Opinião | Rodrigo Nunes

Guiné-Bissau: Os Ditadores e a Resistência

José Mário Vaz não é um ditador.

Ditadores na História da Humanidade foram Hitler, Estaline, Pinotchet, Mao Tse Tung ou Idi Amin. José Mário Vaz não se insere neste grupo. Ainda.

Mais do que o controlo político de um país, o que consolida um ditador é o controlo completo do sector militar, utilizando as armas ao belo prazer das ambições pessoais.

José Mário Vaz não tem o controlo dos militares da Guiné Bissau. Mas continua a tentar.

Logo depois da sua tomada de posse como Presidente da República, José Mário Vaz fez uma jogada de risco: exonerou o então todo-poderoso CEMGFA António Indjai, líder do golpe militar de 2012, e substituiu-o pelo discreto Biague NanTam.

Com Biague, que tinha sido subalterno na Brigada Fiscal quando José Mário Vaz era Ministro das Finanças, o Presidente da República acreditou ter conseguido decapitar todo o poder do comando militar, livrando-se das ameaças de um novo Golpe Militar. Só depois de Biague na chefia dos militares, e do afastamento de Indjai para a sua Ponta em Jugudul, é que José Mário Vaz se sentiu suficientemente confortável para iniciar o seu projecto de combate político contra a liderança de Domingos Simões Pereira no PAIGC, o qual não o tinha apoiado enquanto candidato presidencial oficial deste partido as presidenciais.

Mas Biague NanTam é hoje um líder militar enfraquecido. Apesar de ter conseguido pacificar os quartéis e manter o silêncio dos militares em face de uma crise política com efeitos devastadores para toda a população guineense. A realidade é que os quartéis estão divididos quanto ao seu substituto por verem nessa alteração a continuação da implementação total do projecto político de José Mário Vaz.

A estratégia de escolha de aliados nas áreas militares, segurança e da justiça por José Mário Vaz tem sido sempre igual. Primeiro maltrata e depois nomeia. Foi assim com o próprio Biague NanTam, foi assim com o Procurador-Geral Sedja Man, foi assim com o próprio Ministro do Interior Botche Candé. Para o substituto de Biague, tudo deverá ser igual. Primeiro maltrata publicamente de forma a permitir a queda em desgraça pública. Depois dá a mão e recupera publicamente com o selo presidencial. Os nomeados, como a estratégia de José Mário Vaz demonstra, dão ao Presidente, como sinal de gratidão, uma total e cega lealdade, fora de todos os códigos legais e constitucionais da Guiné-Bissau.

Dos três nomes apresentados pela e-Global como favoritos, o nome de Zamora Induta é o mais provável para a continuação desta estratégia de risco. No seu regresso ao país, o próprio Biague acusou Zamora de ter em preparação um Golpe de Estado, situação que levou a uma detenção sancionada pelo próprio Presidente. Zamora Induta, pela sua história e pelas suas decisões passadas no comando do EMGFA, não é consensual. E esta nomeação poderá ter efeitos catastróficos para o próprio Zamora Induta, para José Mário Vaz e para a própria Guiné-Bissau

Por enquanto, os militares, sobretudo a hierarquia predominante balanta, mantêm-se em silêncio face as intenções de José Mário Vaz. Mas nas actuais circunstâncias, interpretar este silêncio dos defensores da Constituição guineense como de passividade será um erro. O actual silêncio dos militares guineenses é de resistência.

José Mário Vaz não é um ditador. Ainda.

Rodrigo Nunes, em Luanda

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