Rodrigo Nunes

Botche Candé nos dias do fim

Qualquer observador político atento à situação na Guiné-Bissau percebe que o tempo do presidente José Mário Vaz está perto do fim. Não só perdeu de forma clamorosa a luta que manteve com a direcção do PAIGC – e que levou o país para uma profunda crise económica de consequências dolorosas para a população guineense – como lhe viu ser imposto pela CEDEAO um Governo onde não tem qualquer peso político. Pelo caminho, viu a sua clássica estratégia de dividir para reinar virar-se contra si próprio, levando a que os tradicionais aliados dos últimos três anos de luta o tenham deixado completamente abandonado.

Completamente não. A José Mário Vaz resta um único aliado, o único que tem tanto a perder com a derrota do presidente como o próprio presidente: Botche Candé.

Botche é um típico caso de sucesso guineense. Político e empresário, beneficiou originalmente de ter conseguido tornar-se em empresário do regime (há muitos regimes atrás) para ir conseguindo amealhar uma base eleitoral entre os fulas, na zona leste do país. Pelo caminho, criou o mito de que sem si, e sem os fulas, não era possível garantir a vitória em qualquer eleição.

Ambicioso, apesar de analfabeto, Botche quis continuar a subir e usou os seus conhecimentos em negociações e negócios de carácter duvidoso ao serviço do seu novo mestre, José Mário Vaz. Tornou-se o angariador de multidões das presidências abertas que se tornaram, elas próprias, as únicas formas das populações receberem quaisquer mil francos. Tornou-se o madeireiro que vendia o produto do abate ilegal dos últimos anos e que estava nas mãos da família do presidente. Tornou-se o Ministro do Interior numa Guiné-Bissau transformada em projecto de Estado Policial pela acção do seu presidente.

Ambicionou demais, caiu de alto. Sancionado, impedido de integrar o Governo de Aristides Gomes, razão principal para a exigência de última hora entre o presidente da república e a CEDEAO que ia deitando tudo a perder, Botche conseguiu ainda assim pequenas vitórias. Em primeiro lugar, foi nomeado “ministro de estado” sem ser aceite por qualquer governo em funções e conselheiro presidencial. Pelo meio conseguiu ainda nomear para Ministro do Interior o seu braço direito o brigadeiro general Mutaro Djaló, famoso unicamente na Guiné Bissau pela sua detenção por desvio de dinheiros públicos enquanto era quadro da educação, e que a sua própria esposa, a Sra. Candé fosse nomeada directora de logística do Ministério do Interior.

São estes os teus aliados na luta contra a corrupção, José Mário Vaz?

 

 

Rodrigo Nunes, Dakar

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