Rodrigo Nunes

José Mário Vaz manipula espingardas e namora casernas

Isolado de aliados políticos, José Mário Vaz, presidente da República da Guiné-Bissau, volta-se para os militares para assegurar o último objectivo que lhe resta: garantir a sua própria sobrevivência. E até Bubo Na Tchuto já voltou a andar fardado nos quartéis de Bissau!

A CEDEAO sancionou-lhe o filho, testa-de-ferro dos seus negócios empresariais públicos e gestor dos seus dinheiros privados. O PAIGC conta os dias (ou será horas?) para o final do seu mandato. O PRS já veio a público dizer que só aceitam entrar num Governo apoiado num nome de consenso, deixando implícito o reconhecimento da legitimidade de Augusto Olivais ser nomeado Primeiro-ministro à luz do Acordo de Conacri. E o Grupo dos 15 deixou clara a sua posição ao patrocinar o regresso a Bissau do presidenciável Carlos Gomes Júnior, homem com muito mais peso político no aparelho do PAIGC do que José Mário Vaz e, em simultâneo, com uma popularidade muito superior à do actual presidente.

O presidente da república sentiu-se traído, e mais, ameaçado. Resultado? José Mário Vaz fez uma nova inversão de estratégia e aproximou-se da sempre imprevisível classe militar guineense. Carlos Gomes Júnior saiu do país decidido a só regressar em 2019. O Presidente acordou um dia de manhã e almoçou com as chefias militares. À tarde tirou da gaveta o decreto de nomeação de Daba Naualna como presidente do Supremo Tribunal Militar Superior, parecendo querer esquecer  que Daba já exercia estas funções há quase dois anos, sem que Vaz tivesse considerado necessário efectivar a nomeação através de decreto presidencial. Até agora.

Depois de Daba, promoções militares. Depois das promoções militares, a conversa com o CEMGFA Biague NanTam dando-lhe conta que não irá nunca implementar o Acordo de Conacri e que caso “algo” corra mal, os militares deverão tomar o poder.

José Mário Vaz está isolado. Mais que isolado, está enfraquecido. Provavelmente, o Irã de Calequisse terá revelado ao Presidente da República que o homem forte do país é Biague NanTam. O que Vaz não considerou foi que o Irã de Calequisse, à semelhança de muitas outras divindades, também pode errar.

Biague NanTam, o “CEMGFA demissionário mas que afinal não pediu a demissão porque não quer ver o seu lugar ocupado por alguém próximo de António Indjai”, faz face a uma onda de contestação silenciosa nos quartéis guineenses, exactamente por se ter deixado enredar na estratégia de José Mário Vaz. Biague pede, e bem, a todos os militares que não se metam na vida política. Mas quando faz isto, esquece-se de referir que ele próprio, ao se aproximar dos interesses políticos de José Mário Vaz, está ele próprio a não cumprir com os deveres de isenção que ordena aos seus subordinados. Mas compreende-se, afinal as obras do seu hotel em Finete ainda não estarão ainda finalizadas.

José Mário Vaz quer ter atrás de si a totalidade do poder militar balanta. Quer o líder actual Biague NanTam, quer os líderes do Comando Militar, quer o próprio Bubo NaTchuto, o traficante de droga condenado transformado em interlocutor privilegiado dos EUA, que agora se passeia fardado pelos quartéis de Bissau.

E assim, com o poder militar balanta atrás de si, José Mário Vaz senta-se confortavelmente no Palácio da Presidência, indiferente ao agravamento diário da situação social e financeira que a crise por si provocada produziu na Guiné-Bissau.

Crucifique-se ou glorifique-se José Mário Vaz, é um político que sabe bem o que quer para si: sobreviver.

 

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