sensação de riqueza nos cidadãos venezuelanos. Temos um Estado que recolhe lucros em dólares fruto da venda do petróleo, transformando-o em um Estado perigosamente rico. Dizemos “perigosamente” ao estarmos encurralados na volátil riqueza petroleira, deixamos de estar conscientes das nossas vulnerabilidades e debilidades enquanto sociedade.

“A Venezuela é um país politicamente muito imaturo. Além, disso, existe um perigo grave: não está consciente das suas debilidades. Estamos a viveruma vida feliz de parasitas”.

Há apenas uma coisa que a Venezuela tem de fazer, e a isso eu chamo de “plantar petróleo”. Implementar um plano nacional para que essa renda (rentismo petrolífero) se transforme em uma remuneração por trabalho, de criação, em um motor económico venezuelano, que não existe atualmente”.

Frases quase proféticas de Arturo Uslar que hoje, em plena crise económica venezuelana, nos obriga a várias reflexões: a atual crise económica é da única responsabilidade da elite dominante, uma crise com padrões que drenam toda uma cidadania. Quando Uslar no adverte, como venezuelanos, que “não conhecemos as nossas debilidades e que estamos a viver uma vida feliz de parasitas”, confronta-nos com uma realidade dura e crua.

Ao crer falsamente que os Venezuelanos somos ricos, a nossa atenção fica presa na forma como se pode distribuir essa riqueza e de que forma me chega a minha parcela desta riqueza, preocupando-me menos em como desenvolver uma vida produtiva. A consequência desta conduta é centrar o nosso esforço no acesso ao poder de influenciar que o “pedaço” dessa torta que me corresponde seja, efetivamente, grande.

Este comportamento torna-se geral e assim, desde o mais bem-sucedido empresário até ao mais humilde trabalhador no campo ou na cidade, desenvolvem um conjunto de atividades que visam apenas conseguir contatos junto do Poder, para usufruir desta política rentista do Estado, sob a falsa crença de somos ricos e de que nos corresponde uma quota-parte dessa renda. O primeiro que teremos de conseguir é uma consciência produtiva. Cada cidadão deverá zelar pela sua capacidade de produzir riqueza para si e para a sociedade, e que o fato de se tratar de um país produtor de petróleo nos dá uma vantagem enorme mas que não nos faz ricos de forma automática.

Ter petróleo, por exemplo, pode proporcionarmos melhores vias de transporte no campo, o que facilitaria a nossa capacidade para distribuir alimentos, mas não substitui o esforço produtivo dos empresários agrícolas. Por isso, agarrar-se à riqueza petrolífera e abandonar o campo, apoiados numa política de importação de alimentos é um erro colossal que nos atrasa e nos torna menos competitivos e soberanos.

Condutas deste tipo não as vemos apenas na elite governante, ainda que a sua responsabilidade seja inequívoca, mas também na preguiça produtiva do Venezuelano comum. Não é por acaso ou má-sorte que na nossa história necessitámos de importantes migrações para melhorar a nossa capacidade de empreendimento.

Nos séculos XIX e XX, chegaram às nossas terras os alemães, que fundaram a famosa Colónia Tovar no Estado Arágua; os franceses e Italianos que fundaram a Colónia Bolivar no estado Miranda e a colónia Independência no Estado Guárico; 40 famílias dinamarquesas que se radicaram em Bolivar, atualmente Chirgua, no Estado Carabobo; Colónia agrícola de Turén, por emigrantes europeus (inicialmente alguns alemães e posteriormente, na sua maioria italianos e espanhóis), fundada em 1949 no Estado Portuguesa de Venezuela. A todos estes movimentos, devemos acrescentar a migração de italianos, portugueses e espanhóis, aos quais devemos a construção da Venezuela moderna dos meados do Sec. XX, fazendo menção também à notória contribuição nos campos da engenharia e arquitetura dos norte-americanos, a quem Caracas deve obras como o Hotel Avila, a sede onde hoje funciona a Universidade Bolivariana (anterior sede da empresa Creole), a aula magna da UCV, em inumeráveis edifícios que fizeram da nossa capital uma cidade com ares de modernidade.

O chamado de hoje é para que se desperte. O Venezuelano deve abandonar esta fixação pela renda petrolífera, que se traduz em uma excessiva politização da sociedade. Empreender, produzir, buscar incessantemente uma melhor qualidade de vida, produto do seu próprio trabalho. Há exemplos históricos dessa qualidade, como Oscar Machado Zuluaga, empresário pioneiro da Aviação civil Venezuelana, fundador do aeroporto de La Carlota; Dom Santiago Alfonso Rivas & Cia, empresa que hoje conta com mais de 450 apresentações dos mais diversos tipos de produtos e marcas alimentares; José Joaquin González Gorrondona, Advogado, Economista, Banqueiro e Catedrático do Direito Civil Venezuelano.

O Venezuelano engenhoso, alegre, capaz de empreender o seu próprio caminho para a prosperidade; devemos ter força para consegui-lo, vencendo a nossa irredutível posição de povo subjugado por um fantasma que existe apenas em nós mesmos e nos nossos atavios heroicos do passado.

Devemos compreender que é muito mais digno construir uma empresa nova que ficarmos idiotizados e amarrados às grandezas do passado. Ver para a frente…

 

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