Rodrigo Nunes

E agora, José Mário Vaz?

Quando a mega manifestação anunciada pelo Colectivo de Partidos Políticos Democráticos tiver lugar em Bissau, a 10 de Novembro, já Botche Candé, actual Ministro do Interior da Guiné-Bissau, deverá estar a ocupar o lugar de Primeiro-Ministro, substituindo o desacreditado Umaro Sissoko. Mas será que Botche tem coragem para enfrentar esse teste, ou é só mais uma carta a ser queimada pelo Presidente da República José Mário Vaz na sua desesperada estratégia de fuga em frente?

José Mário Vaz teve desde o início do seu mandato como único e exclusivo ponto da sua presidência a revalidação do seu mandato, assumindo-se como o único político de relevo do país. Para isso, afastou um governo consensual do PAIGC, apoiou-se no PRS, fomentou a dissensão dos 15 do PAIGC, pediu apoio internacional que depois rejeitou quando a solução não foi do seu agrado.

Mais do que nunca antes do seu mandato, José Mário Vaz está isolado. Politicamente, conta com um PRS saído de um Congresso que fez trouxe mais divisão que união, levando a que um mês depois não tenha ainda sido apresentada qualquer vice-presidente do partido liderado por Alberto Nambeia. Conta também com um Grupo dos 15 que vale cada vez menos em termos políticos. Com o Congresso do PAIGC a realizar-se já no início de 2018, os 15 perdem definitivamente a hipótese de conquistar a direcção do partido (o mais provável é ficarem mesmo de fora do PAIGC de vez). Mais, o caso do assalto à sede do PAIGC a mando de um dos coordenadores do Grupo dos 15, o qual é apoiado pelo Presidente, trouxe uma mancha anti-democrática que será difícil de apagar e impossível de esquecer quer para o Presidente quer para os integrantes e apoiantes dos 15.

E depois há os militares, que deixaram o seu manto de silêncio para reafirmar a defesa da Constituição. A propósito da nomeação do novo CEMGFA, em comunicado oficial, as FARP referem que “a figura de CEMGFA é nomeada pelo Presidente da República ouvindo o Conselho de Ministros que tem por direito de escolher, entre os três nomes que constam da lista remetida ao Ministério da Defesa Nacional pelo Estado Maior General após sua aprovação pelo Conselho dos Chefes de Estado Maiores”. Traduzindo, serão os próprios militares, na figura do Conselho de Chefes de Estado Maiores, que irão escolher os três nomes de entre os quais sairá o futuro líder militar. Ou seja, a escolha não será escolha arbitrária do próprio Presidente, mas sim no quadro da Constituição.

Espera-se que José Mário Vaz, enquanto Presidente da República, tenha conhecimento da Constituição da República Guineense. Dessa forma, o relembrar do processo de escolha da figura de CEMGFA, dito pelas próprias FARP, só pode ser lido como um sério aviso à navegação de que não irão tolerar atropelos à Constituição, sobretudo os que mexam com os seus interesses.

Isolado, a José Mário Vaz resta-lhe como última tentativa de fazer valer o seu projecto: apostar no último dos 15 que ainda o pode proteger, o senhor das polícias Botche Candé. Resta saber se Botche não irá também ele recuar depois de Nuno Na Biam, o líder político dos Balantas, etnia maioritária nas FARP, o ter indicado como o primeiro alvo a abater em caso de repressão policial aos manifestantes de 10 de Novembro.

José Mário Vaz não tem já muitas opções. Bissau vai ter um Novembro quente, muito quente.

 

 

Rodrigo Nunes, Luanda

1 Comentário

1 Comentário

  1. faladepapagaio

    26/10/2017 at 18:05

    This story is out of reality!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Topo